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‘A gente quer sobreviver’: primeira mulher auxiliar no Brasileirão fala sobre machismo no futebol

Saiu no site ESTADÃO

Ao ‘Estadão’, pioneira Nívia de Lima, técnica da equipe sub-20 da Chapecoense, conta sobre o preconceito logo no ínicio da carreira e a convivência em um ambiente masculino

Por trás dos feitos recentes de Nívia de Lima existem mais de 12 anos de trajetória no futebol masculino, movidos por um sonho em tornar-se treinadora e impactado pelo preconceito em um ambiente majoritariamente dos homens.

Aos 44 anos, a primeira treinadora a vencer uma partida da Copa São Paulo de Futebol Júnior e a pioneira a ser auxiliar técnica do Campeonato Brasileiro não tinha referências femininas no início da carreira e, agora, tornou-se uma para as próximas mulheres que adentrarem o mesmo ambiente. “Que tenham mais Nívias no futebol”, disse a técnica do sub-20 da Chapecoense em exclusiva ao Estadão.

Com uma trajetória na Chapecoense desde 2012, ela passou por diversas categorias no clube. Ao chegar no comando do sub-20, ela recebeu a missão de classificar a equipe para uma Copinha, já que isso não acontecia há dois anos. Nívia levou a equipe de volta para o torneio.

Na competição, o objetivo era avançar de fase e, para isso, era necessário vencer jogos. “Quando aconteceu eu não imaginava que se ganhasse o jogo ia bater recorde, não tinha isso na minha cabeça, queria fazer um bom trabalho, que as pessoas vissem que a Chapecoense era uma equipe bem treinada”, fala a treinadora.

A notícia de seu feito veio por meio daqueles que dividem o dia a dia com ela: seus próprios atletas. “Eu falo do carinho e do respeito, eles falaram no vestiário ‘a nossa profe está famosa’, eles vinham me abraçavam, tiravam fotos, a alegria deles. Foi quando peguei meu celular ‘a primeira técnica mulher a vencer uma partida’ e caiu a ficha”, relembra entusiasmada.

Depois ela aproveitou o momento, a oportunidade das pessoas conhecerem não só a Nívia que fez história mas sim o seu trabalho. “Por trás daquela vitória tinha uma Nívia que já trabalhava a 12 anos, que as mulheres se encorajem, não é fácil, mas a gente é capaz de conseguir, é possível. Fiquei muito feliz, realizada profissionalmente, é histórico”.

No início deste mês de abril, Nívia teve novamente mais uma oportunidade de, sem aviso prévio, entrar para a história.

Nívia em partida pelo profissional Foto: Rafael Bressan/ACF

Com a saída do técnico, Gilmar Dal Pozzo, o clube criou uma comissão interina até conseguir uma contratação. Nívia, como técnica do sub-20, categoria mais próxima do profissional, tornou-se auxiliar técnica do principal, e entrando para a história do Brasileirão no domingo de Páscoa, no empate em 1 a 1 contra o Vitória, na Arena Condá.

“Estava muito feliz pela oportunidade, não sabia que viria essa questão em ser a primeira mulher a trabalhar como auxiliar no campeonato, no momento era gratidão de estar ali trabalhando e da confiança do clube de fazer as escadinhas e não ver que é uma mulher e questionar se ia conseguir ou não”, conta.

A treinadora foi bem recebida pelo elenco do profissional, mas afirma ter sido tomada por um sentimento diferente ao entrar no gramado. “Assim que eu cheguei aqui na arena que eu vi a torcida da Chape, que é um público totalmente diferente, que eu tenho uma identificação muito grande. Aquele frio, aquela ansiedade, mas depois que começou o jogo entrou a adrenalina, minha cabeça estava focada em ajudar da melhor maneira”.

Nívia em partida como auxiliar do profissional Foto: Rafael Bressan/ACF

Apresentada ao futebol pelo pai, ela aprendeu a viver cercada de homens ao acompanhá-lo nos jogos. “Eu sou a filha mais velha, ele não tinha filho homem, ele me levava e eu ia com ele para os jogos. Era a única menina e ficava correndo atrás da bola.”

Foi a mãe quem lhe apoiou a seguir o caminho como jogadora, decisão que na época vinha carregada de sacrifícios e intolerância. “Ela abriu mão de muita coisa pra viajar, na época o futebol feminino não era igual hoje, com categorias, eu nova, com 15 anos, já jogava com mais velhas, ela me acompanhava, estava sempre comigo, me incentivava”.

