Saiu no site O GLOBO
Grupo estima que Bernardino Batista dos Santos, condenado a 24 anos de prisão por estupro de vulnerável, teria 73 vítimas desde os anos 1980; O GLOBO tentou contato com a defesa do religioso, mas não obteve retorno
A estudante Bárbara Martins tinha apenas 4 anos, em 2000, quando viajou para o interior de Minas Gerais em um passeio da escola. O sítio em Tiros, cerca de 300 quilômetros de distância da capital mineira, era propriedade do então padre da Arquidiocese de Belo Horizonte Bernardino Batista dos Santos, conhecido como “Santo do Paraíso”, que observava as crianças tomando banho naquele dia.
— Me lembro que ele se aproximava da gente e dos olhares para mim, não tirava os olhos de mim. Ele estava de calção, sem camisa. No meio das brincadeiras com as meninas, passava a mão em mim, no meu biquíni. Sem entender o que era aquilo, continuei brincando, mas tentava me afastar — recorda Bárbara.
A jovem narra que, embora houvesse professoras no entorno da piscina, ninguém pareceu ter reparado quando ele a retirou do local. Depois de uma brincadeira de pega-pega, conta Bárbara, o ex-padre a levou para trás de um bambuzal.
— Ele tirou a minha roupa, me deitou no chão. Lembro do peso do corpo dele, da barba. E depois não lembro muito mais. Tive um apagão — relata. — Só me recordo de, depois, estar com ele de mãos dadas, já vestida. Mas não lembro de ele ter vestido minha roupa. As professoras perguntavam onde eu estava. Não tenho noção de quanto tempo durou isso, mas eu fiquei com a sensação de que elas sabiam.
Atualmente com 78 anos e afastado da Arquidiocese desde 2021, Bernardino foi condenado em janeiro deste ano a 24 anos e nove meses de prisão pelo estupro de uma criança de 3 anos. O GLOBO tentou contato com a defesa do religioso, mas não obteve retorno. Bárbara faz parte do grupo Vítimas do Santo do Paraíso, que aponta que o ex-pároco teria abusado de pelo menos 73 mulheres. Agora, elas buscam por outras pessoas que passaram pelo mesmo.
— Queremos buscar mais vítimas e dizer a elas que não se calem. A cura para essa dor começa quando falamos sobre isso — defende Bárbara.
Os casos envolvendo o padre se arrastam pelo menos desde os anos 1980. Atualmente com 52 anos, a chefe de cozinha Cibele Itaboray afirma que foi abusada em 1983, antes de completar 9 anos. Ela lembra que aconteceu no “mês de Maria”, em maio, enquanto participava das cerimônias festivas de coroação de Nossa Senhora com a família:
— Naquele dia, estava acontecendo uma quermesse. Estava todo mundo sentado, e o padre Bernardino veio até a mesa onde estava minha família e perguntou se eu podia ir com ele até o escritório da obra para pegar uns papéis. Meus pais deixaram. Fomos até a sala, ele trancou a porta, tirou a calça e ficou de cueca. Depois, fez força contra mim até se satisfazer. Quando terminou, vestiu a calça, pegou uns papéis em cima da mesa, abriu a porta e falou: “Pode ir”.
Tanto Cibele quanto Bárbara relatam que foram abusadas mais de uma vez. Elas dizem que o agressor preferia meninas com famílias devotas e socialmente vulneráveis. Era o caso de Carolina Rocha, de 34 anos, advogada que é uma das principais responsáveis por reunir as vítimas de Bernardino. Em 1999, a mãe dela estava em processo de divórcio, e o então padre a convidou para o mesmo sítio em Tiros, com a justificativa de “aconselhá-la”.
— Eu tinha 8 anos, e ele já era padre da paróquia do bairro onde moro até hoje, Paraíso, em Belo Horizonte. Por isso, o apelido dele era “Santo do Paraíso” — explica.
Naquela época, o sítio ainda estava desestruturado. Carolina lembra do imóvel como um “casebre” para o qual Bernardino levava amigos. Ela estava dormindo numa cama de solteiro e conta que acordou com o padre tocando suas partes íntimas. Saiu correndo e se escondeu atrás de uma árvore — um pé de carambola que ainda está em sua memória. A mãe tinha saído para comprar pão logo cedo. Quando voltou, ouviu o relato da menina e confrontou o pároco.
— Ele disse que era mentira, e minha mãe ordenou que não encostasse mais em mim. Depois, ela contou para a minha vó e para o meu pai, que disseram se tratar de sonho de criança. O padre era uma pessoa acima de qualquer suspeita, com um prestígio muito grande. Minha mãe era uma mulher sozinha, com três filhos, nos anos 1990. Se hoje não temos credibilidade, imagina na época — ressalta.
As três mulheres ouvidas pelo GLOBO destacam ter desenvolvido problemas de relacionamento ao longo dos anos. Além disso, também dizem que têm dificuldades de criar intimidade e de aceitar o próprio corpo. Sem apoio da comunidade e confiança nas instituições, afirmam, demoraram anos para denunciar os casos.
— Eu criei um mecanismo para fingir que aquilo não tinha acontecido comigo. Tinha dificuldade com meu corpo, buscava ficar muito magra para não ser atraente. Tive um relacionamento abusivo, muito em razão de não me achar merecedora de alguém. Aceitava qualquer coisa. Demorei a desenvolver minha autoconfiança, foi com muita terapia — conta Carolina.
Busca por novas denúncias
Apesar da condenação, o grupo busca novas vítimas do ex-padre, em especial de casos que ainda não prescreveram. Elas esperam que, com a prisão do religioso, outras mulheres consigam se manifestar, acreditando na Justiça.
— Temos certeza da existência de novas vítimas. Ele não parou de fazer isso ao longo dos anos. Tivemos acesso a vídeos de segurança que mostravam crianças entrando na casa dele direto. Temos esperança e muito desejo de que haja novas denúncias, para que ele seja mais responsabilizado — complementa Carolina.
O ex-padre foi preso em outubro de 2024, solto pouco mais de um mês depois por decisão da Justiça e passou a ser monitorado por tornozeleira eletrônica. Em janeiro passado, voltou para a cadeia. As integrantes do grupo Vítimas do Santo do Paraíso temem que ele seja novamente liberado, o que reforça a busca por novas vítimas.
— Conheço muita gente da minha época que não abriu a boca. São 73 vítimas prescritas que falaram conosco. Imagina quantas outras estão por aí? — aponta Cibele.








