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O luto da mãe que soube da morte da filha ao vivo

Notícias - 21 de fevereiro de 2020

Tempo de leitura: 2min

Saiu no site REVISTA MARIE CLAIRE

 

Veja publicação no site original: O luto da mãe que soube da morte da filha ao vivo

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A antropóloga Debora Diniz analisa a cobertura de um crime contada ao vivo à mãe da vítima: “Aquele era o espetáculo que Bacci buscava, o desamparo de uma mãe como mercadoria televisiva”

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Por Debora Diniz

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Luiz Bacci, do programa Cidade Alerta, fez espetáculo de um luto. Ao vivo, informou uma mãe que a filha havia sido assassinada. Bacci e Andrea estavam lado a lado na tela. “A senhora quer mesmo saber novidades?”, disse ele, sem afago para o que se anunciava como desastroso, “Seja forte”.

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Andrea era só ela. Uma mulher comum, com cara e jeito de gente do povo que desacredita da polícia, que desconhece advogado privado. Andrea tem rosto de quem jamais será chorada em luto público, como diz Judith Butler. A novidade para Bacci era a tragédia do luto eterno para uma mãe – sua filha Marcela, de 21 anos, havia sido assassinada pelo namorado, grávida.

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Bacci deu voz a outro homem, o advogado do assassino da filha: sem meias palavras, a voz da defesa masculina anunciou que Marcela estava morta. Como seu cliente não era o desamparo da mãe, antecipou-se em defender o matador: “Ele mostrou o corpo, o crime não foi premeditado”, explicou sobre o espírito colaborativo do cliente.

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Andrea arrancou os fones, não ouvir era fugir daquele espetáculo de horrores. Mas aquele era o espetáculo que Bacci buscava: o desamparo de uma mãe como mercadoria televisiva. O matador, o advogado e o apresentador todos falavam entre si e para eles mesmos. Andrea se reduziu a uma peça do espetáculo da dominação masculina: o homem que mata é capturado pelo homem investigador.

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Todos na cena eram homens espoliadores de Andrea, sendo o pior deles o que matou Marcela. O que faziam juntos era o “trabalho de eternização” da dominação masculina, como dizia Pierre Bourdieu: o espetáculo da televisão era o momento em que se alinhavam narcisicamente para intercambiar papeis. Ora um se faz de protetor, enquanto outro é o porta-voz do assassino.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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