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Em resumo
- Novo relatório assinado por Luba Kassova mostra que temas como assédio, feminicídio, abuso sexual e misoginia ocuparam só 1,3% do noticiário online global em 2025, o menor nível desde 2017.
- O estudo aponta que a cobertura ainda trata crimes como casos isolados, privilegia vozes masculinas e raramente conecta a violência contra mulheres a desigualdades estruturais.
Enquanto uma em cada três mulheres no mundo já sofreu violência sexual ao longo da vida, a mídia global dedica cada vez menos espaço a temas como assédio, feminicídio, abuso sexual e misoginia.
É o que mostra um novo relatório assinado pela pesquisadora Luba Kassova, uma das vozes mais importantes do mundo no debate sobre mídia e gênero. O estudo aponta que a cobertura sobre esses temas atingiu, em 2025, seu menor nível desde 2017.
A violência contra a mulher na mídia representou apenas 1,3% de todo o conteúdo jornalístico online analisado. Para Kassova, esse silêncio estatístico revela uma dificuldade das redações em conectar crimes individuais a sistemas de desigualdade estrutural.
Os dados mostram que o volume de cobertura sobre misoginia caiu quase pela metade desde o pico registrado em 2018, quando atingiu 2,2% durante o movimento #MeToo.
Entre 2017 e 2025, a média global ficou em apenas 1,6% do noticiário online.
Cobertura atinge menor nível desde 2017
O estudo integra a série de relatórios “Missing Perspectives” e inaugura um monitoramento anual sob o título “The Global Misogyny News Coverage Tracker”.
O trabalho processou 1,14 bilhão de notícias publicadas globalmente entre 2017 e 2025, utilizando cinco métodos de pesquisa diferentes, incluindo análise quantitativa pelo banco de dados GDELT (Global Database of Events, Language and Tone).
A análise dos dados foi feita por Richard Addy, estrategista e ex-conselheiro da BBC.
Para medir a cobertura, o relatório selecionou 12 termos relacionados à misoginia e à violência contra mulheres: estupro, agressão sexual, violência doméstica, abuso sexual, assédio sexual, violência sexual, sexismo, violência contra mulheres, violência de gênero, MeToo, feminicídio e misoginia.
A partir desses termos, a pesquisa identificou 19,6 milhões de notícias dentro do universo analisado. Mesmo no auge da cobertura, em 2018, o tema permaneceu pouco acima de 2% de todo o noticiário online global.
Misoginia perde espaço no noticiário global
Embora o Brasil não receba destaque individualizado nos dados apresentados, a América do Sul registrou um aumento de seis vezes na proporção de artigos que mencionam o termo “ideologia de gênero” entre 2020 e 2025.
Esse dado acompanha uma tendência global. No mesmo período, as menções ao termo cresceram 42 vezes no total, impulsionadas por movimentos que se opõem à igualdade de gênero e que frequentemente deslocam o debate sobre os direitos estruturais das mulheres.
O contraste é um dos pontos centrais do relatório: enquanto a cobertura sobre assédio misógino e violência contra mulheres cai, a presença de termos ligados à reação contra políticas de igualdade cresce rapidamente no noticiário.
Homens ainda predominam nas vozes ouvidas
Além da queda no volume, o relatório aponta uma disparidade nas vozes ouvidas. Mesmo em reportagens sobre misoginia e violência contra mulheres, os homens continuam predominando na narrativa.
Entre 2017 e 2025, houve 1,5 homem citado para cada mulher em coberturas relacionadas à misoginia. Em 2025, essa diferença aumentou: foram 1,6 homem citado para cada mulher.
O relatório também observa que 2021 foi o único ano em que a cobertura global sobre esses temas atingiu paridade entre vozes masculinas e femininas. Desde então, a participação relativa das mulheres voltou a recuar.
A distância entre a escala do problema e a cobertura
O estudo mostra que níveis mais altos de violência contra mulheres em um país não se traduzem, necessariamente, em maior cobertura jornalística sobre o tema.
Essa desconexão aparece com força no chamado “Paradoxo Nórdico”. Países como Suécia, Finlândia, Dinamarca, Noruega e Islândia são conhecidos por altos índices de igualdade de gênero, mas também apresentam taxas elevadas de violência sexual ao longo da vida das mulheres.
