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Doutoras da periferia: da quebrada para o topo das universidades

Saiu no site UNIVERSA

 

Veja publicação original:  Doutoras da periferia: da quebrada para o topo das universidades

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Por Flávia Martinelli

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Chegar aos últimos degraus da carreira acadêmica é um processo longo e exigente. Quem sai da favela ou dos bairros mais periféricos sabe que a corrida de obstáculos de um doutorado vai além do já rigoroso momento da inscrição. “Para me candidatar li uma bibliografia extensa com textos em português, inglês e francês”, conta Izabella Pimenta, doutora em antropologia pela Universidade Federal Fluminense em parceira com a Universidade de Ottawa.

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Filha de padeiro que estudou até o quarto ano do ensino fundamental e costureira, ela nasceu num bairro de Belo Horizonte “que se transformou aos poucos em Cracolândia”. Sem apoio da família, viveu bicos na graduação em Minas Gerais e com R$ 940,00 de bolsa no mestrado no Rio de Janeiro. Para completar a renda, foi ganhar R$ 2,50 por formulários de pesquisa de porta em porta. Mas tudo isso não a impediu de passar por todas as etapas de ingresso no doutorado.

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Além da bibliografia, houve toda a documentação de histórico e notas da graduação e mestrado, currículo lattes, carta de intenções, cartas de recomendação e proposta de projeto de pesquisa. No cronograma de etapas eliminatórias enfrentou ainda a prova com questões abertas obrigatórias e opcionais, entrevista com três professores e exame de línguas estrangeiras – que exige leitura em inglês num terceiro idioma.

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“Valeu a pena”, garante Iza, que hoje mora em Brasília, viaja o mundo para congressos de sua área e é consultora da Organização das Nações Unidas. Amesma conclusão vem da bióloga Élida Campos. A poucos meses de defender a sua tese de doutorado, a moradora da periferia de Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, é bolsista e pesquisadora em uma das instituições de ensino mais prestigiadas e concorridas do país,a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), umas das 179 instituições (apenas 3% das instituições de ensino brasileiras) com nota máxima em programas de pesquisa pela CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior). Élida, no entanto, começou a trabalhar aos 14 anos como babá. Nos prédio elegantes de suas empregadoras, precisava usar elevadores de serviço. 

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Já a doutoranda em psicologia Jaíza Pollyanna Rocha, nascida e crescida num bairro violento de Belo Horizonte, lembra que não sabia a diferença entre vestibular e faculdade até se formar no ensino médio. Ela conseguiu cursar a graduação por programas de bolsas mas pontua que continua sendo difícil a vida de quem escolhe a carreira acadêmica o Brasil. “Minha bolsa de pesquisa custeia só a sobrevivência. E atrasa. Quando não vem, preciso contar com colegas que me fornecem cesta básica para ajudar”, desabafa. Apesar das dificuldades financeiras, o exemplo de Jaíza influenciou toda a família. Seus pais voltaram a estudar, concluíram o ensino médio e hoje sua mãe cursa psicologia e o pai está no segundo ano de advocacia.

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Conheça e inspire-se nas doutoras que, com muito esforço e programas de políticas públicas, brotaram das favelas.

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Da velha casa com baratas à consultoria da ONU

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Em 2002, a doutora em Antropologia Izabella Lacerda Pimenta começou a cursar turismo como bolsista na PUC de Minas Gerais. “Escolhi essa graduação  por acreditar que seria uma área com oportunidades mais concretas de trabalho. De cara, percebi que não era o que queria seguir e comecei a frequentar aulas de antropologia em outras faculdades e sonhar com o mestrado”, conta a doutora, de 34 anos, de Lagoinha, bairro periférico de Belo Horizonte.

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Vinda de família de agricultores e comerciantes, a antropóloga herdou do pai, panificador que só frequentou a escola até a 4ª série, a vontade de estudar e mudar de vida. “Venho de um bairro que se transformou aos poucos em Cracolândia. Não tínhamos dinheiro para comprar uniforme, então minha mãe costurava e eu tinha vergonha por não ter uma calça igual a das minhas colegas de sala”.

