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Maria Valéria Rezende reunirá 500 autoras ignoradas por editoras

Saiu no site REVISTA MARIE CLAIRE:

 

Veja publicação original:  Maria Valéria Rezende reunirá 500 autoras ignoradas por editoras

 

Ela é bem-humorada, contundente quando escreve e uma freira muito rebelde. Conheça a escritora das mulheres loucas

Por Patrícia Zaidan

 

Dormir nas ruas de Porto Alegre, em fila de hospitais públicos, na rodoviária e no aeroporto para ver o que sente uma mulher da sua idade ao se expor à crueza da noite não foi problema para a santista Maria Valéria Rezende, 74 anos. A experiência era necessária. Tornou real Alice, a personagem que fez o mesmo périplo no romance Quarenta Dias (Alfaguara) e rendeu à escritora o Prêmio Jabuti 2015 de melhor livro.

Valéria também não vê embaraço algum em aparecer nas fotos fumando seu cigarrão feito James Dean ou topar briga por opiniões políticas, em mesa de bar, como aconteceu com o escritor e cartunista Ziraldo. O fato de ser freira não a impede de viver nada. Ligada à igreja que fez opção pelos pobres e enfrentou a ditadura militar, Maria Valéria diz: “Eu me recuso a parecer a bobinha que todos imaginam que uma freira seja”.

Gosta de mostrar-se carne, osso, suor e sucesso. Em julho, na Festa Literária Internacional de Paraty, fãs paravam a autora de Outros Cantos (Alfaguara), ganhador do Prêmio Casa de las Américas neste ano, em busca de selfies. Mas ela já se distanciou do exótico (“uma velhota, desconhecida, que ganhou de Chico Buarque a disputa pelo Jabuti”, lembra) e se consolida como nome forte do romance brasileiro.

Na sua autodescrição, é uma anarquista – embora nunca saibamos se está falando sério. Valéria adora uma mentirinha, um exagerozinho, uma tirada hilária para entreter a plateia. “Memória e ficção às vezes se misturam”, explica ela sobre os casos que conta a seu respeito.

MVal (é assim que assina e-mails), mestre em sociologia que formou leitores no sertão pernambucano e no brejo paraibano, reunirá entre 12 e 15 de outubro 500 escritoras em João Pessoa, onde mora. O Mulherio das Letras, entre várias pautas, vai lutar por igualdade de oportunidade na publicação de livros. “Nunca houve um encontro assim, para além da cota magra, de 10%, que as feiras literárias nos reservam”, declara ela, que já pôs no mercado 17 títulos, a maioria infantojuvenis. Nesta entrevista, a irmã, da Congregação de Nossa Senhora – Cônegas de Santo Agostinho, fala do novo livro, de inúmeras paixões e revela por que sua escrita é tão criativa.

O que trata em Carta à Rainha Louca, que está escrevendo?
Achei um documento no Arquivo Histórico Ultramarino, em Lisboa, escrito em 1754 por uma mulher – coisa rara – que se defendia, de maneira irônica, da acusação de criar um convento clandestino em Minas Gerais. Maria Isabel era investigada por ordenada da Coroa Portuguesa. No Brasil, existiam as esposas dos sesmeiros, de donos de engenho, escravas e índias. Não havia lugar para brancas pobres: elas viravam rameiras ou freiras. Sem dotes, quem casaria com ela? Então, criei a Maria Isabel das Virgens, que faz do convento uma comunidade de mulheres que precisam sobreviver. Ela é presa, levada a Olinda, onde espera a nau que a conduzirá ao julgamento em Lisboa. Ali a esquecem, ela vai endoidando e decide mandar uma carta para a rainha de Portugal, imaginando que, sendo mulher, ela a entenderia.

Por que sempre diz que não planejou ser escritora?
Jornalistas perguntam a razão de ter decidido escrever aos 59 anos. Ora, não decidi nada. Nem fiz o primeiro livro nessa idade. Em missão de educadora na zona rural nordestina (nos anos 1970), aos domingos eu ficava só, na minha casinha de taipa com lampião, escrevendo. Dava os textos de presente aos amigos. Um deles, o Frei Betto (frade dominicano e escritor), entregou a uma editora, que, anos depois, me ligou pedindo todos os originais.

Você faz o público rir quando diz coisas como: “Sou meio mouca, meio cega e meio fraca do juízo”
É engraçado, mas verdadeiro. No tempo em que não tinha artrose e esbanjava dois olhos, escrever era só prazer. O olho ruim, perdi em um infarto na veia. Não vejo nada. E no bom tenho catarata. A audição sempre foi baixa, por isso falo tão alto. Muitos acham que é puro entusiasmo. E fraca do juízo, porque junto muitas coisas na cabeça e vivo um turbilhão de decisões e afazeres… Não estou escrevendo no volume que preciso. Até pensei: “Seria bom que me prendesse. Na cadeia haveria tempo para terminar meu livro”.

