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Ministério Público da Bahia investiga denúncias feitas por 14 mulheres de abusos sexual e psicológico contra líder espiritual

Notícias - 3 de agosto de 2020

Tempo de leitura: 6min

Saiu no G1

Veja a publicação original: Ministério Público da Bahia investiga denúncias feitas por 14 mulheres de abusos sexual e psicológico contra líder espiritual

Segundo informações da promotora de Justiça, Gabriella Manssur, denunciantes participavam da seita de Jair Tércio Cunha Costa. Veja depoimentos de algumas dela.

O Ministério Público da Bahia (MP-BA) investiga denúncias de abusos sexual e psicológico contra um líder espiritual, Jair Tércio Cunha Costa, de 63 anos, ex-grão-mestre de uma loja maçônica na Bahia e desenvolvedor de uma doutrina pedagógica que é estudada em retiros espirituais promovidos por ele toda semana.

Segundo informações da promotora de Justiça, Gabriella Manssur, as denúncias de 14 mulheres, que participavam da seita de Jair Tércio, chegaram à Ouvidoria das Mulheres, órgão do Conselho Nacional do Ministério Público e ao Projeto Justiceiras.

“Desde quando uma mulher fala sobre um caso de abuso sexual que é cometido em série pelo mesmo agressor contra um grupo de mulheres que de alguma forma ele tem alguma superioridade, alguma hierarquia, outras mulheres falam”, disse.

Uma dessas 14 mulheres é a pedagoga Tatiana de Amorim Badaró, que namorava um jovem que frequentava os encontros. Ela conta que buscou amparo emocional na doutrina após ficar grávida.

“Ele se aproveitou de um momento de extrema fragilidade, eu grávida aos 16 anos. precisando de apoio. A partir daí eu perdi minha vida”, disse a pedagoga.

Tatiana de Amorim Badaró foi a primeira mulher a denunciar a opressão que diz ter sofrido de Jair Tércio, por 12 anos, entre 2002 e 2014.

“Eu não pude escolher profissão, ele determinou que era pedagogia. Eu fui obrigada a trabalhar na escola que ele fundou. Me afastei de minha mãe por ordem dele, tive que mudar celular, apagar e-mail e criar outro e-mail para que ninguém da minha vida tivesse contato comigo”, revelou.

A pedagoga afirma que o guru a ameaçava e dizia que ela sofreria retaliações espirituais se os casos fossem revelados.

“Todo tempo um terrorismo psicológico, uma ameaça de retaliação espiritual. Porque ele nunca diz que ele vai fazer, ele diz que a espiritualidade vai resolver, a ‘espiritualidade vai te cobrar, porque você teve a chance de viver perto de um iluminado e não aceitou'”, disse a pedagoga.

Ao Programa Fantástico, a denunciante contou que a rotina de estupro começou quando ela foi convidada a preparar uma palestra na casa de Jair Tércio.

“Ele disse que precisava equilibrar minha energia. Na primeira noite foi só isso, na semana seguinte passou a mão em mim dizendo que tava equilibrando meus chacras e na seguinte ele penetrou dizendo que precisava jogar a energia dele dentro de mim”, contou Tatiana.

Ao ser perguntada se o guru usava preservativos no momento dos abusos, ela disse que não. “Não usava porque ele dizia que nada daquilo era material”.

A pedagoga afirmou que os casos de abuso sexual fizeram com que ela se afastasse dos familiares e amigos.

“Eu me sentia péssima. Eu chegava em casa e vomitava e com isso eu me afastei mais ainda de todo mundo. Inclusive das pessoas da seita, porque ele fala que ninguém é confiável, que a gente só pode confiar nele”, contou Tatiana.

A denunciante disse também que Jair Tércio criava intrigas. Segundo Tatiana, ela entrou em depressão e engordou 20 kg após receber uma carta do guru, onde ele revelava que Vi, pai do filho dela, não sentia mais desejo pela companheira.

“Vi confidenciou a lute que não o satisfazias na cama”, dizia a carta.

A denúncia só foi feita ao grupo As Justiceiras após ela descobrir que outras mulheres passaram pela mesma situação. Tatiana afirmou que sofreu ameaças anônimas depois de fazer a denúncia.

Gabriella Manssur afirmou que a maior dificuldade nesses casos é de comprovar os atos. “Mas se nos conseguimos reunir vários depoimentos, há provas de que esses fatos ocorreram”.

“São vitimas mulheres, muitas meninas, e o que mais chama atenção é que esses abusos ocorrem por um longo período, se prolongam no tempo, fazendo com que elas entendam que aquilo faz parte de um ritual, de um tratamento”, disse a promotora.

Uma outra mulher, que preferiu não revelar a identidade, contou que o baiano tentou estuprá-la.

“E eu disse: ele não é um Deus, não é santo, é um homem e não é um homem bom, porque ele sabia do amor que eu tinha como um pai, muitas vezes eu não ouvia meu pai e ouvia ele”, disse.

Outra, que também não quis revelar a identidade, disse que não conseguiu se defender das ações. “Ele me tocou. Tocou nos meus seios, me masturbou, mandou me virar. Aquilo foi me deixando estática e ele foi fazendo, foi me molestando, foi mexendo em mim”, revelou.

“Não, eu não estou dizendo que elas estão mentindo. O que eu estou dizendo é que ele afirma que destes relacionamentos foram feitos de forma consensual”, contou o advogado de Jair Tércio.
A Grande Loja Maçônica da Bahia disse, em nota, que suspendeu os direitos maçônicos de Jair Tércio. “A maçonaria não tem responsabilidade nenhuma com relação aos atos dessa pessoa”.

Relação com menor de idade

Um boletim de ocorrência registrado em Salvador, consta que a voz do homem em um telefonema analisado pelo MP, é de Jair Tércio e a outra voz é de uma menor de idade.

No diálogo, a adolescente pergunta ao homem se ele tirou a virgindade dela. Ele nega e diz: “Comigo não é relação, não. Comigo foi carinho, foi amor”.

Na sequência, a adolescente diz que a mãe dela vai levá-la ao ginecologista e ele pede para que ela evitasse. “Você não vai. Esqueça isso, minha filha. Pelo amor de Deus, viu?”, disse.

Uma adolescente de 16 anos disse que se sentia suja por não obedecer as “regras” ditadas pelo guru.

“Eu sempre pensava que por eu não querer fazer aquelas coisas, por não querer seguir aquelas regras, eu era suja e errada. Isso complica a minha vida de forma absurda, eu sempre tenho complexo de culpa por causa disso”, conta.

O advogado de Jair Tércio afirma que o guru nega qualquer tipo de envolvimento em relação a menores ou estupro de vulneráveis.

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