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Narcisismo ferido é causa dos feminicídios, diz estudo

Saiu no site O TEMPO

 

Veja publicação original:   Narcisismo ferido é causa dos feminicídios, diz estudo

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Fenômeno ocorre quando o homem percebe que a mulher, encarada como objeto que deve satisfazer seus anseios, não aceita essa ‘função’

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Homem não aceita o fim do relacionamento e mata jovem em Sete Lagoas. PM é assassinada a tiros dentro de casa no Amapá; companheiro é o principal suspeito. Homem é preso ao matar ex-mulher a tiros em São Paulo. Mulher é assassinada dentro da Câmara de Vereadores de Contagem. Os inúmeros casos de feminicídio que surgem no noticiário têm muito mais em comum do que a crueldade masculina – que, a cada hora, faz seis vítimas no mundo, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU).

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Após estudos de análise freudiana sobre o psiquismo dos sujeitos desses crimes, o narcisismo ferido foi apontado pelo psicólogo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Marcell Santos como a principal motivação para feminicídios. Santos explica que o narcisismo é uma construção psíquica: todos nós temos um ponto narcísico.

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O narcisismo é o amor de um indivíduo por si próprio ou por sua própria imagem, uma referência ao mito de Narciso. Mas o psicólogo explica que o narcisismo ferido ocorre quando a pessoa entende que aquele outro visto como objeto não o satisfaz da forma como gostaria.

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“Se eu faço eleição do outro para me satisfazer, eu só penso na minha própria satisfação. E quando esse outro me deixa, eu penso: ‘quem ele acha que é?’. Pensamos isso porque entendemos que o outro não é nossa metade (fere meu narcisismo), e o assassinato pode ser uma ‘saída’ para essa ferida narcísica”, diz ele.

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O autor do estudo afirma ainda que, apesar de o narcisismo ser um processo inconsciente, o homem tem a escolha de não praticar a violência, mas, ao ser amparado pela cultura machista, “torna-se mais fácil permanecer no processo do narcisismo ferido”.

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O especialista acrescenta: “É quando eu invisto toda a minha energia libidinal, toda a minha proposta de satisfação em outra pessoa, acreditando que essa outra pessoa é um objeto que existe para me complementar. A partir da minha relação com o outro, ele vai tapar os buracos da minha existência, os vazios e as angústias”, diz.

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Há três anos, foi promulgada a Lei do Feminicídio (nº 13.104), que torna crime hediondo o assassinato de mulheres em razão do gênero. Porém, os números ainda assustam. No Brasil, entre março de 2016 e o mesmo mês de 2017, foram ao menos oito casos de feminicídio por dia – o que coloca o país com a quinta maior taxa de assassinato de mulheres do mundo, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). No país, o número de assassinatos chega a 4,8 para cada 100 mil mulheres.

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A combinação do narcisismo, que se manifesta de forma diferente no homem, e a questão cultural do machismo interferem diretamente nesse comportamento violento. Segundo Santos, o narcisismo é diferente entre os gêneros, porque o homem tem um órgão que a mulher não tem e, a partir daí, a cultura dissemina que aqueles que possuem um órgão fálico se sobrepõem aos que não têm. Ou seja, aquele que não tem essa representação fálica é visto como um objeto. Por isso, Santos acredita que a cultura machista é usada como uma saída para essas angústias.

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“Quando o outro nega nosso desejo, ficamos angustiados. Então, eu uso do machismo. Um exemplo: um homem tenta ficar com uma mulher, ela não quer, e ele a chama de ‘vagabunda’. Então o machismo serve para tamponar a ‘angústia do macho’. Alguns vão usar dessa cultura para que a sua angústia não apareça”, frisa.

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Além disso, o psicólogo lembra que todos nós somos sujeitos agressivos, mas o que faz algumas pessoas cometerem crimes motivados por sentimentos como a paixão é ter essa agressão reprimida, chegando a aflorar em momentos de tensão. “Quando tem muita tensão, a porta do psiquismo se abre, e a agressão pode ser a primeira a aparecer. A questão não é ter mais ou menos narcisismo exacerbado, mas como ele lida com a ferida narcísica e com a angústia de ter sido negado”, diz.

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“Precisamos de políticas públicas para agressores”

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O estudo feito pelo psicólogo da UFMG Marcell Santos também buscou elucidar os artigos da Lei Maria da Penha e suas contribuições para a sociedade. Como conclusão da análise, ele identificou a necessidade de uma abordagem aos homens que agridem mulheres para além de uma punição penal, uma vez que esse tipo de comportamento agressivo vem do “campo do inconsciente”.

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Segundo Santos, é preciso escutar o inconsciente desses homens. “Não tem como resolver isso de uma hora para outra e de uma vez, mas sim cada caso. É preciso escutar cada agressor, escutar cada homem machista, fazer um trabalho cultural em cada um. A gente precisa fazer com que o sujeito ressignifique as questões culturais e de desejo”, afirma.

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O psicólogo acredita que só a punição por meio do direito penal não é a solução. “Uma das possibilidades é a política pública. Já temos políticas públicas para as mulheres e precisamos de mais, mas também precisamos de políticas públicas para agressores. Só puni-los ou colocá-los na cadeia a gente já está entendendo que não funciona”, diz.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Transcrição A bióloga e advogada Bertha Lutz nasceu em 1894, filha da enfermeira Amy Fowler e do cientista Adolfo Lutz. Fez parte de seus estudos na Universidade de Sorbonne, em Paris e depois de formada atuou na área de botânica do Museu Nacional até 1964. Sempre participou em causas sociais envolvendo direitos das mulheres, sendo presidente da Federação Brasileira para o Progresso Feminino. Em sua homenagem, todos os anos o Senado entrega o Diploma Berta Lutz a personalidades que se destacam na defesa de direitos das mulheres e das questões de gênero. Em 2003, na primeira edição do prêmio, a então senadora Emília Fernandes, do Rio Grande do Sul, ressaltou o pioneirismo de Bertha em diversas áreas. Emília Fernandes – A mulher cidadã Bertha Lutz, advogada e bióloga que se diplomou em tempo no qual a mulher não tinha outra opção além de tornar-se dona de casa e gerar numerosa prole. Foi uma mulher muito à frente de seu tempo, um tempo de nefasta opressão que, além de negar acesso às instâncias formais de poder, reprimia de maneira terrível todas aquelas mulheres que tentassem romper as barreiras impostas por uma sociedade marcada por valores machistas. Bertha Lutz fez parte do grupo conhecido como sufragistas brasileiras que teve como conquista o voto feminino no país em 1932. Foi a segunda mulher a ser deputada federal no Brasil em 1936. Bertha ainda fez parte da delegação brasileira em 1945 que participou da construção da Carta das Nações Unidas. Ela faleceu em 16 de setembro de 1976.

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