Saiu no site CBN
Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2019, somadas as horas remuneradas e não remuneradas, as mulheres trabalham em média 58,1 horas semanais, enquanto os homens trabalham 50,3 horas. A carga de trabalho não remunerado das mulheres chega a 21,3 horas semanais – mais do que o dobro das 8,8 horas dos homens. O total da jornada de trabalho feminina, portanto, equivale a uma escala 7×0, sem dias de folga.
As informações figuram como um dos aspectos que permeiam o debate sobre o fim da escala de trabalho 6×1, PEC discutida em Comissão Especial da Câmara.
Em entrevista ao Estúdio CBN nesta terça (26), Clara Saliba, economista, pesquisadora do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made-FEA/USP) e pesquisadora colaboradora no Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Unicamp, fala sobre o estudo “A jornada que não acaba para as brasileiras”.
O artigo analisa como a escala de trabalho 6×1 impacta a vida das mulheres atualmente. De acordo com a pesquisadora, esse trabalho não remunerado feito, em suma, pela população feminina é definido como “trabalho de cuidado”:
“O ‘trabalho de cuidado’ envolve todas as tarefas que precisam ser realizadas para que, em resumo, a vida exista e continue a existir. Ou seja, preparação de alimentos, arrumação da casa, cuidado de crianças, de idosos, de pessoas com deficiência ou pessoas enfermas. Então, esse trabalho não remunerado realizado pelas mulheres diz respeito a esse trabalho do dia a dia, de manutenção da casa e cuidado da família. Isso causa essa jornada 7×0. Com 54 horas semanais de trabalho, entre o trabalho remunerado e o não remunerado, as mulheres brasileiras acabam efetivamente não tendo um dia de descanso. São oito horas diárias, sem contar o tempo que elas precisam para se deslocar de um lugar ao outro ou para dormir, comer e tomar banho”, explica.
Ainda, o estudo observou que o padrão da escala de trabalho 7×0 para as mulheres é visto em todos os recortes de renda.
“Mesmo para as mulheres em estrato de renda maior ou com jornadas de trabalho maiores, o trabalho de cuidado continua representando uma carga significativa. (…) À medida que essas mulheres entram no mercado de trabalho, essa jornada diminui, mas não o suficiente para que não seja compensada pelas horas de trabalho remunerado. Há menos serviço dentro de casa, mas a quantidade de serviço fora é maior. (…) Por outro lado, quanto à renda, mulheres com maior poder aquisitivo possuem mais capacidade de barganha dentro do casamento. Isso ‘empurra’ os homens a fazerem um pouco mais dessas tarefas. Mas tanto as mulheres performam muito esse trabalho, quanto os homens não colaboram tanto”, ilustra.
Pobreza de tempo
Clara explica que o conceito de “pobreza de tempo” é um dos principais para entender a discussão acerca do fim da escala 6×1.
Como a pesquisadora ilustra, o tempo é um recurso que, até certo ponto, pode ser substituído pelo dinheiro: quanto mais se tem, mais é possível comprar itens que poupam o tempo direcionado a certas tarefas ou, ainda, delegar determinados serviços que utilizam o tempo. No Brasil, no entanto, vale ressaltar que parte da delegação ocorre para mulheres negras, com salários aquém do ideal.
“Mas essa substituição não é completa. Posso ter todo o dinheiro do mundo, mas ainda existem tarefas que requerem algum tempo meu e que não podem ser delegadas, como comer, ir ao banheiro, tomar banho e dormir. Então, as pessoas que são ‘pobres de tempo’ são aquelas que não têm nem tempo suficiente para realizar tudo o que precisam, nem dinheiro para delegar o que poderia ser delegado. Quando pensamos na escala 6×1, as mulheres estão em um cenário de maior pobreza de tempo do que os homens”, diz.









