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Qual o papel da religião na violência doméstica?

Saiu no site AZMINA

 

Veja publicação original:  Qual o papel da religião na violência doméstica?

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Do acolhimento ao silenciamento, são muitos os papéis possíveis da fé diante da violência contra a mulher

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Por Camila da Silva

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“A mulher tem que lutar pelo casamento. É o diabo fazendo seu marido beber. É o diabo fazendo seu marido trair”, foi o que Adriana* ouviu do pastor da Igreja Universal que frequentava em um dos cultos semanais . E, depois disso, chegou a voltar com o companheiro, sofrendo uma série de outras agressões até que não aguentou mais e rompeu: com ele e a igreja.

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Mas o caminho do silenciamento não é o único possível dentro das religiões. Muitos grupos religiosos e igrejas entendem seu lugar como espaço de acolhimento e a influência que têm na vida das pessoas, e estão fazendo uso disso para apoiar as mulheres e combater a violência.

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É o caso do trabalho que a Iyalódê Marisa de Oya  realiza no centro de candomblé Ilê Asê Oyá Mesan Orun, na Vila Mariana. Ela conta que é comum que mulheres em situação de violência procurem a casa. “A primeira coisa que fazemos aqui é acolher e entender o que está acontecendo”. Depois do acolhimento, se necessário, ela encaminha essas mulheres para a assistência social.

Além do acolhimento, Marisa conta que há também um esforço de trabalhar com os homens. “Que tipo de educação esse homem está tendo para achar que ele tem o poder de bater, de humilhar e de diminuir uma mulher? O que a gente está fazendo de hoje em diante é para esses homens que estão vindo agora sejam parceiros”, explica.

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“A igreja é parte do problema”

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Não é só das lideranças religiosas que partem as iniciativas para encarar o problema. Fiéis também estão se organizando para discutir e agir em relação ao assunto.

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“A igreja é uma instituição social, como outras que formam a nossa sociedade. E portanto, ela faz parte do problema. Muitas vezes ela reproduz essa violência, ela perpetua essa violência”, diz a teóloga Valéria Vilhena, fundadora do grupo Evangélicas pela Igualdade de Gênero. Ela destaca o papel da simbologia religiosa, no retrato da mulher dentro das crenças, como parte dessa perpetuação.

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Valéria dedicou seu mestrado a estudar a violência doméstica entre mulheres evangélicas no Núcleo de Defesa e Convivência da Mulher Casa Sofia, centro de atendimento de mulheres vítimas de violência no Jardim Ângela, zona sul de São Paulo. Sua pesquisa mostrou que, naquela instituição, 40% das mulheres vítimas de violência eram evangélicas.

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“Se somos parte do problema, também podemos ser parte da solução. Só que a gente precisa entender, dialogar e admitir. Acho que isso também é uma questão: admitir que a violência contra as mulheres também permeia nossas comunidades de fé”, diz Valéria.

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O lugar da mulher na fé

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Como ela, Bruna de Carvalho, da ONG Católicas Pelo Direito de Decidir, organiza um grupo de mulheres religiosas, o Fé-ministas. No entanto, o grupo de Bruna é interreligioso. “A gente sentiu a necessidade de criar um grupo de mulheres que não se sentem acolhidas dentro das suas próprias religiões, que sofrem episódios de violência. Não só física, mas abuso moral dos pastores e padres”, conta.

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No grupo, que se reúne para conversar, acolher e também se posicionar politicamente dentro das comunidades, estão mulheres católicas, judias e umbandistas. “Na maioria das religiões, o papel da mulher é submissão, né? Colocam a mulher num lugar que não ajuda em nada a resolver o problema da violência doméstica, porque essa mulher se cala”, diz ela sobre a importância de que as mulheres tomem espaço dentro das religiões, se apropriem do discurso.

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“Todo mundo tem uma formação religiosa, de maneira geral, então é muito importante que as mulheres se percebam dentro da religião”.

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Mau uso da Bíblia

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Histórias como a de Adriana, que ouviu argumentos vindos da Bíblia como justificativa para a violência que sofria, não são raras. No entanto, feministas religiosas e até mesmo padres e pastores acreditam que isso é uma má interpretação do texto.

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“Infelizmente, falsos entendimentos da Bíblia são usados para acobertar a violência contra as mulheres. A proteção, a defesa e a promoção da mulher também precisam passar por um aprofundamento da religiosidade, vencendo toda forma de mascaramento da violência”, escreveu o padre Cleiton Viana da Silva, em um artigo sobre o papel da Igreja Católica no enfrentamento da violência doméstica.

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O artigo do padre é parte do livro Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher – Um Problema de Toda a Sociedade, lançado pela editora católica Paulinas em agosto de 2019.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Transcrição A bióloga e advogada Bertha Lutz nasceu em 1894, filha da enfermeira Amy Fowler e do cientista Adolfo Lutz. Fez parte de seus estudos na Universidade de Sorbonne, em Paris e depois de formada atuou na área de botânica do Museu Nacional até 1964. Sempre participou em causas sociais envolvendo direitos das mulheres, sendo presidente da Federação Brasileira para o Progresso Feminino. Em sua homenagem, todos os anos o Senado entrega o Diploma Berta Lutz a personalidades que se destacam na defesa de direitos das mulheres e das questões de gênero. Em 2003, na primeira edição do prêmio, a então senadora Emília Fernandes, do Rio Grande do Sul, ressaltou o pioneirismo de Bertha em diversas áreas. Emília Fernandes – A mulher cidadã Bertha Lutz, advogada e bióloga que se diplomou em tempo no qual a mulher não tinha outra opção além de tornar-se dona de casa e gerar numerosa prole. Foi uma mulher muito à frente de seu tempo, um tempo de nefasta opressão que, além de negar acesso às instâncias formais de poder, reprimia de maneira terrível todas aquelas mulheres que tentassem romper as barreiras impostas por uma sociedade marcada por valores machistas. Bertha Lutz fez parte do grupo conhecido como sufragistas brasileiras que teve como conquista o voto feminino no país em 1932. Foi a segunda mulher a ser deputada federal no Brasil em 1936. Bertha ainda fez parte da delegação brasileira em 1945 que participou da construção da Carta das Nações Unidas. Ela faleceu em 16 de setembro de 1976.

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