O amparo da mãe não ficava restrito somente a filha, ela via necessidade de ajudar as outras meninas que queriam seguir esse sonho.“ Ela fazia comida para as atletas, a gente não tinha apoio, levava as meninas lá em casa pra comer antes de ir pro jogo.”

Em uma época que o futebol feminino era menos valorizado, era preciso dividir-se entre diversas categorias para seguir jogando. “Faltava incentivo, não tinha campeonatos de base, hoje já tem brasileiros e estaduais. Não tinha calendário, jogava campo, futsal, onde tinha campeonato a gente tentava inserir, participava de futebol de areia sem treinar, só para continuar a prática.”, relembra.

Mesmo que distante da realidade do futebol masculino, Nívia já vê uma melhora na realidade da modalidade, com avanços e maior visibilidade da categoria. “Já vejo um calendário, mais organizado, muito longe do que é um masculino, mas já tem um começo, na minha época era muito amador, a gente sofria muito pra conseguir competir”, conta.

Com a falta de exibição, havia dificuldade para os pais permitirem que suas filhas jogassem futebol, restringindo ainda mais a prática. “Antes era como se a mulher fosse invasora em um esporte que não pertencia a ela.”

Mesmo as que conseguiam enfrentar a barreira inicial e começar a jogar tinham pela frente a impossibilidade de viver somente do futebol, sendo necessário fazer outros trabalhos por fora para ter uma renda.

“Na época em que eu jogava, eu nunca ganhei dinheiro como atleta, mas eu ganhei, o que o futebol me deu, que ninguém tira, que é o estudo. Então eu trocava a questão do salário, que era pouco, mas ganhava a bolsa pra poder estudar. Eu sabia que era isso que ia futuramente me levar ao que eu sou hoje”.

Sem receber salário, Nívia precisou fazer extras fora do período dos treinos. “Eu tinha que trabalhar em outras esferas pra poder me virar, jogava, treinava e fazia extras, às vezes entregava panfletos, às vezes de garçonete, para poder ter uma renda melhor, não conseguia viver só de futebol”.

Nívia na época em que ainda era jogadora de futsal Foto: Reprodução

Já na faculdade, decidiu que queria trabalhar com o esporte e, mais do que isso, ser treinadora de futebol. Uma característica observada por seus técnicos foi o pontapé ideal para o seu futuro. “Os treinadores falavam que eu tinha interesse em saber da parte tática, questionava muito, eles falavam ‘você vai seguir por essa linha”, relembra a treinadora.

Decidida, focou em aprender tudo que permeava a técnica do futebol. Nívia buscava entender como era o atleta, agora, partindo de uma visão extra-quadra. “Eu não tenho plano B, meu plano A é ser técnica de futebol, sempre tive isso na minha mente”.

Após o fim do time adulto em Londrina devido a uma troca de gestão, a atleta mudou-se para Chapecó para atuar pela Female, restando apenas seis meses para concluir sua licenciatura. Prevendo o fim da carreira em quadra, buscou novas oportunidades e, em 2012, realizou a transição para o ambiente técnico ao assumir as escolinhas da Chapecoense, período marcado pelo início de sua trajetória fora das quatro linhas e pelo primeiro episódio de preconceito sofrido.

Mesmo já formada, Nívia não podia dar aulas, sendo tratada como ainda estagiária. Quando a clube decidiu por colocá-la como treinadora do sub-7, pais não aceitaram e solicitaram a mudança ao presidente na época, Sandro Pallaoro, que pediu que dessem um mês para ela trabalhar, sem julgar pelo gênero, e que após isso, caso não tivesse sucesso, ele mesmo retiraria Nívia do cargo.

Nívia dando informações na beira do gramado em partida pela Chapecoense Foto: Rafael Bressan/ACF

Tempo passou, o trabalho rendeu e os mesmos pais voltaram ao clube para, dessa vez, tecer elogios a treinadora. Nívia, porém, só ficou sabendo da primeira situação tempos depois, algo que ela vê com tamanha gratidão ao clube.

