Saiu no site CORREIO BRAZILIENSE
Os números e as vivências evidenciam que o ambiente corporativo está longe de ser um espaço imune às dinâmicas de violência que marcam a sociedade brasileira
No final de 2025, o Brasil voltou a debater a pandemia de assassinatos de mulheres, as complexidades da sociedade em que vivemos e o permanente desafio de garantir o direito à vida a uma parcela da população que representa 52% do país. O que recebeu bem menos atenção, no entanto, foi a forma como essa violência estrutural de gênero também atravessa os portões das empresas e adentram no mercado de trabalho.
Dados da Justiça do Trabalho mostram que, em 2025, os casos de assédio sexual nas empresas cresceram 41%, saltando de 7.598 para 10.728 processos. Já as ações relacionadas a assédio moral aumentaram 26%, passando de 95.452 para 120.485 registros. Os números evidenciam que o ambiente corporativo está longe de ser um espaço imune às dinâmicas de violência que marcam a sociedade brasileira.
Esse cenário é reforçado pela Pesquisa Mapa do Assédio no Brasil 2025, elaborada pela KPMG. O levantamento revela que praticamente um terço da população brasileira sofreu algum tipo de assédio nos últimos 12 meses. Entre as vítimas, 44% relataram assédio moral ou psicológico e 38% optaram por não denunciar os episódios vivenciados. A pesquisa também destaca que 62% da amostra é composta por mulheres cisgênero, um dado relevante para a leitura dos resultados. Quanto aos tipos de violência mais recorrentes, o estudo aponta: assédio moral ou psicológico (44%), assédio por gênero (15%) e assédio sexual (14%), evidenciando a centralidade das relações de poder e desigualdade de gênero na configuração dessas violências.
Na Gestão Kairós, já lidamos com os mais variados desafios. Para mencionar alguns, trago o caso de uma mulher assassinada pelo marido no local de trabalho, ambos funcionários da empresa. De líderes assediando funcionárias menores aprendizes com menos de 18 anos de idade, de gestores insistindo em cumprimentar funcionárias com “selinhos” e mulheres estupradas por colegas de trabalho. Casos extremos, mas reais, que evidenciam que, para além do ambiente corporativo das grandes capitais, a cultura empresarial frequentemente se confunde com a cultura da própria sociedade, inclusive nos recônditos do Brasil. Por isso, quando vemos casos de feminicídio explodindo em escala na sociedade, precisamos obrigatoriamente pensar como essas situações estão sendo reproduzidas dentro das empresas. E isso não é somente falar de diversidade. É também falar sobre gestão de risco empresarial.
A discussão sobre assédio, violência e permanência de mulheres no mercado de trabalho deixou de ser apenas um tema de valores e passou a ser, de forma objetiva, um tema de conformidade legal e gestão de riscos. A NR-1 (Norma Regulamentadora nº 1) é a norma base de Segurança e Saúde no Trabalho (SST) no Brasil, estabelecendo diretrizes obrigatórias que as empresas devem seguir para garantir um ambiente laboral seguro e prevenir acidentes e doenças. A norma que exige que as empresas identifiquem, avaliem e gerenciem riscos psicossociais no ambiente de trabalho desloca o debate do campo da retórica para o campo da responsabilidade corporativa.
Assédio moral, assédio sexual, ambientes hostis, humilhações recorrentes e práticas de gestão abusivas deixam de ser problemas de comportamento individual que impacta diretamente a saúde mental, a segurança, a produtividade e a permanência de profissionais. Sobretudo mulheres.
Afinal, diante desse conjunto de dados e informações, o que se observa não é a soma de casos isolados, mas a expressão de uma violência estrutural que atravessa a sociedade e se reproduz no ambiente corporativo, justamente em um momento em que as empresas têm se comportado como se já tivessem equacionado as questões de diversidade e inclusão, cortando orçamentos, equipes e iniciativas de inclusão. Enquanto algumas lideranças empresariais afirmam que a única obrigação da empresa é obter lucro, casos como esses seguem ocorrendo de forma silenciosa no dia a dia.
Os números da Justiça do Trabalho, da Pesquisa Mapa do Assédio no Brasil 2025 e da trajetória na Gestão Kairós apontam para uma mesma conclusão: a de que mulheres são as principais afetadas pelo assédio sexual e pelo assédio moral no trabalho. Essa realidade está diretamente ligada a relações de poder desiguais, hierarquias organizacionais pouco questionadas e padrões culturais que naturalizam abusos e silenciam vítimas. Ignorar esse diagnóstico é perpetuar o problema; enfrentá-lo exige que empresas deixem de tratar o assédio como exceção e passem a encará-lo como um risco estrutural que compromete pessoas, culturas e negócios.







