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Sob Trump, EUA chegam aos 250 anos em meio a ofensiva contra direitos das mulheres e novo cerco ao voto feminino

Saiu no site O GLOBO

Quando a filósofa francesa Simone Beauvoir afirmou que basta “uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados”, na década de 1940, o sufrágio feminino era incipiente na França, mas já existia há quase 30 anos nos Estados Unidos. Visto como berço da democracia moderna, o país conseguiu manter por muito tempo a ideia de que o progresso era feito em linha reta. Talvez por isso, quando apoiadores de Donald Trump disseram que as mulheres não deveriam votar, em 2016, a retórica foi amplamente interpretada como piada de grupos marginalizados na internet. Dez anos depois, no entanto, a história é outra: no momento em que o país chega ao seu 250º aniversário, figuras políticas influentes no governo flertam com a ideia de revogar a 19ª Emenda, e um projeto de lei que criaria barreiras para o voto — em especial o feminino — é hoje a principal prioridade do presidente antes das eleições de meio de mandato.

— O mais surpreendente não é a repercussão que essa ideia vem obtendo, já que ela continua sendo bastante marginal, mas o fato de fazer parte do discurso político atual nos Estados Unidos — disse ao GLOBO Sophia Rosenfeld, professora de história na Universidade da Pensilvânia e autora do livro “A era da escolha: uma história da liberdade na vida moderna”, em tradução livre. — A maioria de nós considerava a questão do voto feminino resolvida há pouco mais de 100 anos.

A discussão ganhou destaque em agosto, quando o secretário de Defesa americano, Pete Hegseth, compartilhou nas redes sociais uma entrevista do pastor conservador Doug Wilson. O religioso, que se autodeclara nacionalista cristão, disse à CNN que gostaria de ver os EUA se tornarem um país cristão e patriarcal, defendendo que mulheres sejam submissas aos maridos e não ocupem funções de combate nas Forças Armadas — posição que Hegseth também apoiou no passado, embora tenha recuado durante sua sabatina no Senado. À rede americana, Wilson declarou: “na minha sociedade ideal, votaríamos como famílias. Eu normalmente seria a pessoa a depositar o voto”.

Diante da repercussão negativa, o Pentágono declarou que o secretário “acredita que as mulheres devem ter o direito de votar”, ressaltando, porém, que Hegseth é “um membro orgulhoso” da igreja de Wilson e “aprecia muitos dos escritos e ensinamentos” do pastor.

Ele não é o único: em 2024, o bilionário Elon Musk escreveu “observação interessante” ao republicar no X uma postagem da conta Autism Capital que afirmava que uma “República de homens de alto status é a melhor para tomada de decisões”, argumentando que “mulheres e homens com baixo T [testosterona]” são incapazes de pensar livremente. Um ano antes, Musk apoiou a ideia de que “a democracia não funciona a longo prazo sem limitar o sufrágio aos pais”.

No mesmo ano, o advogado Paul Ingrassia, indicado por Trump para comandar uma agência federal independente de combate à corrupção, sugeriu apoio à ideia. Na Convenção Nacional Republicana de 2020, a ativista antiaborto Abby Johnson defendeu um novo sistema eleitoral em que famílias, e não indivíduos, votariam. O bilionário Peter Thiel, que ajudou a financiar a carreira política de JD Vance, publicou um ensaio em 2009 no qual afirmava que talvez tenha sido um erro conceder às mulheres o direito ao voto. E um número crescente de influenciadores de direita passaram a afirmar abertamente: “parem de deixar mulheres votarem”, escreveu Andrew Tate, acusado de estupro e tráfico humano, libertado no ano passado após cultivar relações com Trump.

— A ascensão de Trump é central nesse processo porque muitos setores da direita o utilizaram como símbolo para travar uma guerra contra o chamado ‘fusionismo conservador’ do século XX e substituí-lo por uma nova política conservadora, mais populista e nacionalista — disse ao GLOBO Ryan Dawkins, professor assistente de ciência política no Carleton College. — Esse movimento inclui a consolidação do nacionalismo cristão e a difusão de ideias profundamente reacionárias sobre gênero, sexualidade e direitos das mulheres.