“Eu acho que estou nessa carreira ainda porque eles não me contaram na época que isso aconteceu, não sei como ia reagir, se teria tranquilidade de trabalhar. A gente chega cheia de sonhos, eu tava a pessoa mais feliz por trabalhar com aquilo que eu idealizava desde a faculdade e você ser cortada não pela sua capacidade e sim por ser mulher, não sei como eu ia lidar com essa situação”, conta.

O machismo ainda é presente, mas, para ela, com a experiência de todos esses anos, adquiriu uma “imunidade” a isso, sendo menos afetada do que no começo da carreira.

“Eu sofro preconceito até hoje, mas parece que você vai ficando mais fortalecida, mas na época acho que eu estaria bem frágil, não sei se eu teria coragem de ir pro treino sabendo que as pessoas estariam me avaliando não pelo meu trabalho e sim por ser mulher”.

A discriminação não ultrapassava os muros do clube, criando um ambiente de acolhimento para a treinadora, mesmo trabalhando cercada por homens.

“Agradeço muito ao meu staff e principalmente aos meu atletas, eu nunca senti essa diferença, de coração mesmo, sempre senti acolhimento, mas não por ser mulher, e sim por me julgarem pela minha capacidade”.

Passando por diversas categorias, ela reconhece que as crianças não essa tem maldade de questionar se é professor ou professora, apenas querem estar felizes e jogando. Mas indo as idades, já começa o entendimento da questão de gênero.

“Como atleta eles nunca deixaram de serem eles por ter uma mulher ali no vestiário comandando eles. Não vejo falarem de estarem sendo comandados por uma mulher, apesar das perguntas para eles já serem direcionadas a isso, ‘como é trabalhar com uma mulher?’ e eles mesmo falam ‘prô, porque só perguntam isso?’. Agradeço por fazerem meu ambiente ser profissional e acolhedor, de muito respeito, isso me blinda muito do preconceito externo”.

No início, não havia mulheres no cargo que ela pudesse almejar chegar ao mesmo patamar. Com o acesso que a mídia promove hoje em dia, ela consegue ter contato com outras mulheres que trabalham no futebol, compartilhando vivências e buscando se capacitarem.

“Eu vi que não estou nessa luta sozinha, eu recebi muitas mensagens ‘olha você me representa’ e isso foi assustador, não imaginava que a gente era essa referência hoje. Mas no começo não tinha realmente referência de mulher.”

Ela então buscava observar treinadores homens, “no começo, foi o Muricy Ramalho, que ele falava sempre de trabalho, comprometimento. Eu fazia questão de assistir as entrevistas dele, como se comportava, hoje em dia já estou em um grupo com muitas treinadoras, já tem rede de apoio e elas se tornaram referência.”, relata.

Nívia enxerga a pressão exercida sobre um treinador ainda maior tratando-se de uma mulher.

Quando a gente está nesse ambiente, que tem poucas mulheres, a gente pensa em sobreviver, o treinador já tem essa carga, a gente vive por resultado, quando não tem você vai embora, imagina sendo uma mulher na beira do campo, isso não é se vitimizar, porque se você não mostra resultado é julgava além do seu trabalho por ser mulher e não saber o que esta fazendo ali

Nívia de Lima

Sonhando com passos maiores, mira treinar uma equipe profissional de nível Série A. “Esse é meu objetivo, estou estudando para isso, me qualificando para isso. Cada vez que estou mais perto, que tenho essas vivências, eu vejo que é aquilo que eu realmente quero”, conta Nívia.

Ela ainda espera que o ambiente seja mais propício para mulheres. “Que os clubes tenham essa coragem, e que as mulheres se qualifiquem e continuem buscando espaços, é meu desejo, para que as coisas sejam mais naturais com as mulheres no futebol.

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Ao ‘Estadão’, pioneira conta sobre o preconceito logo no ínicio da carreira e a convivência em um ambiente masculino

Por trás dos feitos recentes de Nívia de Lima existem mais de 12 anos de trajetória no futebol masculino, movidos por um sonho em tornar-se treinadora e impactado pelo preconceito em um ambiente majoritariamente dos homens.

Aos 44 anos, a primeira treinadora a vencer uma partida da Copa São Paulo de Futebol Júnior e a pioneira a ser auxiliar técnica do Campeonato Brasileiro não tinha referências femininas no início da carreira e, agora, tornou-se uma para as próximas mulheres que adentrarem o mesmo ambiente. “Que tenham mais Nívias no futebol”, disse a técnica do sub-20 da Chapecoense em exclusiva ao Estadão.

