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O Irã das mulheres sem véu

Saiu no site GAZETA

Uma estudante de direito caminha por sua faculdade em Teerã. Ela é muçulmana, mas não usa véu; escolheu deixar seus cabelos ao vento. Entre uma aula e outra, fuma um cigarro enquanto conversa sobre as novas leis de divórcio que acabaram de ser aprovadas. A partir de agora, as mulheres iranianas têm mais direitos dentro do casamento e isso vai ao encontro de seu maior sonho.

Ela sonha em ser juíza e ajudar mulheres que, durante séculos, viveram presas a tradições opressoras e a seus maridos. Essa jovem se chama Shirin Ebadi e isso foi na década de 60. Alguns anos depois, ela se tornaria uma das primeiras mulheres juízas do Irã.

Parece difícil acreditar que essa história aconteceu no mesmo país que hoje é símbolo mundial do autoritarismo religioso.

E isso só foi possível porque, durante a Guerra Fria, o Irã se tornou um importante aliado dos Estados Unidos no Oriente Médio. Com forte influência ocidental, o país passou por um processo de modernização econômica e cultural.

Foi nesse período que as mulheres conquistaram o direito ao voto, ganharam mais proteção nas leis de divórcio e tinham liberdade de vestimenta. Trocaram a burca por minissaias e a submissão por diplomas.

E foi justamente esse caminho de progresso e liberdade que encontrou seu fim na Revolução de 1979. O aiatolá Ruhollah Khomeini usou seu discurso religioso e populista para convencer milhões de iranianos de que a modernização e as liberdades promovidas pela monarquia Pahlavi eram sinais de decadência moral e submissão ao Ocidente.

Travestido de defensor da justiça social, transformou o ressentimento popular em combustível para destruir justamente as liberdades que haviam permitido ao Irã se tornar um dos países mais modernos do Oriente Médio. Khomeini repetiu o velho “ABC” do populismo: distribuição de riqueza, combate às elites corruptas e a promessa de devolver dignidade aos mais pobres. O discurso ecoou e assim ele chegou ao poder.

Nos meses e anos seguintes, o novo regime eliminou os próprios grupos que haviam apoiado a revolução. Partidos de esquerda foram banidos; PT e PSOL nem sonhariam em existir por lá. Jornais? Apenas os alinhados ao governo. Militância identitária, coletivos universitários e boa parte dos grupos progressistas que hoje romantizam o Irã seriam tratados pelo regime dos aiatolás como degeneração ocidental. A solução para eles? Pena de morte.

Décadas depois, o mundo acompanha mais uma escalada envolvendo o regime iraniano. O mesmo país que um dia buscou se aproximar do Ocidente e foi um dos principais aliados dos Estados Unidos no Oriente Médio hoje vive em confronto direto com o mundo ocidental.

O Irã passou a financiar grupos extremistas, sustentar organizações antissemitas e utilizar a religião como instrumento de repressão política, instituindo, inclusive, uma Polícia dos Costumes. O país que prometia justiça social transformou-se em um dos maiores símbolos do radicalismo islâmico no mundo.

Talvez seja justamente isso que torna a história iraniana tão trágica. A menina que caminhava sem véu pelos corredores da faculdade de direito em Teerã, sonhando em se tornar juíza, conseguiu realizar seu sonho. Mas o regime nascido da Revolução Islâmica transformou mulheres como ela em símbolo de tudo aquilo que deveria ser silenciado.

Após 1979, Shirin Ebadi foi afastada da magistratura porque o novo regime considera mulheres inadequadas para exercer a função de juíza. Décadas depois, por denunciar ao mundo os abusos cometidos pelo regime iraniano e defender os direitos humanos, recebeu o Prêmio Nobel da Paz. Mas de que vale um Nobel da Paz quando você sequer consegue viver no próprio país? Hoje, ela vive exilada no Reino Unido.

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