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REDE DE APOIO A MULHERES RASTREIA 33 CASOS DE ABUSO SEXUAL POR LÍDERES RELIGIOSOS E GURUS ESPIRITUAIS

Mídia - 21 de setembro de 2020

Tempo de leitura: 7min

Saiu no Site Ronda da Noticia.

 

Veja Matéria Completa. Prestes a completar seis meses, a rede voluntária “Justiceiras”, que oferece apoio a mulheres em todo o Brasil, recebeu durante a pandemia quase 2 mil denúncias de violência contra o público feminino. Destas, 33 são casos de abuso sexual cometido por líderes religiosos ou gurus espirituais.

Graças a esses relatos, o Ministério Público da Bahia (MPBA) deflagrou na última quinta (17) uma operação para prender o líder religioso Jair Tércio, de 63 anos, ex-grão-mestre de uma loça maçônica e desenvolvedor de uma doutrina pedagógica estudada em retiros espirituais. Ele é acusado de abusos sexuais e psicológicos que implicam pelo menos 21 mulheres que procuraram o órgão até o momento. Em alguns casos, porém, os crimes já prescreveram e não vão resultar em denúncia formal.

O projeto Justiceiras, criado no início da pandemia para prestar assistência a vítimas de violência doméstica que não poderiam sair de casa, atendeu 14 mulheres que integravam a seita de Jair Tércio. A primeira delas foi a pedagoga Tatiana Badaró, que relatou ao programa Fantástico ter sido abusada pelo líder espiritual por 12 anos, entre 2002 e 2014. Segundo ela, o guru se aproveitou de sua fragilidade quando estava grávida aos 16 anos de idade.

“Ele disse que precisava equilibrar minha energia. Na primeira noite, foi só isso. Na semana seguinte, passou a mão em mim dizendo que estava equilibrando meus chacras e, na seguinte, ele penetrou dizendo que precisava jogar a energia dele dentro de mim”, contou Tatiana ao Fantástico.

A pedagoga buscou ajuda ao descobrir que outras mulheres passaram pela mesma situação. Ela entrou em contato com a promotora de Justiça de São Paulo Gabriela Manssur, idealizadora da rede online de amparo multidisciplinar, que encaminhou a denúncia à Ouvidoria da Mulher, canal de comunicação do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) para violência contra o público feminino.

“As mulheres já tinham uma dificuldade muito grande de acessar o sistema de Justiça, com deslocamentos longos até delegacias da mulher, que muitas vezes estão sobrecarregadas ou não existem no local em que as mulheres sofrem violência. Muitas vezes elas não têm nem informação de quem procurar e acabam não denunciando. Há uma subnotificação por conta da falta de informação e da dificuldade de acesso ao sistema de justiça. Durante a pandemia, passou a existir outra demanda”, disse Manssur.

Por meio das Justiceiras, Tatiana e as demais denunciantes são acompanhadas por um grupo de profissionais voluntárias que se aproxima de 4 mil pessoas. Ao entrar em contato com a rede, todas as mulheres usufruem de psicólogas, advogadas, assistentes sociais e uma rede de acolhimento composta por mulheres que já vivenciaram experiências abusivas. Nas situações em que houver necessidade, também há suporte médico.

A promotora de Justiça Gabriela Manssur ajuda mulheres vítimas de violência doméstica Foto: Divulgação

AS JUSTICEIRAS

O projeto conta ainda com lideranças nacionais, experientes no combate à violência contra a mulher, e lideranças regionais, que articulam o acesso a serviços e políticas públicas no âmbito local. Recentemente, a rede firmou parceria com a iniciativa #MeTooBrasil, concebida pela advogada Marina Ganzarolli, com o intuito de acolher vítimas em modelo semelhante a um movimento desencadeado nos Estados Unidos a partir das denúncias de abuso em Hollywood,envolvendo o produtor Harvey Weinstein.