Com uma trajetória na Chapecoense desde 2012, ela passou por diversas categorias no clube. Ao chegar no comando do sub-20, ela recebeu a missão de classificar a equipe para uma Copinha, já que isso não acontecia há dois anos. Nívia levou a equipe de volta para o torneio.

Na competição, o objetivo era avançar de fase e, para isso, era necessário vencer jogos. “Quando aconteceu eu não imaginava que se ganhasse o jogo ia bater recorde, não tinha isso na minha cabeça, queria fazer um bom trabalho, que as pessoas vissem que a Chapecoense era uma equipe bem treinada”, fala a treinadora.

A notícia de seu feito veio por meio daqueles que dividem o dia a dia com ela: seus próprios atletas. “Eu falo do carinho e do respeito, eles falaram no vestiário ‘a nossa profe está famosa’, eles vinham me abraçavam, tiravam fotos, a alegria deles. Foi quando peguei meu celular ‘a primeira técnica mulher a vencer uma partida’ e caiu a ficha”, relembra entusiasmada.

Depois ela aproveitou o momento, a oportunidade das pessoas conhecerem não só a Nívia que fez história mas sim o seu trabalho. “Por trás daquela vitória tinha uma Nívia que já trabalhava a 12 anos, que as mulheres se encorajem, não é fácil, mas a gente é capaz de conseguir, é possível. Fiquei muito feliz, realizada profissionalmente, é histórico”.

No início deste mês de abril, Nívia teve novamente mais uma oportunidade de, sem aviso prévio, entrar para a história.

Nívia em partida pelo profissional Foto: Rafael Bressan/ACF

Com a saída do técnico, Gilmar Dal Pozzo, o clube criou uma comissão interina até conseguir uma contratação. Nívia, como técnica do sub-20, categoria mais próxima do profissional, tornou-se auxiliar técnica do principal, e entrando para a história do Brasileirão no domingo de Páscoa, no empate em 1 a 1 contra o Vitória, na Arena Condá.

“Estava muito feliz pela oportunidade, não sabia que viria essa questão em ser a primeira mulher a trabalhar como auxiliar no campeonato, no momento era gratidão de estar ali trabalhando e da confiança do clube de fazer as escadinhas e não ver que é uma mulher e questionar se ia conseguir ou não”, conta.

A treinadora foi bem recebida pelo elenco do profissional, mas afirma ter sido tomada por um sentimento diferente ao entrar no gramado. “Assim que eu cheguei aqui na arena que eu vi a torcida da Chape, que é um público totalmente diferente, que eu tenho uma identificação muito grande. Aquele frio, aquela ansiedade, mas depois que começou o jogo entrou a adrenalina, minha cabeça estava focada em ajudar da melhor maneira”.

Nívia em partida como auxiliar do profissional Foto: Rafael Bressan/ACF

Apresentada ao futebol pelo pai, ela aprendeu a viver cercada de homens ao acompanhá-lo nos jogos. “Eu sou a filha mais velha, ele não tinha filho homem, ele me levava e eu ia com ele para os jogos. Era a única menina e ficava correndo atrás da bola.”

Foi a mãe quem lhe apoiou a seguir o caminho como jogadora, decisão que na época vinha carregada de sacrifícios e intolerância. “Ela abriu mão de muita coisa pra viajar, na época o futebol feminino não era igual hoje, com categorias, eu nova, com 15 anos, já jogava com mais velhas, ela me acompanhava, estava sempre comigo, me incentivava”.

O amparo da mãe não ficava restrito somente a filha, ela via necessidade de ajudar as outras meninas que queriam seguir esse sonho.“ Ela fazia comida para as atletas, a gente não tinha apoio, levava as meninas lá em casa pra comer antes de ir pro jogo.”

Em uma época que o futebol feminino era menos valorizado, era preciso dividir-se entre diversas categorias para seguir jogando. “Faltava incentivo, não tinha campeonatos de base, hoje já tem brasileiros e estaduais. Não tinha calendário, jogava campo, futsal, onde tinha campeonato a gente tentava inserir, participava de futebol de areia sem treinar, só para continuar a prática.”, relembra.