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Em 2014, Izabella desembarcou no Brasil após um ano no Canadá, onde cursou doutorado sanduíche (programa em que parte das aulas e do projeto de pesquisa é desenvolvido em uma instituição de ensino estrangeira) pela Universidade Federal Fluminense e o Departamento de Criminologia Universidade de Ottawa. Na bagagem uma experiência enriquecedora e uma tese premiada sobre políticas de trabalho para presos e egressos do sistema prisional brasileiro e canadense. Hoje, a antropóloga é consultora da ONU em parceria com o Departamento Penitenciário Nacional (DEPEN), e responsável por produzir o primeiro e único documento que orienta e regula o monitoramento do uso de tornozeleiras eletrônicas no sistema prisional brasileiro.

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“Quando olho para trás e vejo tudo o que produzi, me dou conta de que consegui fugir do busão demorado pra ir ao centro, do analfabetismo da minha família, do casamento como meio de mudar de vida. Me via no passado como uma pessoa em busca crescer por meio do estudo e me vejo no futuro como um alguém que vai continuar a estudar sempre.”

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Embora tivesse o apoio do pai, que faleceu quando ela cursava o primeiro ano da graduação, a família sempre defendeu que Iza deveria se preocupar só em trabalhar. Foi pressionada por parentes e pela mãe costureira a se casar, mas depois da graduação fez prova, entrevista e apresentou um projeto para ser aprovada em 5º lugar como bolsista do programa de mestrado da UFF. “Decidi que gostaria de estudar esse universo que certamente tem a ver com as origens e cultura do trabalho na minha própria família” conta a antropóloga.  “Nunca quis depender de um marido. Quando criança, minhas bonecas não casavam, elas iam para a faculdade”.

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Quando chegou ao Rio de Janeiro, com uma bolsa de R$ 940, viu que o dinheiro não seria suficiente para se manter. “Fui fazer bicos de pesquisa parecidas com o que faz o IBGE, trabalhava aos fins de semana e sempre que não tinha aula. Ainda era pouco, batia de porta em porta aplicando as perguntas, passava o dia todo nos bairros e os moradores me ajudavam oferecendo almoço, lanche. Eu ganhava cerca de R$ 2,50 por questionário aplicado.” Outra opção para refeição era o bandejão da faculdade ou marmita. Também dividia quarto com outra pessoa e ia para a universidade a pé.

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Foi levando a brincadeira de bonecas a sério que Izabella realizou o sonho de chegar ao mais alto degrau da academia. Hoje, não mora mais na favela e planeja buscar uma bolsa para um segundo pós-doutorado, viaja pelo país e pelo mundo em congressos de antropologia e é referência internacional no estudo social do monitoramento eletrônico por tornozeleiras.

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A ex-diarista que hoje é bióloga em um dos centros de pesquisa mais concorridos do Brasil

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Diarista, manicure, monitora em cursos de informática e vendedora foram algumas das profissões de Élida Campos, de 32 anos, carioca da periferia de Nova Iguaçu, que encontrou na academia a realização profissional. “Crescer na periferia me privou de uma série de coisas, principalmente de ter educação de qualidade, com atividades culturais e artísticas. Quando consegui um trabalho formal, na Zona Sul do Rio, senti os olhares excludentes e ouvi solicitações de acesso aos prédios e apartamentos pelo elevador e porta de serviço. Foi quando percebi que não era branca“, conta Élida. Seu pai foi retirante que foi de Pernambuco para o Rio de Janeiro em busca de emprego e a mãe trabalhou em casas de família em troca de comida e abrigo. Eles sempre a incentivaram a estudar.

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Hoje Élida é pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), umas das 179 instituições (apenas 3% das instituições de ensino brasileiras) com nota máxima em programas de pesquisa pela CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) e em poucos meses terminará sua tese de doutorado. O tema:  exposição à metais por meio de biomonitoramento da população em um distrito industrial do Rio de Janeiro. “Estou muito com minha tese, embora não tenha sido minha escolha inicial”, conta a bióloga que planejava continuar estudando os efeitos da exposição à agrotóxicos no corpo humano. A temática também foi escolhida por ela para linha de mestrado, concluído aos 25 anos também na Fiocruz.

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A futura doutora vivia de ralação e muito trabalho desde os 14 anos, a graduação não parecia uma possibilidade para quem havia tentado entrar em universidades públicas por diversas vezes sem sucesso, até que aos 20 anos sua vida começou a se transformar através de políticas públicas. “Me lembro ainda hoje do dia que cheguei em casa e minha irmã me falou que o governo havia lançado um programa chamado o PROUNI”. No ano seguinte a bióloga foi aprovada em uma faculdade privada com bolsa integral e passou a se descolar diariamente cerca de 55km, entre sua casa em Nova Iguaçu, o trabalho em Bonsucesso e a faculdade em Cascadura.