Desde sua criação em março, as Justiceiras atenderam 1.903 mulheres de 24 estados mais o Distrito Federal, segundo relatório monitorado até o último dia 14. São Paulo e Rio de Janeiro respondem por 65% dos casos. O levantamento identificou que oito em cada dez mulheres relataram violência conjugal, sendo que 40% moram com o agressor. Casos de abuso psicológico equivalem a 85%, enquanto os de abuso sexual são 15% — 33 deles praticados por líderes religiosos ou gurus espirituais.

De acordo com Manssur, que atuou nas oitivas da investigação contra o médium João de Deus, condenado a mais de 60 anos de prisão por abusos sexuais contra mulheres em Goiás, nesse tipo de ocorrência o comportamento é padrão.

  • “Esses casos em que as pessoas se valem da fé e da esperança de mulheres que estão em situação de vulnerabilidade, que estão fragilizadas por algum motivo — seja por doença, dependência financeira, violência ou questão espiritual –, com intimidação espiritual, com ameaças veladas para satisfação do seu prazer sexual, para mim são graves lesões aos direitos humanos, principalmente de meninas e mulheres. Há inclusive menores de idade que foram vítimas desse predador sexual (Jair Tércio)”, afirmou a promotora.
  • O guru espiritual Jair Tércio, ex-grão-mestre de loça maçônica Foto: Reprodução

    No caso de Tércio,  há uma particularidade observada pela idealizadora das Justiceiras: a intensidade com que os abusos se prolongavam. De acordo com o MP, há vítimas que sofreram assédios desde o início da adolescência até a maioridade.

    “Ele mantinha como se fosse relacionamentos amorosos com a vítima, fazendo com que elas acreditassem que aquilo fazia parte da cultura que era pregada por esse líder religioso. No caso do João de Deus, havia mulheres que foram duas, três ou quatro vezes abusadas ao longo do tempo, mas não havia esse vínculo íntimo de assédio. As mulheres se sentiam filhas ou namoradas do Jair Tércio. Com algumas, ele até manteve relacionamentos mais estáveis, abusando inclusive da filha dessa mulher dentro da própria casa”, explica Manssur.

    COMO DENUNCIAR

    As denúncias contra esses líderes devem culminar em mais ações dos órgãos competentes em breve. A Ouvidoria das Mulheres, que realizou o atendimento de cada uma das vítimas de Jair Tércio, deve submeter mais procedimentos contra outros suspeitos a unidades do MP.

    “Com a implementação de canais de atendimento via telefone, e-mail e WhatsApp, conseguimos propiciar às mulheres vítimas de violência um atendimento especializado, sendo capaz de prestar uma resposta ágil e célere no combate a tais demandas, num esforço conjunto de atuação com as Ouvidorias e outras unidades do Ministério Público, resultando em procedimentos investigatórios, promoção de prisões preventivas, entre outras medidas”, disse o conselheiro Oswaldo D’Albuquerque, ouvidor nacional do MP.

    O aumento da procura por atendimento tem resultado em mais registros de abusos. Em 2018, foram notificados mais de 66 mil casos de estupro no Brasil, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. As mulheres vítimas de violência podem buscar apoio por meio do site, do Instagram ou do WhasApp das Justiceiras — (11)  99639-1212.

    Também estão disponíveis canais de atendimento da Ouvidoria das Mulheres, pelo telefone (61) 3315-9476 ou pelo e-mail ouvidoriadasmulheres@cnmp.mp.br. Maiores esclarecimentos podem ser vistos no portal do órgão ou nas redes sociais.

    “Como promotora e mulher, entendo que o melhor caminho é a denúncia. A partir do momento que uma voz se levanta, outras se encorajam. Quando você quebra o silêncio e a justiça é feita, há uma diminuição do sofrimento dessa mulher, um resgate da auto-estima e uma força para continuar em frente. Só tenho a parabenizar quem, mesmo se colocando em situação de risco, tem coragem e confia no sistema de Justiça”, disse Manssur.

 

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