Mesmo que distante da realidade do futebol masculino, Nívia já vê uma melhora na realidade da modalidade, com avanços e maior visibilidade da categoria. “Já vejo um calendário, mais organizado, muito longe do que é um masculino, mas já tem um começo, na minha época era muito amador, a gente sofria muito pra conseguir competir”, conta.

Com a falta de exibição, havia dificuldade para os pais permitirem que suas filhas jogassem futebol, restringindo ainda mais a prática. “Antes era como se a mulher fosse invasora em um esporte que não pertencia a ela.”

Mesmo as que conseguiam enfrentar a barreira inicial e começar a jogar tinham pela frente a impossibilidade de viver somente do futebol, sendo necessário fazer outros trabalhos por fora para ter uma renda.

“Na época em que eu jogava, eu nunca ganhei dinheiro como atleta, mas eu ganhei, o que o futebol me deu, que ninguém tira, que é o estudo. Então eu trocava a questão do salário, que era pouco, mas ganhava a bolsa pra poder estudar. Eu sabia que era isso que ia futuramente me levar ao que eu sou hoje”.

Sem receber salário, Nívia precisou fazer extras fora do período dos treinos. “Eu tinha que trabalhar em outras esferas pra poder me virar, jogava, treinava e fazia extras, às vezes entregava panfletos, às vezes de garçonete, para poder ter uma renda melhor, não conseguia viver só de futebol”.

Nívia na época em que ainda era jogadora de futsal Foto: Reprodução

Já na faculdade, decidiu que queria trabalhar com o esporte e, mais do que isso, ser treinadora de futebol. Uma característica observada por seus técnicos foi o pontapé ideal para o seu futuro. “Os treinadores falavam que eu tinha interesse em saber da parte tática, questionava muito, eles falavam ‘você vai seguir por essa linha”, relembra a treinadora.

Decidida, focou em aprender tudo que permeava a técnica do futebol. Nívia buscava entender como era o atleta, agora, partindo de uma visão extra-quadra. “Eu não tenho plano B, meu plano A é ser técnica de futebol, sempre tive isso na minha mente”.

Após o fim do time adulto em Londrina devido a uma troca de gestão, a atleta mudou-se para Chapecó para atuar pela Female, restando apenas seis meses para concluir sua licenciatura. Prevendo o fim da carreira em quadra, buscou novas oportunidades e, em 2012, realizou a transição para o ambiente técnico ao assumir as escolinhas da Chapecoense, período marcado pelo início de sua trajetória fora das quatro linhas e pelo primeiro episódio de preconceito sofrido.

Mesmo já formada, Nívia não podia dar aulas, sendo tratada como ainda estagiária. Quando a clube decidiu por colocá-la como treinadora do sub-7, pais não aceitaram e solicitaram a mudança ao presidente na época, Sandro Pallaoro, que pediu que dessem um mês para ela trabalhar, sem julgar pelo gênero, e que após isso, caso não tivesse sucesso, ele mesmo retiraria Nívia do cargo.

Nívia dando informações na beira do gramado em partida pela Chapecoense Foto: Rafael Bressan/ACF

Tempo passou, o trabalho rendeu e os mesmos pais voltaram ao clube para, dessa vez, tecer elogios a treinadora. Nívia, porém, só ficou sabendo da primeira situação tempos depois, algo que ela vê com tamanha gratidão ao clube.

“Eu acho que estou nessa carreira ainda porque eles não me contaram na época que isso aconteceu, não sei como ia reagir, se teria tranquilidade de trabalhar. A gente chega cheia de sonhos, eu tava a pessoa mais feliz por trabalhar com aquilo que eu idealizava desde a faculdade e você ser cortada não pela sua capacidade e sim por ser mulher, não sei como eu ia lidar com essa situação”, conta.

O machismo ainda é presente, mas, para ela, com a experiência de todos esses anos, adquiriu uma “imunidade” a isso, sendo menos afetada do que no começo da carreira.

“Eu sofro preconceito até hoje, mas parece que você vai ficando mais fortalecida, mas na época acho que eu estaria bem frágil, não sei se eu teria coragem de ir pro treino sabendo que as pessoas estariam me avaliando não pelo meu trabalho e sim por ser mulher”.

A discriminação não ultrapassava os muros do clube, criando um ambiente de acolhimento para a treinadora, mesmo trabalhando cercada por homens.

