HOME

Home

Homens predominam entre autores e vítimas de mortes violentas; mulheres respondem por 5% dos casos

Saiu no site FOLHA

Anuário mostra que homens são responsáveis por 91,1% das mortes violentas de vítimas masculinas e por 96,4% dos feminicídios com autoria identificada

Especialista alerta para erros na interpretação dos dados e afirma que violência letal tem dimensão de gênero

Os homens são predominantemente os autores e as vítimas mais frequentes das mortes violentas no Brasil, conforme dados divulgados nesta quinta-feira (23) pelo Fórum Brasileiro de Segurança. As mulheres, alvos crescentes de violência motivada por gênero, respondem por menos de 5% da autoria dos crimes.

Dos 40.775 registros de mortes violentas intencionais em 2025, cerca de 37 mil tiveram homens como vítimas, o equivalente a 90,8% do total. Entre os casos em que a autoria foi identificada, homens responderam por 91,1% das mortes violentas de vítimas do sexo masculino. Mulheres aparecem como autoras exclusivas em 4,8% dos registros, enquanto a autoria múltipla representa outros 4% dos casos.

A predominância masculina se repete quando a vítima é mulher. Nos feminicídios, assassinatos motivados por razões de gênero, 96,4% dos autores identificados eram homens. Mulheres responderam por 2,1% dos registros e outros 1,5% tiveram participação de mais de um agressor.

O Fórum chama atenção para o fato de que os dois conjuntos de dados (mortes violentas e feminicídios) não descrevem fenômenos idênticos: feminicídio é uma morte diretamente relacionada ao gênero e as mortes violentas gerais de vítimas homens reúnem distintas dinâmicas criminais. “Mas convergem em um ponto decisivo: matar, no Brasil, é majoritariamente uma prática exercida por homens.”

A discussão em torno do tema ganhou força quando o ator Juliano Cazarré disse em entrevista que “mais mulheres matam homens do que homens matam mulheres”, fazendo uma comparação em números absolutos que despreza o padrão geral e induz a erro de interpretação, conforme avaliação de especialistas.

Aplicado à estimativa de vítimas masculinas, o percentual de 4,8% de autoria feminina representaria cerca de 1.700 homens mortos por mulheres ao longo do ano. Já os 96% de autoria masculina de cerca de 1.500 feminicídios resultariam em um dado absoluto inferior. Essa comparação, no entanto, não leva em consideração a totalidade dos homicídios de mulheres (contando os não motivados por gênero), para os quais o Fórum não informou estimativa de autoria.

Para Juliana Brandão, coordenadora de Gênero e Raça do Fórum, os números precisam ser analisados em conjunto.

“A violência letal é um fenômeno marcadamente masculino, tanto no que se refere à autoria quanto, em grande parte dos homicídios, à vitimização. Isso não significa atribuir a violência a uma característica natural ou inevitável dos homens, nem sugerir que todos os homens sejam violentos”, afirma.

Segundo ela, os dados refletem normas sociais de gênero, processos de socialização, desigualdades raciais e territoriais e formas particulares de reconhecimento que, historicamente, produziram uma concentração masculina tanto no exercício quanto na experiência da violência.

“Quando a gente considera os dados entre os casos com autoria identificada, 96,4% tiveram autoria exclusivamente masculina. Os feminicídios com autoria feminina representam tão somente 2,1%, ou seja, matar mulheres é majoritariamente uma prática exercida por homens. O mais importante não é tratar esses casos como equivalentes aos feminicídios cometidos por homens, mas compreender a estrutura de gênero que os organiza”, diz.

A coordenadora destaca ainda que a legislação brasileira não exige que o autor do feminicídio seja homem. O enquadramento jurídico depende de a vítima ser mulher e de o crime decorrer de violência doméstica ou familiar, ou, ainda, de uma situação de menosprezo ou discriminação à condição feminina.

“Essa categoria continua sendo útil para mostrar que a violência letal contra as mulheres é, em regra, produzida por relações de poder que são historicamente desiguais, ainda que excepcionalmente possa haver uma autora mulher”, afirma.

O levantamento mostra ainda que homens e mulheres morrem em contextos bastante distintos. Enquanto os homicídios de homens estão associados predominantemente à violência urbana, disputas territoriais e mercados ilícitos, os feminicídios permanecem concentrados em ambientes domésticos e íntimos.

Em 2025, 62,5% dos feminicídios ocorreram dentro de residências. Já entre as demais mortes violentas, a via pública concentrou 42,6% dos registros. Áreas naturais e locais ermos responderam por 5,5% dos casos, enquanto estabelecimentos comerciais e financeiros representaram outros 4,6%.

O anuário alerta, porém, para dois equívocos recorrentes na interpretação dos dados. O primeiro é utilizar o fato de homens serem maioria entre as vítimas de homicídio como evidência de que a violência no país não possui dimensão de gênero. O segundo é presumir que a predominância masculina entre os autores seja suficiente para explicar, por si só, a violência letal.

“O gênero não é uma causa isolada, mas uma relação social que organiza expectativas, hierarquias e repertórios de ação”, afirma o documento. Segundo o texto, em determinados contextos, demonstrar dureza, domínio, disposição para o confronto e capacidade de controle pode funcionar como um recurso de reconhecimento masculino.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Compartilhe

Compartilhar no facebook
Facebook
Compartilhar no twitter
Twitter
Compartilhar no linkedin
LinkedIn
Últimas Notícias

Transcrição A bióloga e advogada Bertha Lutz nasceu em 1894, filha da enfermeira Amy Fowler e do cientista Adolfo Lutz. Fez parte de seus estudos na Universidade de Sorbonne, em Paris e depois de formada atuou na área de botânica do Museu Nacional até 1964. Sempre participou em causas sociais envolvendo direitos das mulheres, sendo presidente da Federação Brasileira para o Progresso Feminino. Em sua homenagem, todos os anos o Senado entrega o Diploma Berta Lutz a personalidades que se destacam na defesa de direitos das mulheres e das questões de gênero. Em 2003, na primeira edição do prêmio, a então senadora Emília Fernandes, do Rio Grande do Sul, ressaltou o pioneirismo de Bertha em diversas áreas. Emília Fernandes – A mulher cidadã Bertha Lutz, advogada e bióloga que se diplomou em tempo no qual a mulher não tinha outra opção além de tornar-se dona de casa e gerar numerosa prole. Foi uma mulher muito à frente de seu tempo, um tempo de nefasta opressão que, além de negar acesso às instâncias formais de poder, reprimia de maneira terrível todas aquelas mulheres que tentassem romper as barreiras impostas por uma sociedade marcada por valores machistas. Bertha Lutz fez parte do grupo conhecido como sufragistas brasileiras que teve como conquista o voto feminino no país em 1932. Foi a segunda mulher a ser deputada federal no Brasil em 1936. Bertha ainda fez parte da delegação brasileira em 1945 que participou da construção da Carta das Nações Unidas. Ela faleceu em 16 de setembro de 1976.

Categorias

HOME