Saiu no site CNN
Uma advogada acusa o ex-companheiro, um capitão da PMESP (Polícia Militar do Estado de São Paulo), de tentar estuprá-la e de manter com ela um relacionamento marcado por quase 10 anos de violência física e psicológica que atingiram até o filho pequeno do casal.
A mulher de 33 anos, moradora de São Caetano do Sul, no ABC Paulista, relatou à CNN Brasil histórias de violência doméstica com agressões verbais e físicas que se estenderam inclusive ao filho, enquanto ele ainda era um bebê, e culminaram no episódio de tentativa de estupro ocorrido em 28 julho de 2024.
Após anos de sofrimento, a mulher decidiu relatar o caso, mas pediu para ter sua identidade preservada. A advogada esteve em um relacionamento com o capitão da PM Rafael Serpa Boni, de setembro de 2014 até meados de 2020.
A defesa do PM Rafael nega as acusações e afirma que a mulher busca “apenas criminalizar os desgastes de um divórcio litigioso”.
Década de violência
Entre setembro de 2014 até meados de 2020, a advogada e o PM Rafael moraram juntos pela maior parte do tempo. Após se separarem por cerca de dois anos, eles reataram o relacionamento em 2022, ficando juntos por alguns meses e então se separaram definitivamente em fevereiro de 2023.
Durante este período, a mulher conta ter perdido duas gestações, sendo uma de gêmeos em 2021. Ela atribui a perda ao estresse sofrido na época em que esteve com o ex-parceiro. Como consequência, desenvolveu depressão grave persistente e refratária, diagnosticada por psiquiatra, e que resultou em quatro tentativas de tirar a própria vida no início de 2022.
Após o caso de tentativa de estupro, a advogada decidiu não procurar a Polícia Civil em um primeiro momento pois buscava preservar o relacionamento do pai com o filho. Ela ingressou com uma denúncia na Polícia Militar para uma apuração interna, pedindo que Rafael assumisse o feito.
Uma sindicância chegou a ser instaurada pela PMESP, mas foi arquivada pela falta de evidências para corroborar o relato da vítima. Após isso, ela decidiu procurar também a Polícia Civil e registrou um boletim de ocorrência, que resultou na abertura de um inquérito policial que segue sob investigação na Polícia Civil.
A advogada compartilhou com a reportagem um áudio de uma conversa com Rafael, dois dias após o episódio, em que diversas vezes ele admite e pede desculpas pelas agressões. Na ocasião, ele ainda tentou equiparar a tentativa de estupro com um episódio em que a mulher teria ficado com um colega da PM, enquanto eles estavam separados.
“Eu to me sentindo humilhado pelo desrespeito que eu te causei. Me desculpa, eu sei que é indefensável o que eu fiz“, afirma o policial em um trecho da conversa.
Apesar de possuir uma medida protetiva contra Rafael, a advogada precisa lidar com crises de ansiedade e TEPT (Transtorno de Estresse Pós-Traumático), além do cuidado com o filho, que atualmente tem 10 anos. “Estou no auge do desespero. Há anos vivo um inferno”, relata a mulher.
Episódios de violência
A advogada conta que os abusos começaram em 2016, meses após o nascimento do filho do casal, com agressões verbais que causaram grande transtorno psicológico. “Ele me xingava de burra e dizia que eu marcava cafés com coronéis para ter relações sexuais e conseguir clientes“.
Ela conta de um episódio em que Rafael teria agredido o filho, enquanto ele tinha apenas um ano e meio de idade. “Ainda quando nosso filho era um bebê, estávamos em casa e ele fez cocô na fralda. Minutos depois, eu só ouvi um grito do meu filho e fui olhar. Vi a mão do Rafael levantada e uma marca vermelha no meu filho com o desenho da mão“, lembrou.
Em outubro de 2021, a advogada passou por um perda gestacional de gêmeos. No episódio, ela teve uma severa hemorragia interna, perdeu a trompa esquerda e uma parte de um ovário na cirurgia para retirar os bebês. “Tenho certeza que perdi os bebês pelo estresse, pelo abuso… tudo isso acabou afetando”.
Ela detalha que não se sentia mentalmente bem desde 2019. Mesmo antes da perda, mas principalmente depois, relatou que sofria abusos psicológicos constantes de Rafael. “Ele dizia que eu era uma péssima mãe, uma péssima esposa, que eu só dava problemas para a família… e eu saía de casa pensando que eles ficariam melhores sem mim”.
Entre janeiro e o início de fevereiro de 2022, a advogada tentou tirar a própria vida quatro vezes. Ela afirma que todas foram motivadas por discussões dentro do relacionamento tóxico com o ex-parceiro, e explica que a depressão que trata hoje não passa e já tem uma grande dificuldade de responder à medicação.
“Entrei com processo para ter acesso a um remédio que custa R$ 80 mil por mês, mas a Justiça marcou a perícia para novembro. Tenho que fazer o possível para acordar e não só sobreviver, tenho meu filho para cuidar“.
A mulher obteve as primeiras medidas protetivas de urgência contra Rafael em março de 2022, após relatar um caso de violência doméstica. Em uma discussão que teria sido iniciada por ciúmes, o policial teria a segurado pelo braço, levado ela até o quarto do filho e a empurrado, fazendo com que ela batesse a cabeça na moldura da janela. Na época, ele confirmou a discussão, mas negou a agressão.
Tentativa de estupro
A mulher relatou à CNN Brasil o episódio de tentativa de estupro que sofreu do ex-companheiro. Ela acusa Rafael de cometer as agressões por volta das 20h no dia 28 de julho de 2024, no prédio em que a mãe dela morava no bairro Santa Maria, em São Caetano do Sul. Na época do caso, o policial era lotado no 30° BPMM (Comarca de Mauá).
Ela conta que Rafael foi ao prédio para buscar o filho. Segundo ela, ele chegou no local bêbado, com cheiro forte de álcool, já agarrando a advogada e tentando beijá-la a força na frente do menino. Ao questioná-lo, he disse que havia passado o dia com amigos policiais militares e que eles tinham ingerido bebida alcoólica.
A advogada afirma que tentou se desvencilhar do ex-parceiro, mas ele a jogou na parede e começou a retirar as roupas dela. A mulher afirma que pediu diversas vezes para ele parar, mas o policial seguiu com a agressão.
No áudio enviado à reportagem, que reproduz uma conversa entre o casal dois dias após o episódio, ele admite as agressões.