“Agradeço muito ao meu staff e principalmente aos meu atletas, eu nunca senti essa diferença, de coração mesmo, sempre senti acolhimento, mas não por ser mulher, e sim por me julgarem pela minha capacidade”.

Passando por diversas categorias, ela reconhece que as crianças não essa tem maldade de questionar se é professor ou professora, apenas querem estar felizes e jogando. Mas indo as idades, já começa o entendimento da questão de gênero.

“Como atleta eles nunca deixaram de serem eles por ter uma mulher ali no vestiário comandando eles. Não vejo falarem de estarem sendo comandados por uma mulher, apesar das perguntas para eles já serem direcionadas a isso, ‘como é trabalhar com uma mulher?’ e eles mesmo falam ‘prô, porque só perguntam isso?’. Agradeço por fazerem meu ambiente ser profissional e acolhedor, de muito respeito, isso me blinda muito do preconceito externo”.

No início, não havia mulheres no cargo que ela pudesse almejar chegar ao mesmo patamar. Com o acesso que a mídia promove hoje em dia, ela consegue ter contato com outras mulheres que trabalham no futebol, compartilhando vivências e buscando se capacitarem.

“Eu vi que não estou nessa luta sozinha, eu recebi muitas mensagens ‘olha você me representa’ e isso foi assustador, não imaginava que a gente era essa referência hoje. Mas no começo não tinha realmente referência de mulher.”

Ela então buscava observar treinadores homens, “no começo, foi o Muricy Ramalho, que ele falava sempre de trabalho, comprometimento. Eu fazia questão de assistir as entrevistas dele, como se comportava, hoje em dia já estou em um grupo com muitas treinadoras, já tem rede de apoio e elas se tornaram referência.”, relata.

Nívia enxerga a pressão exercida sobre um treinador ainda maior tratando-se de uma mulher.

Com uma trajetória na Chapecoense desde 2012, ela passou por diversas categorias no clube. Ao chegar no comando do sub-20, ela recebeu a missão de classificar a equipe para uma Copinha, já que isso não acontecia há dois anos. Nívia levou a equipe de volta para o torneio.

Na competição, o objetivo era avançar de fase e, para isso, era necessário vencer jogos. “Quando aconteceu eu não imaginava que se ganhasse o jogo ia bater recorde, não tinha isso na minha cabeça, queria fazer um bom trabalho, que as pessoas vissem que a Chapecoense era uma equipe bem treinada”, fala a treinadora.

A notícia de seu feito veio por meio daqueles que dividem o dia a dia com ela: seus próprios atletas. “Eu falo do carinho e do respeito, eles falaram no vestiário ‘a nossa profe está famosa’, eles vinham me abraçavam, tiravam fotos, a alegria deles. Foi quando peguei meu celular ‘a primeira técnica mulher a vencer uma partida’ e caiu a ficha”, relembra entusiasmada.

Depois ela aproveitou o momento, a oportunidade das pessoas conhecerem não só a Nívia que fez história mas sim o seu trabalho. “Por trás daquela vitória tinha uma Nívia que já trabalhava a 12 anos, que as mulheres se encorajem, não é fácil, mas a gente é capaz de conseguir, é possível. Fiquei muito feliz, realizada profissionalmente, é histórico”.

No início deste mês de abril, Nívia teve novamente mais uma oportunidade de, sem aviso prévio, entrar para a história.

Nívia em partida pelo profissional Foto: Rafael Bressan/ACF

Com a saída do técnico, Gilmar Dal Pozzo, o clube criou uma comissão interina até conseguir uma contratação. Nívia, como técnica do sub-20, categoria mais próxima do profissional, tornou-se auxiliar técnica do principal, e entrando para a história do Brasileirão no domingo de Páscoa, no empate em 1 a 1 contra o Vitória, na Arena Condá.

“Estava muito feliz pela oportunidade, não sabia que viria essa questão em ser a primeira mulher a trabalhar como auxiliar no campeonato, no momento era gratidão de estar ali trabalhando e da confiança do clube de fazer as escadinhas e não ver que é uma mulher e questionar se ia conseguir ou não”, conta.

A treinadora foi bem recebida pelo elenco do profissional, mas afirma ter sido tomada por um sentimento diferente ao entrar no gramado. “Assim que eu cheguei aqui na arena que eu vi a torcida da Chape, que é um público totalmente diferente, que eu tenho uma identificação muito grande. Aquele frio, aquela ansiedade, mas depois que começou o jogo entrou a adrenalina, minha cabeça estava focada em ajudar da melhor maneira”.