A análise de 59,3 milhões de artigos publicados online entre 2016 e 2025 nesses países encontrou apenas 58 menções à expressão “Nordic paradox”.
Para o relatório, isso indica que a mídia local raramente investiga uma contradição amplamente discutida no meio acadêmico.
Caso Epstein expõe limites do enquadramento jornalístico
A análise do caso Jeffrey Epstein mostra como a cobertura jornalística tende a privilegiar ângulos ligados a poder, dinheiro e redes de influência, deixando em segundo plano explicações estruturais sobre abuso e misoginia.
O relatório examinou 808 mil artigos globais que mencionavam Epstein entre 2017 e fevereiro de 2026. Desse total, 26,1% faziam referência a termos como poder, dinheiro, elites ou corrupção. A palavra “vítimas” apareceu em 25,3% dos textos.
Em contraste, termos associados a explicações estruturais do abuso foram marginais.
A expressão “violência contra mulheres” apareceu em apenas 0,1% dos artigos. O termo “estrutural” apareceu em 0,5%. Já “sexismo”, “patriarcado” ou “misoginia” estiveram presentes, em conjunto, em 0,6% da cobertura.
Para o relatório, essa ausência mostra que a imprensa global raramente explora as causas que permitiram a continuidade de abusos em larga escala contra meninas e mulheres ao longo de décadas.
Poucos veículos concentram a cobertura qualificada
A cobertura qualificada sobre desvantagens estruturais enfrentadas pelas mulheres está concentrada em poucos veículos.
Entre os 50 sites ou plataformas de notícias em inglês mais visitados do mundo, apenas cinco — BBC, The Guardian, Substack, Indiatimes e Yahoo News — respondem por mais da metade dos títulos de artigos que abordam termos como misoginia, sexismo, MeToo ou violência contra mulheres.
A concentração evidencia uma desigualdade dentro do próprio ecossistema jornalístico. Embora alguns veículos e projetos editoriais produzam cobertura consistente, a maior parte dos grandes portais ainda dedica pouca atenção a esses temas.
Reportagens ainda tratam crimes como casos isolados
Além da análise quantitativa, o relatório examinou 22 artigos de grande circulação, selecionados entre quase 69 mil textos publicados em 2025 sobre assédio misógino ou violência contra mulheres.
A conclusão foi que a maioria das reportagens se concentrava em incidentes isolados e deixava de fora dimensões como contexto estrutural, estatísticas de prevalência, soluções e informações de apoio a vítimas.
O estudo também identificou problemas de abordagem. Em 59% dos artigos, havia detalhes explícitos considerados desnecessários sobre os crimes.
Em 45% dos textos com fontes citadas, nenhuma mulher foi ouvida. Apenas 32% citavam a vítima ou sobrevivente. E somente 14% ofereciam informações de ajuda a possíveis vítimas.
O que o relatório recomenda às redações
O relatório oferece um guia prático para jornalistas e editores transformarem a qualidade da cobertura, com foco em uma abordagem mais sistêmica e centrada na sobrevivente.
Entre as recomendações está o uso de linguagem ativa para identificar agressores, como “um homem estuprou uma mulher”, em vez de “uma mulher foi estuprada”.
O estudo também recomenda contextualizar crimes individuais dentro de um sistema de desigualdade estrutural e normas sociais, em vez de tratar agressores como “monstros” isolados.
Outra orientação é incluir informações sobre canais de apoio e ajuda para vítimas ao final de cada reportagem.
O relatório aponta que buscas globais por “domestic abuse support” aumentaram cinco vezes entre janeiro de 2017 e dezembro de 2025. No Reino Unido e nos Estados Unidos, essas buscas quadruplicaram no mesmo período.
Mais sobreviventes e mulheres como fontes
O estudo sugere ainda priorizar a voz das sobreviventes, ampliar a presença de mulheres como fontes e garantir que pelo menos metade dos especialistas e entrevistados citados sejam mulheres.
O relatório conclui que o jornalismo tem potencial para sensibilizar formuladores de políticas e contribuir para mudanças legais e sociais.
Para isso, as histórias das centenas de milhões de mulheres atingidas pela misoginia precisam ser contadas com a sensibilidade, o contexto e o rigor técnico que a escala do problema exige.
O relatório completo pode ser visto aqui.






