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Especialistas explicam como humor, narrativa seriada e estereótipos como ‘alfa’ e ‘beta’ ajudam a amplificar a disseminação de conteúdos problemáticos
Conteúdos gerados por inteligência artificial viralizam nas redes sociais com a chamada “novela das frutas”. Nos vídeos, personagens com aparência de frutas em versão antropomorfizada encenam situações cotidianas, como no trabalho, na academia e em relacionamentos.
A protagonista costuma ser uma figura feminina – como a “Moranguete”, retratada de forma recorrente como infiel, interesseira ou não confiável. Ela frequentemente está envolvida em traições com outros personagens, como o “Abacatudo”, em troca de status ou dinheiro.
Mas esses formatos aparentemente humorísticos reforçam estereótipos de gênero e incorporam discursos misóginos, segundo especialistas ouvidas pela reportagem.
Esses conteúdos reproduzem uma lógica de classificação masculina baseada nos rótulos “alfa” e “beta”. O “alfa” é uma fruta com traços hiper-musculosos e bem-sucedida, que atrai parceiras e obtém vantagens sociais. O “beta” é retratado como um personagem sem atributos físicos idealizados, associado a um homem “bom”, mas desvalorizado e rejeitado.
A combinação desses elementos, somada a narrativas de traição e personagens estereotipados, ajuda a explicar por que esse tipo de conteúdo tem ganhado espaço nas redes.
Por que esses vídeos estão viralizando?
A psicóloga Arielle Sagrillo Scarpati, mestre em Psicologia Social pela Universidade Federal do Espírito Santo e doutora em Psicologia Forense pela University of Kent, explica que a tendência reúne fatores com alto potencial de viralização. “Esses conteúdos funcionam porque ativam gatilhos clássicos de engajamento nas redes”, afirmou.
Entre eles, está o estranhamento aliado ao humor, com personagens absurdos inseridos em situações cotidianas. Além disso, a fragmentação em episódios curtos incentiva o retorno do público e favorece a lógica dos algoritmos.
Outro elemento central, segundo Arielle, é o uso de personagens estereotipados, que simplificam a narrativa e facilitam a identificação imediata. “Figuras como a ‘mulher interesseira’ ou a ‘infiel’ reduzem a complexidade da história, ainda que às custas do reforço de preconceitos”, disse.
Na mesma linha, a pesquisadora Luciane Belin, doutora em Comunicação e pesquisadora do NetLab da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), nota que o formato se aproxima de outras tendências recentes de vídeos virais.
“Esse tipo de conteúdo lembra, em partes, o chamado ‘brainrot italiano’, em que objetos ou frutas replicam comportamentos humanos baseados em estereótipos de gênero”, disse.
Segundo ela, a estética também contribui para o engajamento, com uso de trilhas sonoras emotivas, linguagem infantilizada e recursos narrativos que estimulam a continuidade. “Os vídeos utilizam ‘ganchos’, em que terminam de forma abrupta para incentivar o clique no próximo episódio”, exemplificou.
Outro fator que impulsiona a tendência é o uso de ferramentas de inteligência artificial, que ampliam a escala e a velocidade de produção. Com a maior acessibilidade dessas tecnologias, há uma proliferação de conteúdos semelhantes.