Nívia em partida como auxiliar do profissional Foto: Rafael Bressan/ACF

Apresentada ao futebol pelo pai, ela aprendeu a viver cercada de homens ao acompanhá-lo nos jogos. “Eu sou a filha mais velha, ele não tinha filho homem, ele me levava e eu ia com ele para os jogos. Era a única menina e ficava correndo atrás da bola.”

Foi a mãe quem lhe apoiou a seguir o caminho como jogadora, decisão que na época vinha carregada de sacrifícios e intolerância. “Ela abriu mão de muita coisa pra viajar, na época o futebol feminino não era igual hoje, com categorias, eu nova, com 15 anos, já jogava com mais velhas, ela me acompanhava, estava sempre comigo, me incentivava”.

O amparo da mãe não ficava restrito somente a filha, ela via necessidade de ajudar as outras meninas que queriam seguir esse sonho.“ Ela fazia comida para as atletas, a gente não tinha apoio, levava as meninas lá em casa pra comer antes de ir pro jogo.”

Em uma época que o futebol feminino era menos valorizado, era preciso dividir-se entre diversas categorias para seguir jogando. “Faltava incentivo, não tinha campeonatos de base, hoje já tem brasileiros e estaduais. Não tinha calendário, jogava campo, futsal, onde tinha campeonato a gente tentava inserir, participava de futebol de areia sem treinar, só para continuar a prática.”, relembra.

Mesmo que distante da realidade do futebol masculino, Nívia já vê uma melhora na realidade da modalidade, com avanços e maior visibilidade da categoria. “Já vejo um calendário, mais organizado, muito longe do que é um masculino, mas já tem um começo, na minha época era muito amador, a gente sofria muito pra conseguir competir”, conta.

Com a falta de exibição, havia dificuldade para os pais permitirem que suas filhas jogassem futebol, restringindo ainda mais a prática. “Antes era como se a mulher fosse invasora em um esporte que não pertencia a ela.”

Mesmo as que conseguiam enfrentar a barreira inicial e começar a jogar tinham pela frente a impossibilidade de viver somente do futebol, sendo necessário fazer outros trabalhos por fora para ter uma renda.

“Na época em que eu jogava, eu nunca ganhei dinheiro como atleta, mas eu ganhei, o que o futebol me deu, que ninguém tira, que é o estudo. Então eu trocava a questão do salário, que era pouco, mas ganhava a bolsa pra poder estudar. Eu sabia que era isso que ia futuramente me levar ao que eu sou hoje”.

Sem receber salário, Nívia precisou fazer extras fora do período dos treinos. “Eu tinha que trabalhar em outras esferas pra poder me virar, jogava, treinava e fazia extras, às vezes entregava panfletos, às vezes de garçonete, para poder ter uma renda melhor, não conseguia viver só de futebol”.

Nívia na época em que ainda era jogadora de futsal Foto: Reprodução

Já na faculdade, decidiu que queria trabalhar com o esporte e, mais do que isso, ser treinadora de futebol. Uma característica observada por seus técnicos foi o pontapé ideal para o seu futuro. “Os treinadores falavam que eu tinha interesse em saber da parte tática, questionava muito, eles falavam ‘você vai seguir por essa linha”, relembra a treinadora.

Decidida, focou em aprender tudo que permeava a técnica do futebol. Nívia buscava entender como era o atleta, agora, partindo de uma visão extra-quadra. “Eu não tenho plano B, meu plano A é ser técnica de futebol, sempre tive isso na minha mente”.

Após o fim do time adulto em Londrina devido a uma troca de gestão, a atleta mudou-se para Chapecó para atuar pela Female, restando apenas seis meses para concluir sua licenciatura. Prevendo o fim da carreira em quadra, buscou novas oportunidades e, em 2012, realizou a transição para o ambiente técnico ao assumir as escolinhas da Chapecoense, período marcado pelo início de sua trajetória fora das quatro linhas e pelo primeiro episódio de preconceito sofrido.

Mesmo já formada, Nívia não podia dar aulas, sendo tratada como ainda estagiária. Quando a clube decidiu por colocá-la como treinadora do sub-7, pais não aceitaram e solicitaram a mudança ao presidente na época, Sandro Pallaoro, que pediu que dessem um mês para ela trabalhar, sem julgar pelo gênero, e que após isso, caso não tivesse sucesso, ele mesmo retiraria Nívia do cargo.

