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Como acusações de assédio sexual abalaram o mundo do esporte de elite da Coreia do Sul

Saiu no site HUFFPOST

 

Veja publicação original: Como acusações de assédio sexual abalaram o mundo do esporte de elite da Coreia do Sul

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Era hora de um acerto de contas na cena esportiva sul-coreana, hierárquica e dominada por homens.

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Uma bicampeã olímpica acusou seu técnico de tê-la estuprado repetidas vezes, abrindo as portas de um escândalo de abusos sexuais no mundo do esporte de elite sul-coreano.

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Shim Suk-hee, especialista em provas de patinação de velocidade, disse à imprensa do país em 8 de janeiro que seu técnico, Cho Jae-beom, a abusou durante 4 anos, desde quando ela tinha 17 anos. Em uma denúncia à polícia, ela disse que os supostos casos de abuso aconteceram em instalações administradas pelo governo do país, incluindo um vestiário, um rinque de patinação e um centro de treinamento.

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“Shim espera que se crie na comunidade esportiva um ambiente em que as vítimas possam falar com segurança”, disse o advogado da atleta à rede de TV sul-coreana SBS News.

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Cho cumpre pena de prisão de 10 meses por atacar atletas sexualmente, incluindo Shim. O advogado dele afirma que houve agressões, mas nega a ocorrência de violência sexual.

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Shim veio a público em meio a um crescente movimento Me Too no país, que está desafiando tabus na conservadora sociedade sul-coreana. O movimento começou no país quando uma procuradora acusou um colega mais sênior, no ano passado. Em uma entrevista para uma emissora de TV, Seo Ji-hyeon acusou Ahn Tae-geun de apalpá-la repetidas vezes. Quando ela reclamou com seus superiores, sofreu retaliações profissionais. Ahn negou as acusações e não pode ser acusado de abuso sexual porque, segundo as leis do país, crimes dessa natureza prescrevem depois de um ano, afirma a agência AFP.

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Mas a aparição pública de Seo abriu as comportas para várias denúncias similares, em diversos setores. As acusações atingiram o ápice este mês, quando um ex-governador e possível candidato à presidência foi condenado a três anos e meio de prisão por abusar sexualmente de sua secretária.

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Shim foi corajosa ao romper o silêncio no mundo dos esportes, precipitando um acerto de contas em um mundo hierárquico e dominado por técnicos homens que exercem influência desmedida sobre as carreiras e vidas das atletas.

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Somente cerca de 18% dos 19.965 técnicos registrados no Comitê Olímpico e Esportivo da Coreia do Sul em 2018 eram mulheres. No mesmo ano, mais de 23% dos atletas registrados eram mulheres. Ou seja: as atletas estão ligeiramente mais bem representadas que as técnicas.

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Uma semana depois de Shim procurar a polícia, uma ex-judoca acusou seu técnico de abusos sexuais quando ela era menor de idade. Em uma entrevista para o jornal Hankyoreh, Shin Yu-yong afirmou ter sido estuprada pelo técnico 20 vezes entre 2011 e 2015. Em entrevistas, ela disse ter sido ameaçada com “o fim da carreira” se contasse para alguém sobre os abusos. A Associação Coreana de Judô baniu o técnico, cuja identidade não foi revelada, em resposta às acusações da lutadora, afirma o The Korea Herald. O técnico, que é casado, negou ter abusado da atleta, afirmando que a relação entre os dois teve idas e vindas e foi consensual.

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Na mesma semana, 15 lutadoras de taekwondo formaram um “grupo de vítimas” e apresentaram denúncias contra um ex-diretor da Associação Coreana de Taekwondo. Lee Ji-hye, a única atleta a revelar seu nome, disse que os casos de abuso começaram em 1998, quando ela estava na sexta série, e continuaram durante 5 anos. Em uma entrevista de TV, ela afirmou que o ex-diretor, cujo nome não foi revelado, a ameaçou de morte caso ela fizesse denúncias que o levassem à prisão.

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O ex-diretor está sendo julgado por ataques sexuais.

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As acusações continuam reverberando por outros esportes, incluindo sepak takraw (uma espécie de futevôlei) e futebol; as jogadoras acusam técnicos homens de abuso de poder.

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O poder dos homens no mundo esportivo 

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O mundo dos esportes na Coreia do Sul é notoriamente competitivo e focado no desenvolvimento de atletas de elite. No sistema, fazer declarações públicas contra técnicos, particularmente no que diz respeito à violência sexual, é o equivalente ao suicídio profissional – um risco que poucos atletas que dedicaram suas vidas ao esporte estão dispostos a correr.

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Além disso, as federações esportivas coreanas são extremamente hierárquicas. Técnicos têm poderes totais para selecionar os atletas que vão treinar e de quais competições esses atletas vão participar. A decisão tomada pelo técnico tem impacto profundo na carreira dos esportistas.

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Os técnicos são homens, em grande maioria, algo que reflete o histórico do país. A Coreia do Sul ficou em 115º lugar entre 149 países no Relatório Global de Disparidade de Gêneros de 2018 que mede diferenças entre os gêneros em participação econômica, educação, saúde e empoderamento político. Segundo o jornal Hankook Ilbo, somente 18% dos 19.965 técnicos registrados no Comitê Olímpico e Esportivo da Coreia do Sul em 2018 eram mulheres. No mesmo ano, mais de 23% dos atletas registrados eram mulheres. Ou seja: as atletas estão ligeiramente mais bem representadas que as técnicas.

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Mas, no mundo da patinação de velocidade, esporte que o país domina nas competições mundiais, a disparidade é ainda mais dramática. Toda as 223 patinadoras de velocidade de pista curta do país têm técnicos homens. No golfe, esporte em que há um equilíbrio entre jogadores e jogadoras, as técnicas são apenas 10% do total.

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Lim Shin-já, professora da Universidade Kyung Hee e presidente da Associação das Mulheres no Esporte, disse em entrevista ao Hankook Ilbo que a comunidade esportiva do país é particularmente conservadora e dominada por homens.

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“As técnicas não só não têm a oportunidade de demonstrar suas habilidades e competências, como também quase não há reconhecimento quando essas demonstrações acontecem”, diz ela. “Primeiro, precisamos de um ecossistema em que técnicas mulheres possam demonstrar suas competências. Depois, é preciso haver menos violência contra as atletas.”

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O governo coreano responde 

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Em resposta à comoção, o governo do país adotou medidas para erradicar a violência sexual na comunidade esportiva. A Comissão de Direitos Humanos da Coreia do Sul anunciou mês passado uma investigação de um ano da cultura de abuso nos esportes. Depois de concluída, a comissão vai anunciar diretrizes e eventualmente repassar evidências para a polícia, para que os casos sejam levados adiante na esfera criminal.

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Do Jong-hwan, ministro da Cultura, Esportes e Turismo, disse que a Coreia do Sul será “líder” na ética esportiva, disse a agência de notícias Yonhap. “Vamos respeitar o outro, aceitar o resultado [da investigação] e transformar em realidade os valores intrínsecos do esporte, para moldar uma sociedade saudável.”

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Muitos coreanos estão observando com atenção, pois o problema da violência sexual é a ponta de um iceberg há muito tempo submerso.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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