Saiu no site ESTADÃO
Em coleta de mais de 1 milhão de mensagens em chats extremistas, pesquisadores identificam apologia a crimes, vocabulário com humor como ‘estratégia discursiva’ e classificação de hierarquia entre homens e mulheres. YouTube diz ter política contra crimes de ódio, e Meta afirma remover conteúdo sempre que identificado
A colunista Luciana Garbin analisa o que está por trás das letras machistas e discute como a música pode influenciar comportamentos e a sociedade
BRASÍLIA — “Irmãos Redpill, sugiro atacarmos também as muié com florzinhas tatuadas. Todos sabem que as flores adoram receber muito pólen (ou esperma), que é um simbolismo para muié com fogo na prikita (ou peleleca)”.
A mensagem acima, de 20 de abril, é uma das milhares encontradas pelos pesquisadores do Laboratório de Humanidades Digitais (LABHD) da Universidade Federal da Bahia (UFBA) em levantamento feito desde janeiro de 2025 em chats extremistas do Telegram.
Com a Câmara dos Deputados prestes a votar o PL da Misoginia, que equipara o discurso de ódio contra mulheres ao racismo e prevê penas maiores, usuários radicalizados movimentam chats secretos do aplicativo para protestar contra o projeto e manter vivo o discurso que demoniza e prega violência contra mulheres.
Procurados, o Telegram e o X (antigo Twitter) não se pronunciaram. O YouTube informou ter políticas contra o discurso de ódio (leia mais abaixo). A Meta (responsável por Instagram, Facebook e WhatsApp) disse que remove esse tipo de conteúdo sempre que identifica violações (leia mais abaixo).
“Bom dia para aquelas pessoas que odeiam mulher, que criticam o Bolsa Família, que falam mal dos programas do governo e que torcem o nariz quando escutam sobre direitos das mulheres, SUS, INSS, Minha Casa Minha Vida, Caixa, Lei Maria da Penha, Enem, Fies, impostos, cotas, escala 6×1 e sub emprego”, diz uma mensagem de “bom dia” em 13 de fevereiro.
O estudo do LABHD mapeou os 12 grupos com a maior quantidade de mensagens no Telegram a partir de uma busca por termos relacionados ao discurso misógino. Foram coletadas mais de 1 milhão de mensagens de texto no período, das quais cerca de 13 mil foram identificadas como potencialmente misóginas ou atreladas à cultura “redpill”, e analisadas a partir de então.
O grupo com maior número de mensagens misóginas (2.751, ou 20,8% da amostra) tem 2.266 membros. O maior deles chega a 17 mil integrantes. Boa parte dos usuários omite a identidade real, usando codinomes, apelidos e imagens diversas, especialmente de desenhos japoneses.
“Boa parte da violência é imagética, sob a forma de memes, prints e tudo mais. A gente categorizou as imagens em três níveis de ataque, do nível três, o mais baixo, só da cultura masculina, até o nível um, que são mensagens de agressão aberta às mulheres. Das 47 mil fotos, o Gemini se recusou a examinar 274 delas, porque se tratam abertamente de crimes e de extrema violência, e feria os limites do modelo de análise”, diz o coordenador da pesquisa, Leonardo Nascimento.
A referência ao estupro e à agressão — e até morte — de mulheres é presença constante no “humor” compartilhado pelos usuários. Figuras femininas são retratadas como seres que buscam apenas sexo e que devem ser maltratadas por merecerem o castigo. Racismo e transfobia são comuns nesse tipo de conteúdo, e feminicídios são debatidos com naturalidade.
A pesquisa mostra que a machosfera (ecossistema digital de comunidades e usuários que promovem conteúdo masculinista, antifeminista e misógino) desenvolveu um vocabulário próprio. Trata-se de um léxico ao mesmo tempo descritivo e prescritivo, segundo o LABHD: classifica homens e mulheres em categorias hierárquicas e prescreve comportamentos considerados adequados ou ideais.
Os pesquisadores identificaram que a misoginia costuma se apresentar nesses ambientes sob a forma de humor, que seria uma “estratégia discursiva central” para a análise. O uso de memes e piadas nessas publicações, avaliam eles, é uma forma de camuflar o tipo de conteúdo e passar a ideia de uma “brincadeira”.
O léxico usado pelos usuários envolve situações de misoginia mais ampla, assim como aquela difundida em grupos mais extremistas como as subculturas da machosfera.
