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Como falar sobre racismo com crianças e criá-las como antirracistas?

Notícias - 2 de julho de 2020

Tempo de leitura: 8min

 

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Veja a publicação original:  Como falar sobre racismo com crianças e criá-las como antirracistas?

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Por Nathália Geraldo

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Se ser um adulto antirracista ativamente já não é uma tarefa fácil, ensinar sobre as questões raciais — no Brasil e no mundo — para as crianças pode ser um desafio ainda maior. Seja no núcleo familiar ou na escola, quem se propõe a educar os pequenos na primeira infância (até seis anos) pode ter que lidar com a explicação de conceitos, como o racismo (ou os xingamentos, categorizados como injúria racial) e os estereótipos atribuídos a negros e negras, sem, no entanto, perder a ternura. É possível?

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Dar nome às coisas, conversar sobre a presença (ou a falta) de pessoas negras no cotidiano infantil e se atentar ao fato de que, entre os pequenos, chamar o outro de “macaco”, por exemplo, é racismo, e não apenas bullying fazem parte de algumas estratégias para que a discussão sobre como a população negra é vítima de racismo na sociedade não vire um elefante na sala — nem de casa, nem de aula.

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Como fazer isso? Perguntamos à diretora da EMEI Nelson Mandela Jaqueline Cibele Vioto Rinaldo, unidade da rede municipal de São Paulo (SP) referência na educação antirracista para crianças de 4 a 6 anos, e à psicóloga com abordagem psicanalítica Marleide Soares, que atua na humanização antirracista no atendimento a famílias negras e brancas, sobre o tema.

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Racismo, identidade negra, representatividade

Menina antirracista - klebercordeiro/Getty Images/iStockphoto - klebercordeiro/Getty Images/iStockphoto
Crianças negras devem ser ‘empoderadas’ e apoiadas em relação à autoestima em todas as esferas da vida

Imagem: klebercordeiro/Getty Images/iStockphoto

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De onde vem o racismo da criança?

É comum ouvirmos que “crianças não são racistas”. Mas, e quando um pequeno não quer sentar na cadeirinha em que um colega negro estava, ou se nega a brincar com uma criança negra no parquinho?

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“A criança não é capaz de ser racista por si só, mas ela reproduz coisas que ela viu ou ouviu”, analisa Jaqueline. Como estamos todos dentro de uma sociedade em que o racismo é estrutural, é possível que os adultos que a cercam tenham práticas racistas. Daí a necessidade de se despertar para o antirracismo.

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“Ser antirracista é ter ação, que é individual; mas, o resultado é coletivo. Acontece que o racismo estrutural é uma grande cilada, porque você pode querer dar uma educação antirracista e ter uma ação racista mesmo assim”, comenta a psicóloga.

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Ok, não quero que meu filho seja racista. O que fazer?

Antes de tudo, estender a educação antirracista: em casa e na escola. Se a família é branca, entenda que destruir o racismo — que atinge, atribui desvantagens e até mata a população negra — também é seu trabalho.

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“A gente sabe que não é nosso lugar de fala, mas precisamos arregaçar as mangas; não pode partir apenas dos negros”, diz Jaqueline, que é branca. Marleide, que é negra, sugere que analisar o núcleo social que é a escola pode ser uma boa estratégia para abordar a questão racial com os mais jovens.

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“Converse com a criança com o objetivo de estimular a convivência com pessoas negras. Em escolas em que as famílias têm um padrão financeiro maior, é possível que não se tenha crianças negras. De toda forma, vale perguntar: tem coleguinhas negros na sua escola?”, orienta. “E pode falar a palavra negro, com naturalidade, não precisa ser ‘criança que não é da sua cor'”.

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Dependendo da vivência da criança, pode ser que venha a pergunta: “O que é criança negra?”. Então, é a hora de apresentar referências.

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Brinquedos, livros, bonecas e bonecos

Para crianças brancas, os brinquedos e materiais que apresentem personagens negros são fundamentais para mostrar a elas que há diferentes tons de pele entre as pessoas — e que isso não é motivo para existirem hierarquias raciais. Com didática, é possível explicar porque o racismo é algo negativo e tirar o estereótipo de que pessoas negras só podem ter determinadas profissões ou lugares sociais no mundo.

