Saiu no site MARIE CLAIRE
Pressão constante por rendimento, padrões estéticos e acúmulo de funções empurram a população feminina para o uso prolongado de psicofármacos.
Acordar sob cobrança contínua, dar conta de exigências profissionais, lidar com pressões estéticas e, frequentemente, recorrer a um comprimido para conseguir dormir ou conter a ansiedade reflete uma engrenagem que dita o cotidiano de milhares de brasileiras. Diante da expectativa social de que a mulher seja incansável, o sofrimento gerado pelo acúmulo de papéis é constantemente transferido para o balcão das farmácias.
O fenômeno compõe a chamada “medicalização da vida”, processo em que angústias reativas às cobranças da rotina deixam de ser compreendidas no contexto social e passam a ser tratadas como diagnósticos puramente individuais. Especialistas ouvidos por Marie Claire alertam que essa dinâmica individualiza o sofrimento: trata-se o esgotamento como se a origem do problema fosse exclusivamente uma falha orgânica ou um desequilíbrio neuroquímico da mulher, ignorando o peso das pressões externas que a cercam.
A tentativa de silenciar o mal-estar físico e mental por meio de prescrições aceleradas marcou a trajetória da dentista Débora Moreira, de 28 anos. Após meses convivendo com dores intensas na nuca e na cervical, sem que exames ortopédicos apontassem alterações físicas, a mineira de Lavras recebeu o encaminhamento para o psiquiatra e saiu com o diagnóstico de depressão maior e de transtorno de ansiedade generalizada (TAG).
“Um dos medicamentos tirou tanto a dor que fiquei dependente. Comecei com um comprimido e, quando vi, estava em dois, três, quatro. Perdi a mão e virou dependência química”, relata.
O uso desmedido dos fármacos, facilitado por consultas que não investigavam a origem da sobrecarga, gerou sedentarismo, ganho de peso e culminou em um quadro de saúde mental e física grave. “A decisão de parar surgiu depois de ficar cega por sete dias devido a uma intoxicação medicamentosa. Sabia que não dava mais para viver daquele jeito”, relembra Moreira.
Essa dinâmica de contenção química para suportar o ritmo diário não ocorre por acaso. A psicóloga Talita Fabiano ressalta que o modelo social contemporâneo empurra o indivíduo para a exigência de funcionalidade ininterrupta, o que transforma o medicamento em uma ferramenta de adaptação forçada.
“O sistema se alimenta da exploração da existência, do trabalho e do emocional. Como a mulher enfrenta esse conjunto de sobrecargas, o remédio oferece mecanismos para que ela continue performando. Então, dá o medicamento e faz o corpo reagir. É a tentativa de criar uma pílula para a pessoa suportar essa rotina sem questionar”, pontua Fabiano, que atuou como diretora executiva do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo (CRP-SP).
Para a psicóloga, a armadilha reside em despolitizar o mal-estar: transferir responsabilidades estruturais, como desigualdades de gênero e sobrecarga de trabalho, para o corpo e a mente de quem adoece. “A medicalização da vida faz com que a existência só se sustente por substâncias. A questão poderia ser resolvida com menos exploração, divisão justa de tarefas e condições dignas, mas a resposta dada pela sociedade é medicar para manter tudo funcionando”.
Sofrimento contextual versus transtorno psíquico
O impacto dessa sobrecarga crônica se reflete nas estatísticas. De acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em parceria com o Ministério da Saúde, a taxa de diagnóstico de depressão entre as mulheres no Brasil é de 14,7%, quase o triplo do índice registrado entre os homens (5,1%).
O abismo de gênero também se repete no cenário internacional: segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), as mulheres apresentam praticamente o dobro de ocorrência de transtornos ansiosos em comparação à população masculina.
Embora os índices sejam expressivos, os fatores por trás dos números extrapolam a biologia. Uma das diretoras da Sociedade Brasileira de Psicologia (SBP), Maria Rita Zoéga explica que o público feminino busca os serviços de saúde com maior frequência e comunica o sofrimento com mais facilidade, o que eleva a taxa de prescrições. A especialista adverte, no entanto, que a raiz do problema exige um olhar para o ambiente em que essa mulher vive.