Por que seria presa, Valéria?
Meu último livro tem o selo da Petrobras. Ganhei patrocínio deles. Então, a Lava-Jato podia me acusar de ter sido beneficiada indevidamente (risos).

Em presídios, você ensina a ler. No passado, ia visitar amigos detidos. Reza a lenda que adotava meios pouco ortodoxos para libertá-los…
Era ditadura. Um pequeno sindicalista rural que organizava os outros ia preso. Eu mostrava meu RG ao delegado e dizia: “O senhor pode ler em voz alta o meu nome? Já ouviu falar em Elizeu Resende (ministro dos Transportes do general Figueiredo). É da minha família. Imagina o que vai acontecer se não soltarem o meu amigo…” Usei o falso parentesco até para desbancar o dono de uma usina que, com capangas, apontou sua arma. E eu: “Conhece Eliseu Resende?” Vivi anos nesse meio. Sei o que sofreu Dorothy Stang (missionária assassinada em 2005 por fazendeiros incomodados com a defesa que ela fazia de pequenos produtores no Pará). Ela já tinha que estar canonizada faz tempo. Mártires assim não canonizam. O processo é muito bobo: não considera o testemunho evangélico que a pessoa dá, mas o milagre. Ora, então devemos que inventar um milagre para Dorothy?

E o passaporte do Vaticano. Você ainda tem?
Tenho. Em 1972, eu voltava da Argélia para a Itália, quando entrou em greve a Alitalia – que oficialmente transportava a valise diplomática com documentos da igreja de lá para o Vaticano. Souberam que uma freira estava no aeroporto indo para Roma; me pediram para levar. O secretário da nunciatura algemou a malinha no meu pulso para não ser roubada nem aberta. Lá fui eu, portanto uma carta atestando que estava em missão e solicitando passe livre. No Vaticano, não me pediram de volta a carta, e a grampeei no passaporte. Virei uma santa pessoa diplomática do Vaticano, entrava até nos Estados Unidos sem visto.

Como nasceu o Mulherio das Letras?
No bar, à noite, durante a Flip de 2016. Não sabíamos quem eram as escritoras no Brasil e o produziam. As editoras são masculinas, publicam mais os homens.Só na edição desteano, por coragem da Josélia Aguiar (curadora), a Flip convidou número igual de homens e mulheres. Também me incomoda o Brasil achar que literatura se faz apenas na Vila Madalena e em Ipanema. Mulheres fazem ótima literatura em tudo que é canto. Decidimos nos juntar. Em março passado, criamos o grupo no Facebook e, em três meses éramos 5 mil escritoras, ilustradoras, multiartistas… Vamos nos ver em João Pessoa (programação ao lado), na linha da anarquia, mesmo: não há dinheiro, patrocínio, cachê. Todas terão direito ao microfone e se hospedarão em hotéis onde pedimos descontos. Ao todo seremos 500.

Em Quarenta Dias, quando Alice, aposentada, acha que viverá só para si, mas é obrigada a se mudar de cidade para ajudar a filha, que teria um bebê. As mulheres são suas protagonistas, sempre…
Elas estão sustentando o Brasil, segurando todas as barras e sofrendo demais. Temos de criar alternativas. As mulheres precisam ajudar as mulheres.

No país, há muitos casso de gravidez precoce, violência doméstica, abusos sexuais, aborto. Como vê isso?
As mulheres reformularam sua imagem e os homens não. Eles necessitam da submissão delas e isso que não funciona mais. Em crise, muitos agem com violência. O aborto só se faz em caso de saúde ou gravidez involuntária. Como é possível, hoje, existir gravidez indesejada com tantos meios para evitar? O amor livre nunca existiu. Passou-se do sexo proibido ao obrigatório. Meninas de 14 anos me perguntam o que há de errado com elas, porque não têm vontade de ficar com qualquer menino. Há uma pressão, ela sente vergonha de dizer que é virgem. Vivemos num mundo onde tudo se desarrumou. Inclusive politicamente. Temos que demolir, se quisermos reformar a casa. Ao pôr abaixo as paredes ruins, teremos a liberdade de construir coisas novas.

Em algum momento fez falta o amor romântico?
É fácil olhar para um monte de gente e distinguir a única pessoa que oferece perigo. A única pessoa por quem eu me apaixonaria. Antes que isso aconteça, me afasto. Sou também exigente. Na adolescência, começava a namorar; o menino era bacana, mas raso não tinha lido nada. Meus namoros nunca duravam. Havia três possibilidades: casar, ficar para titia ou ir para o convento. A vida de freira (da congregação de Nossa Senhora, Cônegas de Santo Agostinho) e a Teologia da Libertação me fizeram rodar o mundo; e experimentar aventuras. A vida pacata de dona de casa não me contentaria.

