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Levantamento com 26 mil brasileiras revela que mães de filhos mais velhos também têm probabilidade 60% maior de sofrer esse tipo de violência, na comparação com quem nunca engravidou

Mulheres grávidas ou com filhos de até 18 meses têm quase o dobro de probabilidade de sofrer violência psicológica por parceiro íntimo, na comparação com aquelas que nunca tiveram uma gestação. A conclusão é de um estudo da Faculdade de Medicina da USP publicado no Journal of Interpersonal Violence. Entre mães de filhos mais velhos, o risco também é maior, 60% acima da referência.

Na população feminina geral avaliada, a taxa de violência psicológica foi de 7,9%. Já a de violência física ou sexual, que atingiu todas as mulheres igualmente, foi de 3,6%.

A violência por parceiro íntimo é um problema de saúde pública global. Segundo um estudo publicado em 2022 na revista The Lancet, 27% das mulheres com histórico de relacionamento afirmam ter sofrido violência física ou sexual por parceiro íntimo ao longo da vida.

 

“A ideia romantizada que as pessoas têm, e eu também tinha, é de que a gravidez é um momento mágico da família, em que a mulher pode contar com o suporte social de todos”, diz Alexandre Faisal-Cury, ginecologista, obstetra e primeiro autor do estudo. Os achados, no entanto, não corroboram essa percepção.

O estudo usou estatísticas da Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, do IBGE, que entrevistou cerca de 26 mil mulheres de 18 a 49 anos em todo o país. As participantes foram divididas em três grupos: mulheres sem filhos, gestantes ou mães de bebês com até 18 meses, e mães de filhos acima dessa idade. Os dados foram ajustados considerando fatores que poderiam distorcer a comparação, como escolaridade, renda, situação conjugal e área de moradia.

Para Faisal-Cury, a explicação mais provável está na combinação de fatores relacionados à chegada de um bebê. Gestações não planejadas, privação de sono, queda na vida sexual do casal, mudanças hormonais e tensões financeiras são algumas delas. “Para muitos casais, a gravidez bagunça o cenário e favorece que a violência psicológica, na forma de acusação, xingamento e desvalorização, aconteça justamente nesse período de adaptação”, afirma.

A literatura internacional sobre o tema é dividida. Alguns estudos mostram queda da violência durante a gravidez, atribuída à maior união do casal e ao cuidado redobrado com a saúde do bebê. Outros apontam aumento, puxado por ciúme, incerteza sobre paternidade e o estresse da transição para a parentalidade. Há ainda pesquisas que não encontram variação alguma.

Segundo Faisal-Cury, essa divergência tem explicação metodológica. Cada estudo usa um recorte de tempo diferente para medir a violência, o que dificulta a comparação direta entre os resultados.

O que os dados brasileiros deixam claro, segundo o pesquisador, é que a gravidez não funciona como proteção. Ao contrário. Pode-se dizer, então, que a maternidade é um fator de risco para a violência doméstica? “Essa é exatamente a conclusão da pesquisa”, diz o médico.

O pesquisador defende que a triagem para violência por parceiro íntimo passe a fazer parte da rotina do pré-natal e do puerpério. Profissionais de saúde deveriam ser treinados para reconhecer os sinais sutis do abuso e abrir espaço para que a mulher fale sobre o problema, ainda cercado de estigma.

 

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