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Violência obstétrica é um tipo de violência sexual, reconhece MPF

Saiu no site REVISTA CRESCER

 

Veja publicação original: Violência obstétrica é um tipo de violência sexual, reconhece MPF

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Foi o que disse Sérgio Lauria Ferreira, representante do Ministério Público Federal, durante audiência que discutiu a redução das cesáreas no Brasil. Desembargadora constituiu grupo de trabalho para apresentar propostas para o parto humanizado e o respeito às mães e ao bebê

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Por Aline Dini

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Os altos índices de cesariana no Brasil motivaram o Ministério Público Federal (MPF) a impor algumas regras para incentivar o parto normal e humanizado. O próprio Poder Judiciário já havia emitido uma sentença que determinava, entre outras providências, que a remuneração do parto normal fosse, no mínimo, três vezes superior à da cesárea, como forma de estimular médicos e hospitais da rede de saúde privada a mudarem o cenário. A Agência Nacional de Saúde (ANS), no entanto, rebateu a sentença.

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Diante do impasse, a desembargadora federal Consuelo Yoshida vem promovendo audiências públicas para discutir o assunto e fazer valer o acesso da mulher e da criança a um nascimento respeitoso. Durante a primeira audiência, realizada no dia no dia 23 de outubro deste ano, entidades de saúde, médicos e ativistas do parto humanizado se reuniram para tentar chegar a um acordo. CRESCER acompanhou o debate, mas, na ocasião, não houve consenso sobre o tema.

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Na última audiência, realizada nesta terça-feira (4), no Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF3), o assunto evoluiu. Já na abertura da reunião, o Procurador Regional da República, Sérgio Lauria Ferreira, representante do MPF, reconheceu a violência obstétrica como um tipo de violência sexual contra a mulher. O contexto mundial de combate à violência sexual e a igualdade de gênero como um dos objetivos da ONU também foram colocados em pauta durante a audiência. Anne Rammi, criadora do siteMamatraca, tem uma longa história na luta pelo fim da violência contra a mulher. Ela esteve presente nas duas audiências e, para ela, esta última representou um avanço. “Visualizamos a cirurgia cesárea desenfreada como um tipo de violência, mas, por trás disso tudo, está a retaliação aos direitos da mulher e ao controle reprodutivo dela. Pedir um parto humanizado, além dos benefícios para a saúde física e emocional de mãe e filho, é muito mais do que um assunto que diz respeito à medicina. É falar sobre direitos humanos”, disse.

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Para Braulio Zorzella, médico obstetra na Caza da Vila (SP), o interesse da justiça pela humanização do parto, protagosismo da mulher e respeito à ela e ao bebê na hora de parir é um marco histórico no Brasil “Considero esse o segundo marco em relação à frear essa epidemia de cesáreas que temos no Brasil. Porque o primeiro foi quando as mulheres se reuniram em movimentos para mostrar a importância do respeito na hora do parto, o que culminou com filmes e documentários sobre o assunto. Quando a justiça, através do MPF aciona a ANS, que cuida de 25% dos brasileiros e é o grande campeão das cesáreas no páís, a impressão que tenho é que estamos evoluindo nesse sentido”, comentou em entrevista à Crescer.

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A procuradora da República Ana Carolina Previtalli reforça que as medidas sentenciadas são de grande importância, e a posição do MPF sempre foi no sentido de manter a sentença. Mas outras medidas ainda podem surgir por conta desse movimento, no sentido de envolver mais as entidades representativas de médicos, enfermeiros, e da sociedade. “E isso pode trazer sim mudanças satisfatótias, com a intermediação do STF. Espero que a ANS colabore no sentido de adotar medidas efetivas para reduzir mesmo as taxas de cesariana, apoiando, de fato, as discusões que estão sendo trazidas. E que o Conselho Federal de Medicina se conscientize para que os médicos reduzam a taxa”, diz.

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Novas propostas
Outra evolução apresentada pela desembargadora Consuelo foi a constituição de um grupo de trabalho formado por: Ministério Público Federal, Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Agência Nacional de Saúde Suplementar, projeto Sentidos do Nascer, projeto ApiceOn, Parto do Princípio, Conselho Federal de Medicina (CFM) e Associação de Doulas do Estado de São Paulo. Para Braulio Zorzella, que é um dos membros do grupo, o surgimento dessa equipe “vai ajudar o MPF a conseguir acionar a ANS da forma mais correta. Cabe a nós, que somos técnicos no assunto, colaborar na elaboraração de uma proposta para entregar à ANS. É uma força tarefa conjunta com quem está trabalhando para a melhoria dos partos”, afirmou. O grupo tem até o dia 12 de fevereiro de 2019, data da próxima audiência, para apresentar as seguintes propostas:

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1. Indicadores suficientes e adequados, a serem adotados pelas maternidades tendo como referência os indicadores da Rede Cegonha, do Programa Parto Adequado e do Projeto Apice-On do Ministério da Saúde, entre outras atribuições;

