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É possível estimar que pelo menos 55 novas mulheres sofrem ameaças e 23 novas vítimas são agredidas fisicamente por dia de partida
São Paulo – O futebol é indiscutivelmente o maior fenômeno cultural e identitário do Brasil. Contudo, longe da festa dos gramados e dos refletores das arenas esportivas, os lares brasileiros testemunham uma realidade alarmante.
A segunda edição do estudo “Futebol e Violência Contra a Mulher”, lançada em 2026, aponta que, em dias de partidas de futebol, a violência doméstica contra meninas e mulheres dispara de forma dramática no País.
A pesquisa, desenvolvida pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) com patrocínio do Magalu e parceria do IDP, analisou microdados de 2023 a 2025 em cinco capitais brasileiras: Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre. Os resultados revelam que, nos dias de jogos, os registros de ameaças contra mulheres crescem 27,4%, enquanto as ocorrências de lesão corporal dolosa sobem 28,8%.
Peso diário da violência
Para compreender a gravidade dessa situação, é preciso olhar para os números absolutos coletados ao longo dos três anos estudados nas cinco capitais analisadas: foram registradas 219.595 ameaças e 88.720 lesões corporais dolosas.
No cotidiano regular dessas cinco cidades, cerca de 200 mulheres são ameaçadas e outras 81 sofrem lesões corporais a cada dia. Em dias de jogo, essa média diária de sofrimento é severamente amplificada. É possível estimar que pelo menos 55 novas mulheres sofrem ameaças e 23 novas vítimas são agredidas fisicamente por dia de partida somente nessas cinco capitais, configurando um “terceiro tempo” marcado pelo medo dentro do próprio lar.
A pesquisadora Raquel Sousa, uma das integrantes da equipe técnica e de coordenação da pesquisa, explica que a comparação entre os dados atuais e a primeira edição do estudo – que cobriu o período de 2015 a 2018 – revela um agravamento e uma reconfiguração qualitativa dessas violências.
Antes, o maior número de ocorrências em dias de jogo era de ameaças. Hoje, vemos a partir dos dados que há um agravamento, porque o maior aumento proporcional passou a se concentrar nas lesões corporais“, pontua.
A constatação de Raquel Sousa é acompanhada pelo dado de que a probabilidade de uma mulher sofrer lesão corporal em dias de partida cresceu 8,1 pontos porcentuais em relação à pesquisa anterior. Para a pesquisadora, isso aponta para uma preocupante intensificação da passagem da violência verbal e simbólica para a agressão física consumada.
“O futebol em si não é a causa geradora da violência contra as mulheres. Em vez disso, ele atua como um catalisador de dinâmicas patriarcais e de masculinidades dominantes já existentes na sociedade”, acrescenta.
Ela elenca que elementos como a frustração com o resultado da partida, o consumo excessivo de álcool e o descontentamento geral funcionam como gatilhos situacionais que deságuam na violência doméstica.
Bets e a violência vicária
Uma das principais novidades e hipóteses explicativas levantadas pela pesquisadora nesta edição do estudo é o papel das apostas esportivas on-line. Como em grande parte das famílias brasileiras a mulher atua como a principal gestora financeira do lar, o endividamento decorrente de apostas frustradas introduz um severo fator de estresse e descontentamento no ambiente doméstico.
“Muitas vezes, o problema de torcer para um time pode ser ampliado por conta de um resultado negativo nas apostas. Há um descontentamento que perpassa o controle emocional e desencadeia a violência contra a companheira”, aponta Raquel Sousa.
Esse ambiente de instabilidade emocional e agressividade não afeta apenas as parceiras, mas estende-se frequentemente aos filhos, caracterizando o que a legislação e a pesquisadora classificam como violência vicária – quando o agressor atinge a mãe por meio do sofrimento dos filhos.
De acordo com Sousa, essa dinâmica ajuda a explicar por que a faixa etária das jovens de 15 a 29 anos é a mais vulnerável, apresentando um aumento alarmante de 44,4% nos registros de violência em dias de partidas. Essa grande amplitude de idade acaba por vitimizar, simultaneamente, mães e filhas jovens em um mesmo ambiente familiar.
Mulheres negras ainda sofrem mais
Outro ponto fundamental levantado pela pesquisadora refere-se à dinâmica racial do estudo. No cotidiano geral do País, as mulheres negras são as maiores vítimas de violência, representando 58,9% das ameaças e 59,7% das lesões corporais registradas.
Contudo, em dias de partidas, o incremento porcentual de boletins de ocorrência é significativamente maior entre mulheres brancas, um aumento de 30,9% para ameaças e 36,2% para lesões corporais, contra 14,6% e 23,2% para mulheres negras, respectivamente.
Raquel Sousa esclarece que isso não significa que mulheres negras sofram menos agressões em dias de jogos, mas sim que existem hipóteses explicativas estruturais para essa diferença:
- Desigualdade no tempo de lazer: mulheres negras possuem menor tempo livre e menor espaço de lazer compartilhado com seus companheiros devido à sobrecarga de trabalho doméstico e profissional, o que reduz a exposição ao agressor especificamente no momento da partida;
- Saturação e recorrência: como as mulheres negras estão mais expostas estruturalmente a trajetórias de agressão contínua em seu dia a dia, a violência sofrida em dias de jogo pode não ser interpretada como um evento excepcional que justifique uma nova denúncia;
- Barreiras institucionais: o racismo institucional e obstáculos materiais dificultam o acesso e desencorajam mulheres negras a buscarem o sistema de segurança pública para formalizar registros.
O que ainda falta
Raquel Sousa enfatiza que o futebol é ainda um “espaço em disputa” para as mulheres, sejam elas torcedoras, jogadoras profissionais, árbitras ou jornalistas, que constantemente enfrentam assédio e machismo estrutural.






