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Alexandre não é ex-namorado de Elitânia

Saiu no site CORREIO 24 HORAS

 

Veja publicação no site original: Alexandre não é ex-namorado de Elitânia

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Por Flavia Azevedo

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É impressionante como o olhar treinado que tenho (assim como muitas de nós) hoje, me faz perceber o quanto de “atenuantes” se embute nas notícias sobre feminicídios. No caso do assassinato de Elitânia de Souza da Hora, cometido por Alexandre Passos Silva Góes (aqui, eu deveria usar a palavra “suspeito”, mas diante da quantidade de testemunhas oculares, não cometerei esse ridículo), na noite dessa quarta, na cidade de Cachoeira/BA, insistem em dizer que ele era “ex-namorado” e que “não aceitava o fim do relacionamento”. Duas informações que batem direto no inconsciente do/a leitor/ ou espectador/a menos atento/a, relativizando as coisas.

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Como assim? Veja bem. Se era “ex-namorado”, já se pode supor uma “briga de casal” com “final trágico”. Se ele “não aceitava o fim do relacionamento”, então estava sofrendo e tome-lhe uma dose de empatia subliminar. Só que é o seguinte: Elitânia tinha MEDIDA PROTETIVA CONTRA ALEXANDRE QUE JÁ A HAVIA AGREDIDO, ANTERIORMENTE. Ou seja, ele já era violento na vigência do relacionamento que ela terminou. Outro ponto é que Alexandre Passos Silva Góes matou porque ACREDITA QUE TEM O DIREITO DE MATAR MULHERES QUE NÃO SE SUBMETEM, e não porque “não aceitava o fim do relacionamento”. A ninguém é dada a opção de aceitar ou não o fim de um relacionamento, portanto isso sequer deveria ser sugerido como “motivação”.

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Observem que ninguém escreve “homem com muitas dívidas assalta banco”, já que está claro, para todos, que roubar não é uma solução aceitável para fragilidade financeira de alguém. Ou, num programa de rádio, dizem “vizinho, abusado na infância, estupra criança de cinco anos” porque sequer passa pela cabeça de alguém uma relação de causa/efeito para crime tão tenebroso e coletivamente abominado. Nem o batedor de carteira mais fuleiro tem uma linhazinha onde possa ser subliminarmente absolvido com um adjetivo sequer. Você já leu “adolescente faminto rouba bolsa”, em algum lugar? Pois é, mas no caso de feminicídios, o buraco sempre é mais embaixo.

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Está claro, pra você, que provocar o pensamento de causa/efeito sugere uma divisão de responsabilidades entre assassino e vítima? Percebem também que destacar uma intimidade entre ambos sugere que algo no crime está “mal explicado” ou “não é da nossa conta”? Ainda que fossem casados, ele seria o assassino e ela a vítima. Ponto. Só que, em nosso caso, inclusive, Elitânia JÁ HAVIA REAGIDO A AGRESSÕES ANTERIORES, já tinha medida protetiva, então ele já não era “ex-namorado”, mas AGRESSOR. Já havia voltado para a vala comum com o agravante, isso sim, de deter informações que o transformaram num algoz ainda mais perigoso. Quanto aos termos: crimes se sobrepõem, em importância, a qualquer romance anterior. Ou deveriam se sobrepor.

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É na subjetividade que entregamos quem somos, o que pensamos, nossa escala de valores. Fosse o feminicídio algo, de fato, inadmissível em nossa sociedade, essas informações secundárias (ex-namorado, fim de relacionamento) estariam nas notícias, claro, mas não em destaque. Evocar laços afetivos passados e transitórios, assim como apontar “sofrimentos” do assassino é “amolecer” a opinião pública, apontar um caminho de defesa do que deveria ser indefensável. Rever o modo de abordar essas histórias, é o mínimo que podemos fazer ou, então, assumiremos que feminicídios têm sempre um quê de suicídio, que a gente sempre “faz por onde” morrer. Que escolhemos mal nossos homens, que os deixamos nervosos. Finalmente, estaremos sempre como o/a vizinho/a amargo/a e perverso/a que, diante de tragédias desse tipo, franze a boca e diz “alguma coisa teve aí”.

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