2. Estabelecimento de metas e prazos para o cumprimento desses indicadores propostos;

3. Definição dos integrantes das equipes multidisciplinares para a atenção obstétrica e neonatal;

4. Promoção de atividades de educação continuada na área de atenção obstétrica e neonatal;

5. Introdução da exigência gradual do credenciamento, nas operadoras de plano de saúde com cobertura obstétrica e nas instituições de assistência ao parto, de médicos capacitados para assistência pré-natal, ao parto e nascimento, baseada em evidências;

6. Promoção de ações educativas e divulgação sobre os direitos das mulheres e bebês no parto e nascimento, bem como os benefícios do parto normal para as mulheres e crianças.

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De acordo com a desembargadora, a finalidade do conjunto de propostas é subsidiar a Agência Nacional de Saúde, o Conselho Federal de Medicina e a Anvisa a efetivarem medidas de regulação e indução da mudança de paradigma atual, que coloca o Brasil nos primeiros lugares entre os países com maiores taxas de cesariana no mundo.

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Entenda o caso
Em 2015 a Justiça Federal, atendendo a uma reivindicação do Ministério Público Federal,  determinou que a Agência Nacional de Saúde (ANS) interviesse, junto aos planos de saúde, a favor da redução do número de cesáreas. O argumento que foi empregado na sentença mostrava que a porcentagem de partos cirúrgicos era muito superior aos 15% preconizados pela Organização Mundial de Saúde– 27,5% no SUS e 79,7% no setor de saúde suplementar, na época. Ficou sentenciado então que algumas medidas deveriam ser adotadas para reduzir o número de cesáreas e incentivar o protagonismo da mulher na hora do parto, porém na prática, não houve avanços, além disso, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) rebateu a sentença. Diante do impasse, a desembargadora Consuelo Yoshida propôs as audiências públicas, a fim de conseguir avanços na redução do número de cesáreas.
Dentre as principais medidas que foram sentenciadas pela justiça em 2015 e deveriam ter sido adotadas estão:

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– Estabelecimento de remuneração três vezes maior para um parto normal do que para uma cesariana.
– Criação de notas de qualificação para operadoras e hospitais, seguindo o critério de adoção de práticas humanizadoras de nascimento e diminuição dos partos cirúrgicos.
– Determinar às operadoras e hospitais que possibilitem a atuação de enfermeiros obstétricos e obstetrizes no trabalho de parto e no próprio parto.
Outras conquistas anteriormente asseguradas pela Resolução 368 de 2015 –como o parágrafo que obriga a ANS a exigir que os planos privados forneçam informações sobre os percentuais de parto normal e cesariana dos obstetras e hospitais remunerados por elas — passam a ser definitivas, com respaldo jurídico. O descumprimento da decisão prevê multa diária de 10 mil reais.

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Brasil lidera ranking mundial de cesáreas
O Brasil ocupa o segundo lugar no ranking mundial de cesáreas, com 55% dos nascimentos via cirurgia. Os dados, divulgados recentemente em uma análise mundial publicada pelo jornal cientítico The Lancet, comprovam que a taxa do país está muito acima dos 10% a 15%  preconizados pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Na prática, isso significa mais riscos à mãe e ao bebê.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Transcrição A bióloga e advogada Bertha Lutz nasceu em 1894, filha da enfermeira Amy Fowler e do cientista Adolfo Lutz. Fez parte de seus estudos na Universidade de Sorbonne, em Paris e depois de formada atuou na área de botânica do Museu Nacional até 1964. Sempre participou em causas sociais envolvendo direitos das mulheres, sendo presidente da Federação Brasileira para o Progresso Feminino. Em sua homenagem, todos os anos o Senado entrega o Diploma Berta Lutz a personalidades que se destacam na defesa de direitos das mulheres e das questões de gênero. Em 2003, na primeira edição do prêmio, a então senadora Emília Fernandes, do Rio Grande do Sul, ressaltou o pioneirismo de Bertha em diversas áreas. Emília Fernandes – A mulher cidadã Bertha Lutz, advogada e bióloga que se diplomou em tempo no qual a mulher não tinha outra opção além de tornar-se dona de casa e gerar numerosa prole. Foi uma mulher muito à frente de seu tempo, um tempo de nefasta opressão que, além de negar acesso às instâncias formais de poder, reprimia de maneira terrível todas aquelas mulheres que tentassem romper as barreiras impostas por uma sociedade marcada por valores machistas. Bertha Lutz fez parte do grupo conhecido como sufragistas brasileiras que teve como conquista o voto feminino no país em 1932. Foi a segunda mulher a ser deputada federal no Brasil em 1936. Bertha ainda fez parte da delegação brasileira em 1945 que participou da construção da Carta das Nações Unidas. Ela faleceu em 16 de setembro de 1976.

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