HOME

Home

Por que precisamos falar sobre machismo?

Saiu no site MULHERES TRANSFORMADORAS

 

Veja publicação original: Por que precisamos falar sobre machismo?

.

A violência contra a mulher no Brasil é uma epidemia, cujo vírus está inoculado nos padrões de comportamento construídos pela nossa sociedade. Os feminícidios são o resultado extremo de uma cultura que transforma homens em agressores, e mulheres, em vítimas. Em entrevista recente ao Portal Metrópoles, publicada dia 10 de fevereiro, a pesquisadora em estudos de gênero e professora da Universidade de Brasília (UnB) Valeska Zanello explica os mecanismos perversos por trás da violência doméstica e por que ainda precisamos falar sobre machismo para combater a violência doméstica e de gênero.

.

Quando falamos da dengue, por exemplo, não discutimos a população alvo, falamos em combater o vetor. O mosquito, aqui, é o machismo. O nosso país é profundamente sexista e os homens estão adoecidos. Precisamos começar a falar sobre isso”, afirma Valeska.

.

Ou seja, a maneira como eles são criados influencia, e muito, na maneira com a qual lidam com relacionamentos, frustrações e consigo. Quando as coisas saem de controle, eles recorrem à violência para voltarem a se sentir no papel de dominadores para o qual foram criados. O machismo, no entanto, não é exclusividade masculina. As mulheres também são machistas. A diferença é que eles ganham algo com isso. Elas, em contrapartida, vão entrando em um ciclo de culpa que se repete há gerações até o ponto de a violência doméstica ser naturalizada. Pelo consultório de Valeska, já passaram vítimas que justificaram as agressões do parceiro – “Me bateu porque eu deixei o bife queimar, realmente, dei motivo” – ou não consideram um xingamento e empurrão algo sério. Ela afirma que, para mudar esse cenário, só por meio de investimento pesado em políticas públicas e educação.

.

.

A construção da masculinidade

.

Se constrói a masculinidade no negativo e no imperativo. Ser homem no Brasil é não ser uma mulherzinha. O pilar central é a misoginia”, afirma Valeska. A pesquisadora explica que o processo de “validar-se” como homem na nossa sociedade é doentio: é preciso “se provar” repudiando qualquer qualidade feminina, transar com o máximo de mulheres possível e ter dinheiro e status social para chamar a atenção delas.

.

No caminho, eles embrutecem. Sendo avaliados por outros homens, cada risada, cada passo, cada decisão os coloca à prova. E, quando não conseguem mais ser chancelados pelos pares, usam a violência como uma forma de resgate identitário. Nos casos de relacionamentos abusivos, quando não são capazes de “controlar” a parceira, recorrem à violência para se reafirmarem como homens, como senhores da relação. Presente nos estudos de gênero, o conceito de masculinidade hegemônica representa a ideia culturalmente construída de que eles estão acima delas, exercendo o papel dominante.

.

“Ele acha que está no seu direito, que não está fazendo nada de mais. Em atendimento psicológico a agressores, passamos pelo menos seis meses tentando convencê-los de que as agressões que cometeram são erradas”, conta a professora. Os filhos de famílias com essa mentalidade violenta também não aprendem formas diferentes de ser homem, todas passam pelo caminho da força. “Por isso é tão importante falar de gênero. Precisamos começar a discutir a masculinidade hegemônica, desnaturalizar a violência”, continua Valeska.

.

.

.

.

As mulheres e o amor
Elas, em contrapartida, tradicionalmente, se julgam e são julgadas por dois parâmetros: o amoroso e o materno. A professora explica que as mulheres vivem como se estivessem em uma espécie de “prateleira do amor” esperando ser escolhidas por um parceiro. Essa expectativa da aprovação masculina permeia a relação delas com elas mesmas.

.

“Aprendemos uma forma de amar que nos torna extremamente vulneráveis, escolhemos ser escolhidas. Uma das coisas que mais me surpreende como clínica, e tenho 20 anos de prática, é o quanto um homem sem nenhuma característica positiva se torna um príncipe encantado só por ter se aproximado da mulher”, conta Valeska. Elas ainda sonham em ser amadas, em ser parte de um casal, enquanto eles crescem sendo validados pelo comportamento oposto.

.

VALESKA ZANELLO AVALIA QUE MACHISMO ESTÁ ARRAIGADO NO BRASILEIRO

.

“Esse descompasso faz com que as relações heterossexuais no nosso país sejam assimétricas. A gente dá mil, e recebe 10. Quem recebe 100, tirou a sorte grande”, diz. Segundo a professora, esse é um dos grandes fatores pelos quais as mulheres persistem em relações abusivas. Como no filme A Bela e a Fera, onde uma moça linda se apaixona por uma besta que é transformada em príncipe pelo amor, elas se casam com homens não pelo que eles são, mas por causa da pessoa que querem que eles sejam. “Isso é uma grande furada, mas terminar um relacionamento para elas é um fracasso como mulher”, avalia.

.

Outro ponto de validação feminino é o materno: ainda que elas não sejam mães, são sempre interpeladas a cuidar. Se alguém adoecer na família, são as mulheres as responsáveis. Assim, priorizam sempre a necessidade e o interesse do outro antes do próprio. O processo nos homens é diferente, eles estão sempre em primeiro lugar.

.

Apesar de o cenário estar mudando lentamente – as adolescentes empoderadas já têm bastante consciência sobre violência, sobre os fatores que não estão dispostas a aceitar –, ainda falta um longo caminho. Valeska conta que atende moças em seu consultório chateadas quando vão a uma festa e não ficam com ninguém. “Se elas não têm um homem que as legitime, estão gordas, feias, acabadas. É esse o nível de vulnerabilidade. Mas sou otimista. O que já foi conquistado, não tem volta”, afirma.