“Existe uma dimensão social decisiva. As mulheres acumulam trabalho, demandas cotidianas, pressão estética pelo corpo e pela juventude, relacionamentos e a exposição a violências físicas e psicológicas. A pergunta clínica não deve ser apenas qual transtorno essa mulher apresenta, mas o que acontece na vida dela para que manifeste esse quadro. A conduta está equivocada se a medicação serve apenas para aguentar a vida que ela tem. O remédio ameniza o sintoma, mas não reorganiza a rotina nem modifica pressões externas”, afirma.
A fronteira entre o desgaste reativo e a patologia instalada também desafiou a dentista Barbara Herc, de 34 anos. A paulistana recebeu o diagnóstico de depressão aos 20, após passar dias sem conseguir sair do quarto ou se alimentar. A jovem passou anos dependente de dosagens máximas até compreender que o fármaco não resolveria sozinho as pressões do entorno.
“O gatilho principal para buscar a retirada gradual do remédio foi perceber que, mesmo na dosagem mais alta, havia entrado em um novo quadro de depressão maior. Percebi que estava cercada de motivos externos. O remédio tratava a questão interna, os hormônios que não produzo; já a terapia trabalha os fatores externos”, explica.
Herc afirma que a escuta clínica permitiu separar os sintomas biológicos das respostas à rotina intensa: “A terapia me ajuda a distinguir o que é um motivo real que me causa sofrimento, uma questão do cotidiano que posso trabalhar, e o que é de fato uma alteração hormonal”.
Zoéga reforça que essa distinção é o ponto central para evitar prescrições automáticas. Segundo a psicóloga, emoções como tristeza, ansiedade, irritabilidade e cansaço diante de cobranças reais constituem reações normais e compreensíveis da experiência humana, e não devem ser categorizadas imediatamente como patologias psiquiátricas.
“Os psicofármacos são fundamentais em quadros clínicos graves para recuperar a funcionalidade e proteger a vida, mas não podem se tornar o único recurso com a expectativa de eliminar qualquer desconforto emocional”, pondera Zoéga.
A especialista lembra ainda que a produção científica utilizou, por décadas, o organismo masculino como padrão de pesquisa, o que gerou lacunas sobre o impacto metabólico, hormonal e social no corpo feminino. Essa defasagem muitas vezes faz com que a queixa da mulher receba rapidamente o rótulo de “problema emocional”, sem uma investigação profunda das condições em que ela vive.
O risco das respostas rápidas
Do ponto de vista médico, o presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), Antônio Geraldo da Silva, esclarece que a base medicamentosa para depressão e ansiedade reúne os antidepressivos de uso contínuo mais modernos (aqueles que atuam na recaptação de neurotransmissores como serotonina e noradrenalina), enquanto os calmantes e indutores de sono da classe dos benzodiazepínicos (as tradicionais tarjas pretas) devem se restringir a fases agudas.
O psiquiatra alerta contra a ilusão de resolver o estresse rotineiro por meio da automedicação ou do uso inadequado de remédios controlados. “O risco da medicalização excessiva de questões cotidianas é real. Vemos pessoas utilizando medicamentos de tarja preta, como os benzodiazepínicos para induzir o sono em períodos de estresse, o que gera alto risco de dependência física e psíquica, além de afetar a cognição e o humor”, afirma.
Moreira quanto Herc precisaram encarar processos longos e supervisionados de desmame para encontrar equilíbrio. No caso de Moreira, o acompanhamento psiquiátrico, aliado à psicoterapia e à prática de esportes, permitiu reduzir de 17 substâncias no ápice da crise para apenas uma.
“Houve no primeiro médico uma tentativa acelerada de calar os sintomas, o que facilitou o uso abusivo. Hoje eu entendo que o remédio é importante, mas faltava tato para não liberar doses exageradas. Na terapia aprendi a me priorizar e a dizer não, sem a ilusão de que uma pílula mágica resolveria minha vida”, relata a mineira.
Silva enfatiza que a farmacologia não deve ser tratada como a única saída e aponta as limitações do Sistema Único de Saúde (SUS), onde a carência de assistência multiprofissional contínua empurra o paciente para a dependência exclusiva do remédio. “Falta acesso facilitado a todas as ferramentas de tratamento no sistema público. Uma abordagem completa exige psicoterapia e suporte amplo para que a população não fique restrita apenas à entrega do comprimido”, finaliza.