Nívia dando informações na beira do gramado em partida pela Chapecoense Foto: Rafael Bressan/ACF

Tempo passou, o trabalho rendeu e os mesmos pais voltaram ao clube para, dessa vez, tecer elogios a treinadora. Nívia, porém, só ficou sabendo da primeira situação tempos depois, algo que ela vê com tamanha gratidão ao clube.

“Eu acho que estou nessa carreira ainda porque eles não me contaram na época que isso aconteceu, não sei como ia reagir, se teria tranquilidade de trabalhar. A gente chega cheia de sonhos, eu tava a pessoa mais feliz por trabalhar com aquilo que eu idealizava desde a faculdade e você ser cortada não pela sua capacidade e sim por ser mulher, não sei como eu ia lidar com essa situação”, conta.

O machismo ainda é presente, mas, para ela, com a experiência de todos esses anos, adquiriu uma “imunidade” a isso, sendo menos afetada do que no começo da carreira.

“Eu sofro preconceito até hoje, mas parece que você vai ficando mais fortalecida, mas na época acho que eu estaria bem frágil, não sei se eu teria coragem de ir pro treino sabendo que as pessoas estariam me avaliando não pelo meu trabalho e sim por ser mulher”.

A discriminação não ultrapassava os muros do clube, criando um ambiente de acolhimento para a treinadora, mesmo trabalhando cercada por homens.

“Agradeço muito ao meu staff e principalmente aos meu atletas, eu nunca senti essa diferença, de coração mesmo, sempre senti acolhimento, mas não por ser mulher, e sim por me julgarem pela minha capacidade”.

Passando por diversas categorias, ela reconhece que as crianças não essa tem maldade de questionar se é professor ou professora, apenas querem estar felizes e jogando. Mas indo as idades, já começa o entendimento da questão de gênero.

“Como atleta eles nunca deixaram de serem eles por ter uma mulher ali no vestiário comandando eles. Não vejo falarem de estarem sendo comandados por uma mulher, apesar das perguntas para eles já serem direcionadas a isso, ‘como é trabalhar com uma mulher?’ e eles mesmo falam ‘prô, porque só perguntam isso?’. Agradeço por fazerem meu ambiente ser profissional e acolhedor, de muito respeito, isso me blinda muito do preconceito externo”.

No início, não havia mulheres no cargo que ela pudesse almejar chegar ao mesmo patamar. Com o acesso que a mídia promove hoje em dia, ela consegue ter contato com outras mulheres que trabalham no futebol, compartilhando vivências e buscando se capacitarem.

“Eu vi que não estou nessa luta sozinha, eu recebi muitas mensagens ‘olha você me representa’ e isso foi assustador, não imaginava que a gente era essa referência hoje. Mas no começo não tinha realmente referência de mulher.”

Ela então buscava observar treinadores homens, “no começo, foi o Muricy Ramalho, que ele falava sempre de trabalho, comprometimento. Eu fazia questão de assistir as entrevistas dele, como se comportava, hoje em dia já estou em um grupo com muitas treinadoras, já tem rede de apoio e elas se tornaram referência.”, relata.

Nívia enxerga a pressão exercida sobre um treinador ainda maior tratando-se de uma mulher.

Quando a gente está nesse ambiente, que tem poucas mulheres, a gente pensa em sobreviver, o treinador já tem essa carga, a gente vive por resultado, quando não tem você vai embora, imagina sendo uma mulher na beira do campo, isso não é se vitimizar, porque se você não mostra resultado é julgava além do seu trabalho por ser mulher e não saber o que esta fazendo ali

Nívia de Lima

Sonhando com passos maiores, mira treinar uma equipe profissional de nível Série A. “Esse é meu objetivo, estou estudando para isso, me qualificando para isso. Cada vez que estou mais perto, que tenho essas vivências, eu vejo que é aquilo que eu realmente quero”, conta Nívia.

Ela ainda espera que o ambiente seja mais propício para mulheres. “Que os clubes tenham essa coragem, e que as mulheres se qualifiquem e continuem buscando espaços, é meu desejo, para que as coisas sejam mais naturais com as mulheres no futebol.

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