Saiu no site O GLOBO
Estudo foi elaborado pelo Instituto de Segurança Pública e divulgado nesta quarta-feira
Pela primeira vez, o Instituto de Segurança Pública do Rio (ISP-RJ) se debruçou sobre publicações das redes sociais ao elaborar o Dossiê Mulher, estudo anual que chega à 21ª edição, divulgado nesta quarta-feira. Na análise do órgão, que foi além dos dados, o discurso “redpill” — que representa homens que entendem que estariam se opondo a um sistema que favoreceria as mulheres — e misógino (desprezo ou ódio contra as mulheres) está presente em postagens na web, que incitam a violência contra elas, disfarçado com dados, que podem ser falsos, de fontes não confiáveis ou deturpados, para justificar as falas. Esse debate é justificado para evitar que esses discursos se transformem em registros policiais futuramente.
— A gente só vai interromper esse ciclo de violência se trabalhar na raiz do problema. Isso vem de uma cultura machista da nossa sociedade, muito patriarcal, que acaba permitindo certos comportamentos misóginos, que acabam sendo naturalizados. É o que chamamos de microagressões — discursou Bárbara Caballero, presidente do ISP
O dossiê propõe a responsabilização do homem autor da violência, em vez de apenas focar a narrativa nas vítimas. Vinte anos após a criação da Lei Maria da Penha, o estudo do ISP pontua que o campo virtual é uma das formas encontradas de disseminar a misoginia.
Ao todo, cem publicações feitas em cinco perfis diferentes no X (antigo Twitter) da esfera redpill, entre o ano passado e este, foram analisadas. A amostra é pequena, mas suficiente para entender como esse tipo de discurso se apresenta. O estudo analisou que essas contas se retroalimentam e, juntos, alcançaram mais de 23 milhões de visualizações, além de 210 mil curtidas.
— É uma média de circulação muito grande. Estamos falando de um comportamento que, apesar de soar como comportamento de nicho, algo escondido, tem um potencial de circulação muito grande que atinge qualquer tipo de público, dos mais jovens aos mais velhos — avalia Laura Mariana da Costa, analista da Coordenadoria de Gestão do Conhecimento do ISP. — O discurso está mostrando uma violência ensaiada, então a gente quer agir para evitar que isso se transforme em dados (com registro em delegacias) de um futuro dossiê.
- Do Leme à Prainha: Rio lança Dia da Praia inédito no mundo e faz mutirão gigante com limpeza em 60 pontos da orla
No ano passado, 159.041 mulheres e meninas foram vítimas de violência no estado do Rio — três por minuto —, com 114.895 registros em delegacia, número que cresce desde 2020. Os números de vítimas e de registros são 3% maiores que os mesmos indicadores de 2024. O perfil das mulheres alvos da violência é de maioria negra (52,3%), solteira (47,9%) e jovem (29,8% têm entre 18 e 29 anos).
Os agressores homens são maioria nos casos de violência contra a mulher (71,5%), que são integrantes do convívio da vítima na maior parte das ocorrências. Já os dias da semana com maior quantidade de casos são os fins de semana (sábado e domingo). A principal forma de violência contra a mulher é psicológica, seguida por física, moral, sexual e patrimonial, aponta o dossiê.
Até PIX é usado para descumprir medidas protetivas
Já Vanessa Cardozo, coordenadora do Dossiê Mulher, analisa que “os números mostram como esse discurso (redpill) se transforma no modus operandi do agressor”. A maioria dos casos (49,7%) de violência contra a mulher acontecem em casa, mas o ISP já mapeia que a vitimização vem aumentando no ambiente virtual (representou 3,8% dos casos no ano passado).
A internet foi apontada como local de 29.147 ocorrências no ano passado, das quais 57,4% tiveram como mulheres como vítimas. Foram contabilizadas em território fluminense 5.970 vítimas mulheres de violência psicológica e moral em 2025. Só a violência psicológica concentrou 3.417 registros, um aumento de 20,6% em relação a 2024 e um número 1.300% maior que em 2015, primeiro ano da série histórica, quando havia sido computadas 239 vítimas do crime.
O dossiê aponta ainda que, nas Delegacias de Atendimento à Mulher (DEAMs), foram contabilizadas 2.521 vítimas de crimes praticados pela internet no estado em todo o ano passado, com ameaça (28,6% dos casos), injúria (20,6%) e descumprimentos de medida protetiva (7,7%) como os mais comuns.
Este último, inclusive, tem o meio digital como uma das formas de ação. No ano passado, o estado contabilizou 5.870 descumprimentos de medidas (maior número da série histórica, iniciada em 2018): um em cada dez ocorre virtualmente, seja por rede social, mensagem de WhatsApp e até transferência por PIX, meios usados para manter contato, monitorar e perseguir as vítimas.
Feminicídio: maioria dos agressores usavam álcool ou drogas no momento do crime
Outro recorte do estudo do ISP é sobre os feminicídios no estado, crime que teve 105 registros no ano passado, dois a menos que no ano anterior, mas terceiro maior índice da série histórica, que teve o ápice de casos em 2022 (111 ocorrências do tipo). Em 2025, o Dossiê Mulher aponta que 77,1% dessas vítimas não tinham medidas protetivas.
O ISP aponta ainda que 19% dos autores desses crimes tinham registros anteriores de violência doméstica: 65,2% dos criminosos foram presos. O consumo de álcool e drogas também é comum no momento do assassinato.
— Mais da metade (das vítimas de feminicídio) sofreu violência doméstica anterior, mas não registrou — aponta Vanessa Cardozo, que pontua que esse crime pode ser evitado.
Estratégias discursivas dos red pill
Ainda segundo a análise do órgão estadual, duas estratégias discursivas principais foram identificadas nos perfis dos red pill: a pseudo evidência — apresentação de dados, informações e estudos, mesmo que falsos ou usados de má-fé — e a posição de revelação, quando o discurso é apresentado como detentor da verdade. O que estaria por trás desses discursos, segundo a fala de Laura Mariana, é uma metáfora do relacionamento amoroso como um mercado.








