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Violência doméstica: projeto criado em pandemia vê casos dobrarem

Mídia, Notícias, Notícias - 7 de abril de 2021

Tempo de leitura: 7min

Saiu no R7

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Com parcerias, Justiceiras, rede gratuita de acolhimento a mulheres, viu denúncias saltarem de 340 para 658 ao mês em 2021

projeto Justiceiras de acolhimento a mulheres vítimas de violência doméstica completou um ano e, em 2021, o número de denúncias saltou de uma média de 340 ao mês para 658 em março, com o início de novas parcerias. Durante a pandemia, ficar mais tempo em casa com o agressor tem sido cada dia mais desafiador. Segundo levantamento, 35% das atendidas moram com o suspeito. Em 51% dos casos, o agressor é o atual companheiro e em outros 48%, um ex-namorado ou marido.

“Tive um insight em março de 2020 e lembrei de todas aquelas mulheres que precisavam de ajuda. Quis criar um canal de denúncias e legitimá-las. Essas mulheres estão presas dentro de casa e não têm como denunciar, mas o que elas não podem é silenciar”, destaca a idealizadora do projeto, a promotora de Justiça Gabriela Manssur.

Em um ano, o Justiceiras registrou cerca de 4.500 atendimentos em todo o país. Foi criada uma rede de mulheres que lutam pelos direitos de outras mulheres de forma totalmente gratuita. A equipe é multidiscipilinar e tem mais de cinco mil voluntárias entre advogadas, médicas, psicólogas e assistentes sociais.

“O serviço é remoto, sigiloso e feito pelo WhatsApp. A vítima só preenche um formulário. É um pronto-socorro para mulheres que chegam, recebem acolhimento jurídico e psicológico. A resposta é em até 48 horas. Se for uma emergência, a recomendação é ligar 190 e chamar a polícia”, explica a advogada e liderança do Justiceiras, Luciana Terra.

Vanessa Alves do Nascimento, de 36 anos, foi uma das primeiras atendidas pelo projeto. Ela já estava em fuga do agressor quando decidiu preencher o formulário que descobriu nas redes sociais.

“Tudo que aconteceu comigo foi só depois do Justiceiras, como medida protetiva e acolhimento. Me estenderam a mão para um recomeço e salvaram minha vida. Elas me explicaram que eu tinha que ir para polícia e toda nova ameaça ou perseguição era comunicada ao Ministério Público. Eu printava tudo, imprimia e mandava e foi assim que conseguimos a prisão dele”, lembra.

Ela vivenciou calada quase um ano de violência doméstica por parte do marido e, por vergonha, escondeu até da família. Logo após a união, ele não permitia que ela trabalhasse, visitasse parentes e tinha ciúmes do filho mais velho dela, que tinha 9 anos. A situação ficou ainda pior quando ela engravidou das gêmeas e ele a acusava de não saber cuidar dos filhos.

“Já cogitava separação, mas ele ameaçava cortar a mangueira do gás e explodir a casa, pegava facas, falava que se a gente dormisse, todo mundo ia morrer. As agressões eram sutis, mais psicológicas e morais, não deixavam marcas, mas ele torceu meu braço e me enforcou”, revela Vanessa.

Parcerias dão visibilidade ao projeto. A violência contra mulher é uma pandemia que se agravou com a outra pandemia

LUCIANA TERRA, ADVOGADA DO JUSTICEIRAS

Sem privacidade, 32% das vítimas são vigiadas pelo celular. Mesmo depois da separação, perseguição e ameaças continuaram. Ela se viu obrigada a mudar de casa e cidade e ainda assim era monitorada pelo ex-marido. Na delegacia, foi desestimulada a registrar o boletim de ocorrência sob a alegação de que ela voltaria para o agressor.

Em uma das ocasiões, ela levou as filhas num encontro do Caps Álcool e Drogas (Centro de Atenção Psicossocial) para que ele pudesse vê-las e foi surpreendida: “Ele espremeu minha filha e perguntou se eu tava preparada para enterrar um filho. Falava que ia me encher de bala e, se não tivesse armado, que ia torcer meu pescoço”.

