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Abusos da fé: Damares Alves, João de Deus e monstros escondidos na sociedade

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Veja publicação original:  Abusos da fé: Damares Alves, João de Deus e monstros escondidos na sociedade

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Por FernandoDuarte

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Da ministra Damares Alves ao médium João de Deus, o noticiário foi invadido por uma série de questionamentos sobre os abusos da fé. Os dois estão em lados opostos nas narrativas que envolvem crença e assédio sexual e foram intensamente julgados nas redes sociais ao longo das duas últimas semanas. Enquanto Damares foi vítima de quem “pregava” a palavra daquilo que a ministra acreditava, João de Deus foi algoz das pessoas que nele acreditavam. E o tom misógino e preconceituoso da sociedade prevaleceu.

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A futura comandante do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos foi alvo de chacota desde que um relato dela sobre ver a imagem de Jesus numa goiabeira povoou as redes sociais. O vídeo foi editado para parecer um devaneio estereotipado das igrejas neopentecostais brasileiras. Realmente, fora do contexto, uma senhora narrando ter visto Jesus subindo num pé de goiaba e pedindo para que ele descesse poderia ser cômico. Não era o caso por um fato simples: Damares usou a própria fé para explicar como resistiu a um trauma de ter sido estuprada por um “falso pastor”, nas palavras dela, aos 6 anos de idade.

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Alçada à condição de ministra numa pasta que deve respeitar os direitos de minorias, Damares teve a vida vasculhada. Em meio aos vídeos em que ela aparece como pastora, o trecho da goiabeira que viralizou não mostra o relato na íntegra. A alegoria de Jesus – que poderia ser qualquer outra, caso a mesma não fosse cristã – se tornou uma metáfora para a “salvação” dela diante da série de abusos sofridos na infância. Ainda assim, Damares foi ridicularizada por ver “Jesus na goiabeira”. Ninguém sequer questionou quem foi o pastor que cometeu o estupro.

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Parte das críticas, inclusive, partiu de figuras públicas que são contrárias ao governo de Jair Bolsonaro e aproveitaram o trecho editado para atacar a qualidade técnica da ministra. Acontece que Damares não deveria ser julgada pela fé, a não ser que essa fé passe a atrapalhar sua atuação na função estatal. No caso da educação sexual de crianças e adolescentes, por exemplo, a própria ministra já defendeu ser favorável mesmo num governo conservador como o atual.

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Na outra ponta dessa narrativa cruel, o médium João de Deus foi acusado de assédio sexual por algumas centenas de mulheres que passaram pelo centro de atendimento espírita dele no interior de Goiás. Ao tempo em que os relatos apareceram, um sem número de pessoas tentou minimizar o fato de que a celebridade mediúnica era sim um ser desprezível, que abusava da fé das pessoas para assediá-la.

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João de Deus ainda vai ser julgado, porém é impossível desacreditar que ele tenha feito as atrocidades que fez. Ainda assim, a misoginia e o preconceito que permeiam a nossa sociedade ainda levantam questionamentos sobre a veracidade dos depoimentos – de abusos que acontecem há mais de 30 anos e foram jogados para debaixo do tapete por inúmeras famílias que foram ludibriadas pela fé.

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Enquanto casos como os de Damares e de João de Deus continuarem existindo e sendo minimizados pela sociedade, é possível que não deixemos o estado de barbárie que tanto reclamamos. E estaremos fadados a conviver com notícias de abusos nas mais diversas religiões, vide padres pedófilos, Lucas Terra e tantos outros episódios em que perdemos a crença na humanidade. A fé move montanhas. E também esconde monstros.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Transcrição A bióloga e advogada Bertha Lutz nasceu em 1894, filha da enfermeira Amy Fowler e do cientista Adolfo Lutz. Fez parte de seus estudos na Universidade de Sorbonne, em Paris e depois de formada atuou na área de botânica do Museu Nacional até 1964. Sempre participou em causas sociais envolvendo direitos das mulheres, sendo presidente da Federação Brasileira para o Progresso Feminino. Em sua homenagem, todos os anos o Senado entrega o Diploma Berta Lutz a personalidades que se destacam na defesa de direitos das mulheres e das questões de gênero. Em 2003, na primeira edição do prêmio, a então senadora Emília Fernandes, do Rio Grande do Sul, ressaltou o pioneirismo de Bertha em diversas áreas. Emília Fernandes – A mulher cidadã Bertha Lutz, advogada e bióloga que se diplomou em tempo no qual a mulher não tinha outra opção além de tornar-se dona de casa e gerar numerosa prole. Foi uma mulher muito à frente de seu tempo, um tempo de nefasta opressão que, além de negar acesso às instâncias formais de poder, reprimia de maneira terrível todas aquelas mulheres que tentassem romper as barreiras impostas por uma sociedade marcada por valores machistas. Bertha Lutz fez parte do grupo conhecido como sufragistas brasileiras que teve como conquista o voto feminino no país em 1932. Foi a segunda mulher a ser deputada federal no Brasil em 1936. Bertha ainda fez parte da delegação brasileira em 1945 que participou da construção da Carta das Nações Unidas. Ela faleceu em 16 de setembro de 1976.

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