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Por que a violência contra a mulher ainda persiste no Brasil?

Saiu no site BRASIL DE FATO

 

Veja publicação original: Por que a violência contra a mulher ainda persiste no Brasil?

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A combinação desastrosa entre cortes no orçamento e as políticas públicas para mulheres

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Bárbara Ferreira de Freitas

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Como se justifica a diminuição dos investimentos com o aumento da violência? Ano após ano os dados apontam o aumento da violência contra a mulher no Brasil. Segundo o Atlas da Violência 2018 (IPEA), de 2006 a 2016, os assassinatos de mulheres cresceram 6,4%. Só em 2016 foram 4.645 homicídios cujas vítimas eram do sexo feminino. Ao mesmo tempo, o Governo Federal, tendo como justificativa o ajuste fiscal para combater a crise econômica e política dos últimos anos, desde 2016, vem diminuindo os investimentos em políticas públicas para as mulheres e áreas afins.

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Logo após o Golpe de março de 2016, na presidenta eleita Dilma Rousseff, Michel Temer retirou o status de Ministério da Secretaria de Políticas Públicas para as Mulheres – SPM, que perdeu os recursos e a autonomia para o planejamento, a ação e a execução de projetos direcionados ao atendimento das necessidades específicas dessa categoria. Em 2017, já era possível observar o desmonte dos programas direcionadas às mulheres, tais como o Mulher Viver Sem violência, que visava a construção de 27 Casas da Mulher Brasileira, uma em cada estado; e 54 ônibus para atendimento de vítimas de violência na zona rural; hoje sucateados.

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Dentre infinitos retrocessos, Michel Temer: nomeou apenas homens brancos para os Ministérios, o que não acontecia desde 1979, na gestão de Geisel; retirou o status de Ministério das Secretarias de Políticas de Promoção da Igualdade Racial e da dos Direitos Humanos, reduzindo-as a secretarias do Ministério da Justiça; congelou os gastos públicos em saúde e educação por 20 anos. Tais reformas impactam diretamente as ações de emancipação social, promoção da igualdade de gênero e a vida das mulheres.

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Há uma contradição na ação do Governo Federal de diminuir os investimentos em políticas públicas vide o aumento da violência, pois elas são um dos meios mais eficazes de enfrentamento da questão. Os gastos públicos, no recorte dos investimentos, apontam o que é prioridade em um Governo para o desenvolvimento do país. De acordo com o Portal da Transparência, para a SPM, em 2015, os investimentos representaram 27% dos gastos do Ministério, já em 2016 despencaram para 4%; e o mais grave é que, os recursos reservados por Dilma, para serem utilizados pelo Ministério, em 2016, eram de 90.988.859,17 reais, já em 2017 diminuíram para  12.117.578,87 reais, o que representa uma queda de 86,68% .

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As mulheres foram praticamente excluídas do orçamento da União e da Política, sendo as mulheres negras as mais afetadas. A violência contra a mulher é uma questão estrutural da sociedade brasileira, pois foi enraizada e naturalizada desde a sua formação, sendo utilizada como instrumento de dominação das indígenas pelos portugueses, durante 350 anos nos estupros coloniais e hoje se reproduz no assédio sexual sofrido pelas empregadas domésticas. Ela tem como base as estruturas do racismo-patriarcado-capitalismo. O patriarcado, definido por Heleieth Saffioti como um sistema de dominação dos homens sobre as mulheres, tem a violência como instrumento de subordinação das mulheres.

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As relações de gênero são inerentemente racializadas e produzidas em contextos cujas relações de classe determinam as posições ocupadas pelas mulheres. Segundo Sueli Carneiro, no Brasil, raça estrutura classe e vice-versa, no que ela chama de continuum histórico, que só muda o nome das instituições e dos esteriótipos, mas traz consigo as contradições, opressões e preconceitos do passado escondido no mito da democracia racial e cimentado com a igualdade formal das leis.

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Por isso, a retirada dos direitos sociais, civis e trabalhistas impacta o combate à violência contra a mulher, pois lhes usurpa a autonomia, precariza sua força de trabalho e as resignam ao espaço doméstico. Isso restringe a mobilidade social das mulheres, que para sair do ciclo de violência necessitam de mecanismos adequados que atendam suas necessidades básicas. Mas, a retirada pelo Governo Federal das mulheres da Política implica que as políticas que incidem sobre a nossa realidade sejam impostas por homens brancos privilegiados, limitando a organização democrática, comprometendo a agenda feminista e o enfrentamento da violência contra as mulheres.

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Diante do desmonte das políticas, permaneceremos atentas e seremos resistência, pois como disse a escritora e intelectual negra Conceição Evaristo: eles combinaram de nos matar, mas nós combinamos de não morrer.

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*Mestra em Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, Gênero e Feminismo (UFBA) e militante da Marcha Mundial das Mulheres.

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Edição: Heloisa de Sousa

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Transcrição A bióloga e advogada Bertha Lutz nasceu em 1894, filha da enfermeira Amy Fowler e do cientista Adolfo Lutz. Fez parte de seus estudos na Universidade de Sorbonne, em Paris e depois de formada atuou na área de botânica do Museu Nacional até 1964. Sempre participou em causas sociais envolvendo direitos das mulheres, sendo presidente da Federação Brasileira para o Progresso Feminino. Em sua homenagem, todos os anos o Senado entrega o Diploma Berta Lutz a personalidades que se destacam na defesa de direitos das mulheres e das questões de gênero. Em 2003, na primeira edição do prêmio, a então senadora Emília Fernandes, do Rio Grande do Sul, ressaltou o pioneirismo de Bertha em diversas áreas. Emília Fernandes – A mulher cidadã Bertha Lutz, advogada e bióloga que se diplomou em tempo no qual a mulher não tinha outra opção além de tornar-se dona de casa e gerar numerosa prole. Foi uma mulher muito à frente de seu tempo, um tempo de nefasta opressão que, além de negar acesso às instâncias formais de poder, reprimia de maneira terrível todas aquelas mulheres que tentassem romper as barreiras impostas por uma sociedade marcada por valores machistas. Bertha Lutz fez parte do grupo conhecido como sufragistas brasileiras que teve como conquista o voto feminino no país em 1932. Foi a segunda mulher a ser deputada federal no Brasil em 1936. Bertha ainda fez parte da delegação brasileira em 1945 que participou da construção da Carta das Nações Unidas. Ela faleceu em 16 de setembro de 1976.

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