Em novembro de 2020, o agressor foi preso e afastado das filhas. Mesmo com crises de ansiedade, Vanessa tenta retomar a rotina com o apoio da família. “Tô mais tranquila porque nem 40% do que aconteceu comigo, outras conseguem aguentar. Me sinto privilegiada porque está sendo feita justiça. Não podemos ficar reféns, vou lutar pela minha liberdade. Tenho filhas mulheres que quero que tenham o relacionamento que quiserem”, enfatiza.

Vivendo com o inimigo

Das mulheres atendidas pelo Justiceiras, 45% nunca tinham procurado ajuda ou órgão público e quase 80% delas sofreram violência psicológica. Um dos entraves para a denúncia é a dependência financeira do agressor. Em 75% dos casos as vítimas ou estavam desempregadas,  viviam do mercado informal ou não possuíam renda fixa. Outra dependência é a emocional, ao receber ameaças contra os filhos.

A operadora de caixa de 31 anos, moradora de Sergipe, prefere não ser identificada. Em maio de 2019, ela foi vítima de uma tentativa de feminicídio quando voltava da igreja para casa. Foi baleada quatro vezes, ficou cinco dias na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) e passou por cirurgia de emergência.

“Sou um milagre de Deus. Não foi ele quem disparou. Ele pagou um homem, um funcionário do pai dele pra fazer isso. Mas foram muitas agressões psicológicas e físicas em 12 anos de relacionamento. Ele me empurrava na parede, batia minha cabeça. Quando ia pro hospital, eu mentia e dizia que tinha caído e ele falava que não ia acontecer mais. Ele é manipulador”, ressalta.

Ela vive hoje com duas balas alojadas no corpo: uma na virilha e outra atrás do rim. Teve de reaprender a andar e fez três meses de terapia. Mudou de estado e tenta  se reerguer com ajuda da mãe e da irmã.

Um dos medos que ela tinha era perder a filha. Desde que nasceu, ele ameaçava levar a criança em caso de divórcio e passou a agredi-la por besteira.

Segundo a vítima, o crime foi premeditado. Ele comprou passagens para o atirador e as câmeras comprovaram o vínculo dele com o ex-marido, por isso foi preso e ainda vai a júri popular. Após a separação, ela luta pela guarda da garota de 9 anos, levada por ele, e que vive aos cuidados da tia paterna.

“A Justiça é muito falha. Há um ano que não vejo minha filha, nem por vídeo. Já se passaram dois aniversários que estou longe dela. Tenho três cadernos que escrevo para ela. Minha filha não sabe da tentativa de feminicídio e me culpa porque falam que o pai tá preso por causa da mãe dela”, afirma emocionada.

Hoje ela tem uma medida protetiva contra ele e a família, e buscou ajuda no Justiceiras: “Tô em tratamento comigo mesma. O projeto me deu voz e me mostrou o caminho pra me fortalecer nessa luta, que é diária. A violência doméstica deixa a gente fragilizada, mas tenho uma visão diferenciada hoje. Antes eu pensava que tinha que manter a família, agora sei que a mulher tem que ser livre, estar bem, e ser aceita mesmo sem casamento”, conclui.

Após ser baleada na perna, vítima precisou passar por cirurgia e ficou cinco dias na UTI

Após ser baleada na perna, vítima precisou passar por cirurgia e ficou cinco dias na UTI

REPRODUÇÃO / ARQUIVO PESSOAL

Para a promotora Gabriela Manssur, o feminicídio pode ser evitado: “Nenhuma das mais de 4 mil mulheres atendidas foi vítima de feminicídio. Dá para evitar a morte violenta dessas mulheres com comprometimento e prioridade. A medida protetiva não pode ser um papel na mão, tem que ser fiscalizada, com investimento em tornozeleira eletrônica, botão do pânico e policiamento”.

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