Para as crianças negras, bonecos e bonecas negros e livros, que devem ser analisados pelos adultos, entre outras ferramentas, significam representatividade. “Tem que empoderar e trabalhar a autoestima dela: dizer que é linda, que o mundo é dela também”, afirma Jaqueline, dando o exemplo das ações antirracistas da escola Nelson Mandela, que foram implantadas pela diretora da gestão anterior, Cibele Racy.

“Nós temos lá uma família de bonecos em tamanho real: o príncipe Azizi Abayomi é negro, e se casou com a Sofia, uma boneca branca; ela engravidou e teve gêmeos, que têm cor de peles diferentes: o Enrique e a Dayó. Eles são figuras de afeto”.

Que tal adaptar a proposta da escola e formar uma família de bonecos também em casa?

Pessoas negras que já estão no cotidiano da criança

Uma sequência de perguntas pode ser o início de um papo antirracista com os pequenos. “Há professores negros na sua escola?”. Se não tiver, comentar coisas como “seria legal se tivesse, né? Porque aí todos poderiam ver que pessoas negras também são professoras”, exemplifica Marleide.
Se a criança branca convive em ambientes majoritariamente brancos, o trabalho será de “pegá-la pela mão e ir apresentando pessoas negras”. “Ir ao parquinho do bairro de classe média talvez não seja suficiente. Então, pense em levar a criança a um parque público. Não precisa forçar uma aproximação com crianças negras; eles brincam juntos, basta estar ao alcance”, diz a psicóloga. “Daí, é sinalizar que essa relação interpessoal é natural”.
Na escola, é possível que “a tia da cantina”, “o tio que é porteiro” ou “o tio da perua” sejam negros. Só que essa forma de tratamento desumaniza aquela pessoa. Perguntar o nome deles, pedir para a pessoa perguntar também é um passinho na criação antirracista.
Bem, ele teve uma atitude racista na escola. O que fazer?
Não tratar como tabu e conversar com os responsáveis e com as crianças é uma das saídas. “Na Nelson Mandela, a gente leva o caso para uma assembleia com as crianças; ou na sala de aula ou com todos os alunos. Perguntamos de onde veio aquela fala, e não dizemos apenas que ‘é feio’, porque a criança vai parar de reproduzir aquele comportamento, mas ainda vai estar dentro dela. Então, a gente leva para um lado pedagógico e para as experiências vividas por elas”, explica a diretora da unidade.
Valorize experiências negras
Para crianças negras, a família também pode reforçar os valores positivos associados à questão racial. “É possível falar da música de que a família gosta, da religião, dos ancestrais, fortalecendo a cultura negra em que ela é inserida”, diz a psicóloga.
A educação antirracista, por sua vez, também passa por um esforço dos pais de crianças brancas neste sentido. “Falar do cabelinho de crianças negras, mostrar tranças e dizer: olha que legal! olha, aquilo é um turbante!”. Outra dica: buscar profissionais negros que estejam no dia a dia da família. Vale correr atrás de um pediatra negro, advogado, psicólogo, entre outras profissões.

Pais brancos, ainda há tempo

A geração que foi criada com o “padrão” da boneca Barbie, loira, branca e de olhos claros, agora, se tornou a de adultos que têm nas mãos a criação de quem nasceu ou está se desenvolvendo frente a pautas de igualdade racial. Isso significa que, por vezes, as pessoas brancas que se propõem a oferecer educação antirracista às crianças ainda está se formando como antirracista também. Travar no sentimento de “eu devia ter pensado nisto antes”, contudo, não é a melhor saída, como explica a psicóloga Marleide Soares.

“Os pais brancos podem ficar decepcionados por até então não terem visto a necessidade de uma educação antirracista. Mas não é bom que fiquem presos nesse lugar; é preciso ter ação. Como diz Angela Davis, em uma sociedade racista é preciso ser antirracista”.

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