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Por ter escolhido a vida acadêmica, houve pouco tempo para pensar a carreira fora da universidade. No segundo ano da graduação, teve que abandonar o emprego em uma loja para estagiar em um laboratório na Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Lá também ganhou bolsa como pesquisadora e iniciou sua carreira na universidade.

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Aos 33 anos, Élida quer seguir carreira como professora universitária e não pensa em parar de estudar. “Tenho pensado em fazer outra graduação, provavelmente enfermagem, para atuar na saúde também no serviço, além da pesquisa. Acho que isso me daria uma outra perspectiva e poderia somar na defesa e manutenção do nosso Sistema Único de Saúde”, finaliza a doutoranda.

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Depois de mim, minha mãe foi cursar psicologia com meus antigos professores

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“Você tem que trabalhar, estudar não é pra você” foi o que Jaíza Pollyanna Dias da Cruz Rocha ouviu de um professor no ensino médio. Moradora de um bairro periférico na zona metropolitana de Belo Horizonte, a psicóloga filha de vendedores ambulantes não podia imaginar naquele momento que um dia estaria escrevendo uma dissertação de doutorado. “Uma colega de sala me falou que estava estudando para uma prova. Eu estava no último ano do ensino médio e não sabia qual era a diferença entre faculdade e vestibular, até que um agente comunitário do meu bairro me falou sobre um cursinho pré-vestibular gratuito e eu comecei a sonhar”.

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Com o sonho de se tornar docente universitária, aos 33 anos, Jaíza já recebeu propostas para lecionar em faculdades, mas como bolsista de programa de doutorado – que requer dedicação exclusiva à bolsa – não pôde aceitar. Sua pesquisa na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) investiga a memória social sobre a ditadura militar no Brasil através da renomeação de ruas que anteriormente levavam nomes de carrascos do período inclui três frentes: a documental; a de aplicação de questionário para investigar o posicionamento de quem mora nas ruas renomead as; e um mapeamento. “Quero montar um mapa digital e interativo para que qualquer um tenha fácil acesso à essas informações”.

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“Continuo morando na periferia. Sinto muito orgulho da minha caminhada, das minhas raízes”

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Sua trajetória na academia começou ainda em 2005, quando uma unidade da PUC foi inaugurada próxima a sua casa. “Lembro de quando fui aprovada e meu pai me disse que só teria dinheiro para me matricular. Fiquei muito feliz e triste ao mesmo tempo, porque sabia que tudo poderia acabar de uma hora pra outra”, lembra a psicóloga que depois conseguiu 50% de bolsa do Prouni. “Mesmo com a bolsa era muito difícil pagar, algumas vezes não tínhamos o dinheiro da mensalidade e ficávamos devendo, noutras conseguia bolsa por mérito acadêmico para o semestre o que foi fundamental pra minha permanência no curso”.

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“Quando me formei em 2010, queria me casar, mas também queria tentar o mestrado e aceitei o desafio de fazer os dois”. Aprovada em 4º lugar para o mestrado na UFMG um ano após a formatura, Jaíza desenvolveu uma pesquisa sobre a memória das mulheres grávidas ou mães que militaram em oposição ao regime militar, se tornando mestra em psicologia, em 2013. “Foi um período muito difícil, mesmo como bolsista não almocei ou jantei por inúmeras vezes, morria de vergonha”, conta a doutoranda que fez questão de nunca esconder sua origem periférica. “Minha origem era muito diferente das pessoas daquele local, eu tinha que resistir todo dia, usando a bolsa de pesquisa para sobreviver enquanto meus colegas já haviam viajado o mundo e falavam muitas línguas”.

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Mesmo agora no doutorado, o perrengue da vida de bolsista é o mesmo. “Quando o pagamento da bolsa atrasou por alguns meses este ano tudo ficou ainda mais difícil, tive que contar com a ajuda de colegas que me ajudaram com cestas básica. Temos até um grupo de Whatsapp chamado ‘os subalternos’, estamos sempre nos apoiando uns aos outros porque, de uma forma ou de outra, todos passam seus perrengues como bolsista”. Mesmo com todas as dificuldades em cursar doutorado e ser de origem periférica, Jaíza faz questão de afirmar que “tem muita fé em um futuro promissor” como professora de pós-graduação, sonho que a motivou desde o início a insistir em uma carreira acadêmica.

 

 

 

 

 

 

 

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