O discurso também ressoa no Brasil: na semana passada, o blogueiro bolsonarista Paulo Figueiredo afirmou que mulheres “votam muito mal”, especialmente as solteiras, já que as casadas tenderiam a acompanhar os votos dos maridos.

‘Empatia tóxica’

 

Na campanha eleitoral de 2016, um levantamento feito pelo site de análise política FiveThirtyEight mostrou que, se a eleição contabilizasse apenas os votos femininos, a candidata democrata Hillary Clinton venceria a Presidência com 458 votos no Colégio Eleitoral, enquanto Trump teria apenas 80. A publicação foi o bastante para que apoiadores do republicano começassem a publicar a hashtag #RepealThe19h (“Revogue a 19ª Emenda”), em referência à emenda americana que concedeu às mulheres o direito ao voto em 1920.

Desde então, a ideia ganhou força. Embora a maior parte dos americanos a veja como uma regressão, seus defensores acreditam que este é o modelo idealizado por Deus. Nessa corrente, muitos passaram a afirmar que o sufrágio feminino dividiu famílias, argumentando que a “ternura natural” das mulheres as torna suscetíveis a apoiar candidatos favoráveis à imigração e políticas liberais. Conservadores conhecidos em círculos evangélicos chamam isso de “empatia tóxica” feminina — e indicam que o voto por família decorre “naturalmente” do patriarcado bíblico.

Ao New York Times, membros da igreja King’s Way reconheceram que, como ainda não foi testado, o modelo de voto por família pode apresentar alguns problemas básicos. Mulheres solteiras, disseram, poderiam ser representadas por pais, irmãos ou tios. Mas, em seu modelo ideal, elas seriam casadas — e apenas com homens, considerando que homossexuais não têm lugar nesse sistema. Os casais da congregação citam como inspiração os anos 1950, 1880 ou mesmo antes, quando transformações trazidas pelo feminismo ainda não existiam.

Manifestante segura cartaz com a mensagem “Resista, insista, persista e vote” durante a Marcha das Mulheres, em Chicago, em 20 de janeiro de 2018 — Foto: Christopher Dilts/Bloomberg
Manifestante segura cartaz com a mensagem “Resista, insista, persista e vote” durante a Marcha das Mulheres, em Chicago, em 20 de janeiro de 2018 — Foto: Christopher Dilts/Bloomberg

Revogar a 19ª Emenda, no entanto, exigiria a aprovação de outra emenda constitucional, disse Dawkins. Seria necessário o apoio de dois terços dos membros de ambas as casas do Congresso e a ratificação por três quartos dos estados, o que, na avaliação de especialistas, torna o processo improvável. Ainda assim, o pastor americano Dale Partridge acredita que, à medida que mais pessoas adotarem papéis tradicionais de gênero, estados conservadores passarão a criar barreiras ao sufrágio feminino. E mesmo ele se surpreende com a rapidez da mudança no debate: “Há apenas alguns anos”, disse, “você seria massacrado por falar sobre isso”.

— Nos EUA, os estados têm competência para definir quem pode votar, e a 19ª Emenda apenas estabelece que nenhum estado pode usar o sexo como critério para negar o direito ao voto — disse ao GLOBO a historiadora Lisa Tetrault, professora associada na Universidade Carnegie Mellon, especializada na história das mulheres e gênero nos EUA. — Um estado poderia, e isso se torna cada vez mais plausível, aprovar uma lei determinando que apenas chefes de família possam votar. Nesse cenário, a interpretação dos tribunais seria decisiva, e a atual Suprema Corte está aberta a esse tipo de argumento.

Obstáculos ao voto feminino

Os obstáculos ao voto feminino também podem surgir de formas menos explícitas. O Senado americano agora analisa o projeto “Save Act”, que busca exigir que eleitores comprovem ser cidadãos dos EUA quando se registrarem para votar. Trump pediu ao seu partido que pressione pela medida, e ameaçou, no mês passado, não “sancionar nada até que isso seja aprovado”. Ao explicar seu apoio à medida, ele voltou a repetir afirmações falsas sobre a eleição de 2020 e destacou que a proposta criaria padrões mais rigorosos de documentação.