 

 

 

 

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Preliminares rejeitadas Ao analisar o caso, a relatora, desembargadora Lucimeire Maria da Silva, afastou inicialmente a alegação de inépcia da inicial. Segundo a magistrada, a petição apresentou de forma lógica a causa de pedir e os fatos e fundamentos jurídicos necessários ao exercício do contraditório. Também rejeitou a alegação de cerceamento de defesa. O voto destacou que os réus participaram virtualmente da audiência e tiveram oportunidade de prestar depoimento pessoal, mas a produção da prova foi inviabilizada por eles próprios. Conforme registrado na ata, os réus foram instados três vezes a abrir a câmera. Quando um deles finalmente o fez, constatou-se que ambos estavam no mesmo ambiente. Mesmo após duas determinações para que permanecessem separados, de modo a preservar a incomunicabilidade entre os depoentes, eles não atenderam à ordem. Provas da espionagem No mérito, a desembargadora afastou a alegação de insuficiência de provas. Além da perícia realizada no aparelho, destacou os depoimentos que descreveram como ocorreu a instalação do programa e a forma de acesso às informações. Conforme ressaltou, tanto a vítima quanto os informantes afirmaram que os réus chegaram a mostrar à mulher informações e imagens obtidas pelo aplicativo, em uma espécie de intimidação. Para a relatora, o conjunto probatório demonstrou suficientemente que a mulher foi submetida a reiterada perseguição pelo ex-companheiro e pelo filho, que instalaram o aplicativo para monitorar suas ligações, localização e outros dados pessoais. Violação da intimidade Ao analisar a responsabilidade civil, a magistrada considerou que o monitoramento clandestino representou ingerência abusiva na esfera privada da mulher e violou direitos da personalidade, especialmente a intimidade, a vida privada e a liberdade individual. Segundo o voto, a instalação de mecanismo de vigilância sem consentimento caracterizou ato ilícito, nos termos do art. 186 do CC. Comprovados também o dano e o nexo causal, incidiu o dever de indenizar previsto no art. 927. A relatora o dano moral in re ipsa. De acordo com ela, a gravidade da violação à esfera íntima torna desnecessária a demonstração específica do prejuízo. Conforme afirmou, a vigilância constante, mediante interceptação de dados pessoais e monitoramento da rotina, ultrapassou mero dissabor e atingiu a dignidade, a autonomia e a segurança emocional da vítima. Violência doméstica Outro ponto destacado foi o enquadramento da conduta na lei Maria da Penha. Para a magistrada, o vínculo familiar não reduz a gravidade dos fatos, ao contrário, aumenta a reprovabilidade do comportamento, diante dos deveres de lealdade, respeito e proteção esperados nas relações familiares. A relatora observou que a instalação do aplicativo para acompanhar comunicações, deslocamentos e a rotina da mulher constitui forma de controle abusivo e invasivo no âmbito familiar. Assim, enquadrou a prática nas modalidades de violência psicológica e moral previstas no art. 7º da lei 11.340/06. Segundo o voto, a vigilância clandestina submeteu a vítima a situação de permanente controle e violação de sua esfera íntima, afetando diretamente sua liberdade e integridade psíquica. “A utilização de mecanismos tecnológicos para vigilância não autorizada intensifica a reprovabilidade do comportamento, evidenciando dolo e deliberada intenção de controle”, registrou. Indenização majorada Ao examinar o recurso da vítima, a relatora concluiu que os R$ 5 mil fixados contra cada réu eram insuficientes diante das circunstâncias do caso. Segundo o voto, a definição do dano moral deve considerar a situação das partes, a extensão do dano e a gravidade da culpa, além de observar os princípios da razoabilidade e proporcionalidade, sem permitir enriquecimento sem causa nem reduzir a condenação a montante incapaz de cumprir sua função preventiva e corretiva. No caso, a desembargadora classificou a conduta dos réus como “extremamente reprovável” e destacou o real constrangimento imposto à vítima. Assim, fixou a reparação em R$ 6 mil por réu, totalizando R$ 12 mil, valor considerado mais adequado para compensar a violação aos direitos da personalidade e desestimular novos atos ilícitos. O entendimento foi acompanhado pelo colegiado. Processo: 0710401-64.2022.8.07.0005 Epa! Vimos que você copiou o texto. Sem problemas, desde que cite o link: https://www.migalhas.com.br/quentes/462340/filho-e-ex-indenizarao-por-espionar-celular-de-mulher-apos-termino

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