sem título

Mulheres são responsáveis pela renda familiar em quase metade das casas

Saiu no site CORREIO BRAZILIENSE

 

Veja publicação no site original:  Mulheres são responsáveis pela renda familiar em quase metade das casas

.

Levantamento feito pela consultoria IDados com base em números do IBGE revela que a soma de mulheres responsáveis financeiramente pela renda familiar é crescente a cada ano e chega a 34,4 milhões atualmente

.

Por Marina Barbosa e André Phelipe*

.

Na casa da servidora e Anna Paula (nome fictício) não faz muita diferença quem paga as contas. Há oito anos, ela e o marido dividem as obrigações mensais de acordo com as possibilidades de cada um, já que, ao contrário dela, que é servidora pública e tem um salário fixo, ele é autônomo e nunca sabe quanto vai receber no fim do mês. Mas, nos últimos  quatro meses, definitivamente é ela quem cuida da maior parte dos custos da casa e da filha de sete anos, pois o cônjuge se acidentou e precisou entrar de licença médica.

.

E Anna Paula não é a única que assumiu o “comando” de casa recentemente. Levantamento da consultoria IDados, realizado com base nos números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revela que o número de mulheres que são responsáveis financeiramente pelos domicílios vem crescendo a cada ano e já chega a 34,4 milhões. Isso significa que quase a metade das casas brasileiras são chefiadas por mulheres — situação bem diferente da que era vista alguns anos atrás.

.

Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o percentual de domicílios brasileiros comandados por mulheres saltou de 25%, em 1995, para 45% em 2018, devido, principalmente, ao crescimento da participação feminina no mercado de trabalho. “As mulheres ocupam um espaço cada vez maior do mercado de trabalho e vêm alcançando maiores remunerações, apesar de a desigualdade salarial entre gêneros ainda persistir. Por isso, contribuem cada vez mais com a renda das famílias”, explica a pesquisadora do Ipea, Luana Simões.

.

.

Crise econômica

Esse movimento, porém, se acentuou nos últimos anos, depois da crise econômica. Só entre 2014 e 2019, quase 10 milhões de mulheres assumiram o posto de gestora da casa, enquanto 2,8 milhões de homens perderam essa posição no mesmo período. “A participação feminina entre os chefes de domicílio evolui desde 2012, ao passo que a masculina cai. Mas cresceu especialmente durante a crise, porque, na recessão, os homens sofreram mais com a perda de emprego e com a redução salarial, fazendo com que mais mulheres se tornassem as responsáveis por prover a renda de casa”, explica a pesquisadora da consultoria IDados, Ana Tereza Pires.

.

Com isso, também houve uma mudança significativa no perfil das mulheres que são chefes de família. Luana lembra que, alguns anos atrás, a maior parte das mulheres que era chefe de domicílio estava nessa posição basicamente porque haviam se separado do marido e, por isso, foram forçadas a assumir o comando da casa. Hoje, quase metade dessas mulheres é chefe de família mesmo vivendo com o companheiro, como acontece com Anna Paula.

.

Segundo o Ipea, 43% das mulheres que são chefes de domicílio hoje no Brasil vivem em casal — sendo que 30% têm filhos e 13% não. Já o restante das 34,4 milhões das responsáveis pelo lar se dividem entre mulheres solteiras com filho (32%), mulheres que vivem sozinhas (18%) e mulheres que dividem a casa com amigos ou parentes (7%). “Elas não estão mais ali porque foram abandonadas. É um movimento que faz parte do processo de empoderamento feminino e deixa as mulheres cada vez menos vulneráveis socialmente”, frisa Ana Tereza.

.

Até quem assumiu a posição de chefe do lar depois da separação concorda que o papel de “coitadinha”, que cabia às mulheres que precisavam se virar por conta própria depois de desfazer a união conjugal, ficou para trás há um bom tempo. A auxiliar de limpeza Maria Lúcia da Silva, de 37 anos, é um exemplo disso. Para ela, que está no comando da casa há dois anos, desde que se separou do marido que não a deixava trabalhar, o crescimento das mulheres no comando do lar também reflete a posição de independência que elas querem, cada vez mais, assumir na sociedade.

.

“Ter essa liberdade, de poder fazer e comprar o que quiser, sem pedir para o esposo, é gratificante”, afirmou. “As coisas mudaram. Hoje em dia, a mulher tem que ser dona de si e ter as mesmas oportunidades que eles possuem”, concorda a microempresária Antônia Barbosa, de 53 anos, que mantém a casa, os dois filhos e o neto desde que se divorciou, há 12 anos. “Administrar um lar me ensinou a viver, colocou um objetivo na minha vida, me tornou mais forte. Antigamente, as pessoas faziam coisas por mim. Agora, eu corro atrás daquilo que eu quero”, acrescenta Antônia, que educa o neto com o pensamento de que homens e mulheres são iguais.

.

A professora Ruth Pena, de 40 anos, tenta transmitir o mesmo ensinamento ao filho, Leandro, que hoje, aos 20 anos, não vê problema na situação em que a mulher é a chefe do lar seguir crescendo no Brasil. “Minha mãe é o maior exemplo que eu podia ter de força e empenho. Mulher guerreira, esforçada, ela nunca deixou faltar nada para mim ou para minha irmã”, conta Leandro.

.

.

Dupla jornada
Porém, nem tudo são flores. É que, além de enfrentarem uma dupla jornada cada vez maior para pagar as contas e cumprir os afazeres de casa, boa parte dessas mulheres ainda está nas classes mais baixas da população e ganha menos que os homens. Por isso, boa parte delas tem uma renda mensal inferior à de outras famílias. “Essas mulheres estão em todas as classes sociais, mas a maior parte é de negras que estão nas faixas de renda mais baixas”, admite Luana, do Ipea.

.

Mesmo com esses desafios, contudo, as especialistas apostam que o número de mulheres chefes de domicílio vai continuar crescendo no Brasil. Afinal, ela estão mais empoderadas e, por isso, cada vez mais dispostas a assumir as despesas de casa e a formar novos arranjos familiares — muitas têm até adiado ou desistido da maternidade para, entre outras coisas, focar na carreira profissional.

.

E, se depender de qualificação, elas têm tudo para ocupar cada vez mais espaços no mercado de trabalho — o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) explica que, hoje, as mulheres têm, em média, oito anos de estudo no Brasil, enquanto os homens ficam nos 7,7 anos. “Resta saber como o mercado de trabalho atual, que está se recuperando da crise, apresenta salários cada vez menores e um número crescente de trabalhadores informais, vai lidar com essa situação”, pondera Luana.

.

*Estagiário sob a supervisão de Odail Figueiredo

.

.

10 milhões

de mulheres assumiram a chefia da família, entre 2014 e 2019, enquanto 2,8 milhões de homens perderam essa posição no mesmo período.

.

Desemprego elevado

Apesar de a taxa de desocupação ter registrado uma redução de 0,8 ponto percentual no quarto trimestre de 2019 em relação ao intervalo entre julho e setembro do ano passado, para 11%. Essa taxa de desembprego é mais alta entre as mulheres, de 13,1%, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Já o desmprego entre os homens ficou em 9,2% nos últimos três meses de 2019.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

 

Compartilhe nas suas redes sociais!
Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Google+Pin on PinterestEmail this to someone

Deixe uma resposta

Seu e-mail não será divulgado.