Se aprovada, a lei exigiria que cidadãos apresentassem documentos como passaporte ou carteira de motorista acompanhados de uma certidão de nascimento, o que muitos não possuem. Estudos indicam que cerca de 11% dos eleitores elegíveis não têm acesso a certidões de nascimento, enquanto 52% não possuem passaportes válidos. Pelo menos 21 milhões não têm acesso fácil a documentos que comprovem sua cidadania. Ao mesmo tempo, um levantamento do Brennan Center for Justice que analisou a eleição de 2016 descobriu que apenas 0,0001% dos votos (30 casos) em 42 jurisdições, com um total de 23,5 milhões de votos, eram suspeitos de incluir votos de não cidadãos, ato que já é ilegal no país.

— O problema do Save Act é que ele pode ser interpretado de forma a negar completamente o direito ao voto. Mesmo republicanos no Senado reconhecem isso, o que ajuda a explicar por que provavelmente não estão entusiasmados com sua aprovação — disse Dawkins.

Manifestantes participam da Marcha pela Liberdade Reprodutiva em Birmingham, no Alabama, em 2019 — Foto: Melissa Golden/The New York Times
Manifestantes participam da Marcha pela Liberdade Reprodutiva em Birmingham, no Alabama, em 2019 — Foto: Melissa Golden/The New York Times

Críticos afirmam que a proposta afetaria desproporcionalmente mulheres e pessoas trans, além de pessoas que mudam de residência com frequência, incluindo integrantes das Forças Armadas, e aquelas afetadas por mudanças de vida disruptivas, como desastres naturais. Mulheres que mudaram legalmente de nome após o casamento estão entre as mais afetadas: segundo o Pew Research Center, estima-se que 69 milhões de mulheres nos EUA tenham nomes legais que não correspondem aos registrados em suas certidões de nascimento. Para votar, elas precisariam apresentar documentos que comprovem a mudança de nome.

— A ironia, claro, é que essa prática é hoje menos comum entre mulheres liberais do que entre conservadoras — disse ao GLOBO a autora Ellen Carol DuBois, professora aposentada da Universidade da Califórnia e uma das pioneiras nos estudos de gênero no país. — É importante destacar que o direito de voto das mulheres raramente foi revogado em qualquer lugar do mundo porque o voto feminino beneficia todos os partidos, e nenhum deles está disposto a abrir mão desse eleitorado. Isso contrasta, por exemplo, com o voto da população negra americana, que é majoritariamente democrata e, portanto, representa uma ameaça real para os republicanos. Daí seus esforços constantes para restringi-lo.

Agenda à direita

Em 4 de julho de 1776, os pais fundadores dos EUA estabeleceram um princípio que atravessaria séculos: “todos os homens são criados iguais”. Visto até hoje como um ato progressista, o documento que marcou a Declaração de Independência americana não contemplava as mulheres como titulares plenas de direitos. Foram necessários mais 100 anos para que elas conquistassem o direito ao voto no país — e, mesmo assim, o caminho não estava totalmente aberto. Até 1974, muitas ainda precisavam da assinatura de um homem para abrir uma conta bancária ou ter um cartão de crédito em seu próprio nome, o que significa que o ser humano foi levado à Lua antes de as mulheres conquistarem liberdade financeira na terra do sonho americano.

De lá para cá, o alerta deixado por Beauvoir foi ilustrado outras vezes: desde o primeiro mandato de Trump, em 2017, os indicados por ele para a Suprema Corte alteraram o equilíbrio do tribunal; a Justiça derrubou a histórica decisão Roe v. Wade, deixando a decisão sobre o aborto para os estados — com muitos tornando a prática ilegal —; o governo revogou uma ordem que desde 1965 proibia contratados federais de discriminar funcionários por sexo, raça ou religião e, de maneira mais ampla, buscou eliminar políticas de inclusão, atacadas sob o rótulo de “woke” (como o presidente e seus apoiadores chamam pautas ligadas à igualdade).

— Essa retórica tem um peso simbólico importante tanto nas guerras culturais quanto na política altamente polarizada dos EUA — disse Rosenfeld. — Não acredito que exista qualquer risco de a 19ª Emenda ser revogada em um futuro próximo. Mas essa discussão desloca o debate sobre eleições, sexo e gênero de maneiras que, embora possam alienar muitas pessoas, também ampliam os limites da conversa nacional em direção a uma agenda cada vez mais alinhada à extrema direita.

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