.

.

Políticas públicas e educação para mudar
A professora explica que o problema dos altos índices de violência contra a mulher é da sociedade, e a judicialização e a criminalização não são suficientes para resolvê-lo. Ela defende a implementação de políticas públicas e o investimento em educação para ensinar aos meninos tipos de masculinidade mais saudáveis e, às meninas, opções fora do dispositivo amoroso e materno. A prioridade não deve ser encontrar um príncipe, e sim estar bem consigo mesma, escolher uma profissão interessante, etc.

.

É importante educar para desnaturalizar a convivência violenta entre os sexos, “colocar essa masculinidade na berlinda”, defende a professora.

.

Fazer essa desconstrução de forma efetiva passa também por literatura, filmes, propagandas. Precisamos começar a discutir. As políticas de gênero para masculinidades ainda são muito incipientes e temos muito assunto para trabalhar. O foco precisa ser os homens”, diz.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Compartilhe

Compartilhar no facebook
Facebook
Compartilhar no twitter
Twitter
Compartilhar no linkedin
LinkedIn
Últimas Notícias

Preliminares rejeitadas Ao analisar o caso, a relatora, desembargadora Lucimeire Maria da Silva, afastou inicialmente a alegação de inépcia da inicial. Segundo a magistrada, a petição apresentou de forma lógica a causa de pedir e os fatos e fundamentos jurídicos necessários ao exercício do contraditório. Também rejeitou a alegação de cerceamento de defesa. O voto destacou que os réus participaram virtualmente da audiência e tiveram oportunidade de prestar depoimento pessoal, mas a produção da prova foi inviabilizada por eles próprios. Conforme registrado na ata, os réus foram instados três vezes a abrir a câmera. Quando um deles finalmente o fez, constatou-se que ambos estavam no mesmo ambiente. Mesmo após duas determinações para que permanecessem separados, de modo a preservar a incomunicabilidade entre os depoentes, eles não atenderam à ordem. Provas da espionagem No mérito, a desembargadora afastou a alegação de insuficiência de provas. Além da perícia realizada no aparelho, destacou os depoimentos que descreveram como ocorreu a instalação do programa e a forma de acesso às informações. Conforme ressaltou, tanto a vítima quanto os informantes afirmaram que os réus chegaram a mostrar à mulher informações e imagens obtidas pelo aplicativo, em uma espécie de intimidação. Para a relatora, o conjunto probatório demonstrou suficientemente que a mulher foi submetida a reiterada perseguição pelo ex-companheiro e pelo filho, que instalaram o aplicativo para monitorar suas ligações, localização e outros dados pessoais. Violação da intimidade Ao analisar a responsabilidade civil, a magistrada considerou que o monitoramento clandestino representou ingerência abusiva na esfera privada da mulher e violou direitos da personalidade, especialmente a intimidade, a vida privada e a liberdade individual. Segundo o voto, a instalação de mecanismo de vigilância sem consentimento caracterizou ato ilícito, nos termos do art. 186 do CC. Comprovados também o dano e o nexo causal, incidiu o dever de indenizar previsto no art. 927. A relatora o dano moral in re ipsa. De acordo com ela, a gravidade da violação à esfera íntima torna desnecessária a demonstração específica do prejuízo. Conforme afirmou, a vigilância constante, mediante interceptação de dados pessoais e monitoramento da rotina, ultrapassou mero dissabor e atingiu a dignidade, a autonomia e a segurança emocional da vítima. Violência doméstica Outro ponto destacado foi o enquadramento da conduta na lei Maria da Penha. Para a magistrada, o vínculo familiar não reduz a gravidade dos fatos, ao contrário, aumenta a reprovabilidade do comportamento, diante dos deveres de lealdade, respeito e proteção esperados nas relações familiares. A relatora observou que a instalação do aplicativo para acompanhar comunicações, deslocamentos e a rotina da mulher constitui forma de controle abusivo e invasivo no âmbito familiar. Assim, enquadrou a prática nas modalidades de violência psicológica e moral previstas no art. 7º da lei 11.340/06. Segundo o voto, a vigilância clandestina submeteu a vítima a situação de permanente controle e violação de sua esfera íntima, afetando diretamente sua liberdade e integridade psíquica. “A utilização de mecanismos tecnológicos para vigilância não autorizada intensifica a reprovabilidade do comportamento, evidenciando dolo e deliberada intenção de controle”, registrou. Indenização majorada Ao examinar o recurso da vítima, a relatora concluiu que os R$ 5 mil fixados contra cada réu eram insuficientes diante das circunstâncias do caso. Segundo o voto, a definição do dano moral deve considerar a situação das partes, a extensão do dano e a gravidade da culpa, além de observar os princípios da razoabilidade e proporcionalidade, sem permitir enriquecimento sem causa nem reduzir a condenação a montante incapaz de cumprir sua função preventiva e corretiva. No caso, a desembargadora classificou a conduta dos réus como “extremamente reprovável” e destacou o real constrangimento imposto à vítima. Assim, fixou a reparação em R$ 6 mil por réu, totalizando R$ 12 mil, valor considerado mais adequado para compensar a violação aos direitos da personalidade e desestimular novos atos ilícitos. O entendimento foi acompanhado pelo colegiado. Processo: 0710401-64.2022.8.07.0005 Epa! Vimos que você copiou o texto. Sem problemas, desde que cite o link: https://www.migalhas.com.br/quentes/462340/filho-e-ex-indenizarao-por-espionar-celular-de-mulher-apos-termino

Categorias

HOME