“De forma geral, trata-se de linguagem sexista, com forte apelo antifeminista e antiesquerda, de negação dos direitos humanos, promoção e incentivo de comportamentos violentos, difusão de estereótipos negativos, e criação de imagens e memes, articulando o aspecto cômico para reforçar estigmas contra as mulheres”, diz o relatório.
Fazem parte desse léxico termos como “escravoceta”, “conservadia”, “promíscua”, “feminazi”, “depósito de p****”, “succubus”, “honradinha”, “arregaçada”, “fêmea”, “prostituta”, entre outros.
Entre os principais discursos observados pelos pesquisadores estão o da desqualificação e desumanização da mulher, o da crítica ao feminismo e o da hierarquia da machosfera.
As mensagens recorrem a um vocabulário sistemático de desqualificação, aponta o estudo, como “muié”, “vagabunda”, “vadia”, “puta”, “cuíe” e “prostituta”, que reduz a mulher a categorias moralizantes e sexuais.
As palavras usadas pelos usuários servem como marcadores identitários e criam um senso de pertencimento à comunidade. Em vez de “mulher”, a palavra “muié” (5.185 ocorrências) é ao mesmo tempo insulto e saudação e mostra “como a desqualificação da mulher é incorporada ao tecido social dos grupos como linguagem corrente”, diz o relatório.
O termo “fêmea” (342 citações), por exemplo, tem por objetivo tratar mulheres como espécie biológica e não como pessoas. Já a expressão “honradinha” (273 citações) funciona como categoria depreciativa para descrever a mulher que já teve vários parceiros sexuais diferentes, mas hoje em dia busca refazer sua reputação, adotando uma postura ideológica conservadora, por vezes se pautando em perspectivas cristãs.
A referência ao feminismo aparece em 1.688 ocorrências, ou 12,8% do levantamento. O movimento é representado como inimigo, como ideologia destrutiva e como ferramenta de controle social.
A Lei Maria da Penha (101 menções), o principal instrumento jurídico no Brasil para combater violência doméstica, costuma ser citado como exemplo de privilégio concedido às mulheres em detrimento de homens que seriam supostamente “perseguidos”.
Os usuários misóginos também têm seus termos para listar as pessoas dentro desse sistema de classificação. Os termos “beta” (199 menções, referindo-se ao homem submisso), “msol” (543, referindo-se à mulher solteira vista como ameaça) e “honradinha” (273) servem para organizar as relações de gênero em uma hierarquia rígida, dizem os pesquisadores.
Para o LABHD, a arquitetura do algoritmo de mídias, como o Telegram, ajuda a criar uma espécie de vórtice conspiratório, fazendo com que o usuário, uma vez participando de um desses chats, entre em uma “toca de coelho” e é facilmente levado a ter contato com outros grupos onde circulam teorias da conspiração das mais diversas.
O YouTube aparece como a plataforma que mais teve conteúdo compartilhado pelos usuários (44% dos links), à frente do próprio Telegram (18%), Instagram (16%) e X (14%). Tratam-se sobretudo de canais da machosfera brasileira e internacional, de acordo com o estudo; conteúdo antifeminista em formato de entrevista ou documentário; e memes em vídeo com conteúdo misógino.
Procurado, o YouTube afirmou ter políticas rígidas contra o discurso de ódio e as aplica “com consistência”, conforme consta em seu Relatório de Transparência. A Meta afirmou que incentiva as pessoas a denunciarem qualquer publicação que considerem violar suas diretrizes:
“A Meta não permite conteúdo que promova ataques diretos a pessoas com base em características protegidas, conforme estabelecido em seus Padrões da Comunidade, como raça, etnia, nacionalidade, deficiência, religião, casta, orientação sexual, sexo, identidade de gênero e doença grave. Removemos esse tipo de conteúdo sempre que identificamos violações e aplicamos as medidas previstas em nossas diretrizes”, diz a empresa em nota.
O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, em junho de 2025, que as plataformas digitais estão sujeitas à responsabilização civil se não atuarem imediatamente para retirar conteúdos que configurem a prática de crimes graves, como instigação à mutilação ou ao suicídio, racismo, homofobia e crimes contra mulheres e crianças.
Neste caso, a responsabilização ocorre se houver falha sistêmica, em que o provedor deixa de adotar medidas adequadas de prevenção ou remoção dos conteúdos ilícitos, em violação do dever de atuar de forma responsável, transparente e cautelosa. Não há punição pela circulação de um conteúdo específico, mas pela inação das empresas em combater essa disseminação.







