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‘Violência não é só de homens contra mulheres, mas de mães contra filhos’, diz pastora Helena Raquel

Saiu no site FOLHA

São Paulo

Todo ano, em Camboriú (SC), acontece o Congresso Internacional de Missões dos Gideões Missionários da Última Hora. É um evento bem relevante no calendário pentecostal, vitrine para pregadores de todo o país.

A edição 2026, realizada entre abril e maio, contou com nomes graúdos no evangelicalismo nacional, do deputado Marco Feliciano (PL-SP) a José Wellington Costa Jr., presidente da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Nenhum deles provocou tanto impacto quanto a pastora Helena Raquel.

“Tenho 47 anos e nasci num lar cristão“, disse uma das oito mulheres, entre 61 convidados, escaladas para o púlpito. Helena conta então que desde cedo ouvia súplicas para que as fiéis não denunciassem agressores e abusadores, inclusive de crianças. “Pelo amor de Deus, não fala para não escandalizar”, ou “ora para Jesus salvar”, coisas assim.

A pastora Helena Raquel durante sua pregação no Congresso dos Gideões, no sábado (2), em Camboriú (SC) – Reprodução TV Gideões

Deus a trouxe ali “para salvar tua vida da morte”, afirmou em pregação que ricocheteou por igrejas e também fora delas. Helena lembrou que a violência doméstica afeta mulheres evangélicas em níveis superiores aos da média nacional, daí a importância em não abafar esses casos.

“Para de orar por ele hoje e comece a orar por você. Você precisa ter coragem para sair e fazer a denúncia”, disse aos pares de fé. “Não acredite no pedido de desculpas, porque quem agride mata. Saia daí.”

Abusos contra menores de idade também não devem ser encobertos, defendeu a pastora da Assembleia de Deus Vida na Palavra, sediada na baixada fluminense. “Você tem que entender que pedófilo não é ungido. Pedófilo é criminoso.” E mais: não existe a figura de um “pastor abusador”, porque “ou é pastor, ou é abusador”.

Neste domingo (10), Helena vai celebrar seu primeiro Dia das Mães. Dias antes, contou à Folha sobre o “encontro de almas” que teve com sua filha. Maria Clara já tinha 18 anos quando foi adotada, idade em que não cabia mais no abrigo. São mãe e filha há nove meses.

O papel maternal sublinhou um desgosto que Helena já tinha ao perceber tantas mulheres protegendo homens violentos. O tema atravessou sua vida quando ela começou a encorpar sua presença digital –só no Instagram, tem hoje 1,7 milhão de seguidores. Recebia por ali muitos relatos de “irmãs que abriam o coração”.

Um caso a marcou. Foi procurada por uma mãe “extremamente perturbada, angustiada”, mas que “tomou o caminho errado de não denunciar”. Essa mulher acreditava que o marido, que abusava da filha dela, mudaria na base da oração. Precisava salvá-lo.

“Essa história acendeu uma lâmpada dentro de mim”, afirma. “Uma mãe estava escolhendo o cônjuge em prejuízo da filha.” Para Helena, “a violência não é só de homens contra mulheres, mas de mães contra filhos”.

Helena, com uma trajetória pastoral de mais de três décadas, sabe que furou a bolha evangélica. Até a primeira-dama Janja repostou seu vídeo pregando. Está num momento curioso da vida, exaltada até mesmo em rodas progressistas que antes ou a ignoravam ou a rotulavam, “pejorativamente”, de extrema direita, por ser uma crente que zela por “temas importantíssimos na igreja, como a defesa da vida, a questão do aborto”.

Em seu círculo, ganhou muitos aplausos, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL-DF) inclusa. Mas também despertou a fúria de algumas lideranças. O azedume geralmente é destilado nos bastidores, pela impressão de que pegaria mal dar a entender ser contra o combate a pedofilia e violência doméstica.

A declaração nos Gideões, para esses críticos, estigmatiza um segmento inteiro, lançando suspeitas amplas sobre todo e qualquer evangélico.

O pastor Ciro Zibordi foi um dos que foi a público contra Helena. No Instagram, ele afirmou que “estava na cara” que a fala seria usada “de modo generalizante por feministas, mídia evangelicofóbica, artistas que demonizam pentecostais e inimigos do Evangelho, em geral”.

A pastora reproduz uma pergunta feita a ela por um seguidor: ela não teve medo de enfraquecer a igreja ao expor suas fraquezas, sobretudo em ano eleitoral?

“Olha que coisa louca.” Para ela, como uma mulher de Deus, não havia outra opção. “O que entendo é que é justamente o contrário. Não é muito mais honesto dizer que temos um problema e estamos interessados em resolvê-lo?”

Não é muito mais honesto dizer que temos um problema e estamos interessados em resolvê-lo?

Ela ressalta: não afirmou em momento algum que todo fiel era um suspeito em potencial. “Sou casada com homem evangélico, filha de homem evangélico. Não é isso, gente.”

Se a pregação incomodou tanto, foi porque transbordou para além dos templos, ela avalia. “Sabe aquelas coisas de querer tratar como problema de família, ‘fica entre nós’? Mas é uma questão internacional, não deveria ter nem barreira partidária.”

Helena não vê por que “fazer discurso pra igreja ficar bem ou mal” com político X, Y ou Z. “A gente não pode acreditar que tratar das nossas dores, das correções que precisamos fazer, seja macular a igreja.”

Em vez de se engalfinhar no ringue ideológico, seria muito mais oportuno que candidatos se dedicassem a questões concretas da vida cotidiana, como fome, desemprego e previdência, diz. “Sou pastora em Queimados, na Baixada Fluminense. Na nossa igreja, [se os pastores ficarem falando de política, os fiéis] vão olhar pra nossa cara e falar, ‘tá, mas fala sobre mim, sobre minha vida’.”

Seu futuro eleitoral a Deus pertence. Helena admite a possibilidade de concorrer a algum cargo em eleições futuras, embora descarte que o faça neste ano –e nem poderia, já que o prazo para se filiar a um partido já passou.

Prefere, aliás, não se deixar rotular à direita ou à esquerda. Outro enquadramento a agrada mais. “Sou uma mulher bíblica.”

“Vão dizer ‘ela é progressista’. Zero preocupação que façam uma leitura dessas sobre mim. Se quiserem dizer, que digam, não vou abrir mão das coisas em que acredito”, afirma a mulher que já orou com a pastora Elizete Malafaia, esposa de Silas Malafaia, abraçada a uma bandeira do Brasil.

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