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Ditadura da aceitação? Calma, desconstruir padrões de beleza leva tempo

Notícias - 31 de julho de 2020

Tempo de leitura: 5min

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Veja publicação original: Ditadura da aceitação? Calma, desconstruir padrões de beleza leva tempo.

Quando criança, Jessica amava se entregar aos brigadeiros, tão docinhos e aconchegantes, que delícia mandar um pra dentro e senti-lo tomar toda boca numa divertida e grudenta coreografia! Na adolescência, descobriu o Moça Fiesta, como era gostoso passar as tardes assistindo Sessão da Tarde dando vigorosas colheradas naquele creme macio… Alessandra sua amiga, numa noite foi dormir pequena, na manhã seguinte acordou com tamanho dobrado. Tinha espichado como diziam. Tentou se acostumar com o novo corpo, mas como era difícil! Vivia derrubando as coisas de modo estabanado e já não tinha mais muito controle de seus braços e pernas, que pareciam ter vida própria.

Em pouco tempo, Jessica passou a ser chamada de rolha de poço, bolo fofo, e Alessandra de jamanta, mocoronga e outros impropérios. Jessica adquiriu o hábito de se sentar com as mãos sobre a barriga e já não saía mais de casa sem uma blusa para amarrar na cintura. Assim se sentia mais protegida, menos gorda. Gorda, ela percebeu que era considerada gorda e que aquilo a diferenciava das outras pessoas de modo negativo, notou que as pessoas a julgavam, a olhavam com repugnância ou pena e se autorizavam a ofendê-la em função disto.

Mudou seu modo de vestir e adotou roupas amplas que pudessem esconder suas formas. Já Alessandra perdeu a naturalidade dos seus gestos. Para evitar derrubar ou quebrar coisas, tentava se mexer o mínimo possível. Tornou-se estática, dura. Transformou seu corpo numa espécie de armadura, precisava de proteção, afinal, não tinha graça e elegância nos gestos, características essenciais e tão valorizadas para uma menina.

Luana que também fazia parte do grupo de amigas, sempre foi uma menina vivaz e, engraçada, preenchia todo espaço com sua presença, seus olhos emanavam vida e alegria. Tinha uma vasta cabeleira crespa, que adorava chacoalhar. Até que um dia, um menino na escola a chamou de cabelo de bombril, os outros riram. Ela não. Arregalou os olhos e pensou “o que há de errado com meu cabelo?”.

Em casa sua vó vivia a lhe dizer para “arrumar”a gadelha. Lembrou do episódio da escola e concluiu que algo não ía bem. Aos poucos, começou a se sentir feia e fora do lugar, foi se fechando e seu brilho foi se apagando. Já não deixava mais a cabeleira solta, penteava-a com rigor de modo a controlá-la, prendendo-a para trás. Precisava esconder “aquilo”. Tentou domar a cabeleira com agressivos processos de alisamento, mas nunca ficava natural, nunca ficava como as outras garotas que eram consideradas bonitas.

As três foram crescendo e com elas os seus complexos. A adolescência só piorou tudo com as espinhas, aquele sangue que aparecia uma vez por mês escorrendo pelas pernas e todos os seus desejos e amores não correspondidos – certamente em função dos seus “defeitos”, pensavam elas.

Aos trancos e barrancos iniciaram seus encontros e desencontros amorosos. Jessica nutria uma paixão não correspondida pelo garoto mais popular da escola, Alessandra descobriu que gostava de meninas e não sabia muito bem como lidar com seus sentimentos, Luana preferiu se esconder nos livros. Decidiu que esse negócio de namoro não era para ela.

Os anos foram passando e, aos poucos, cada uma foi se descobrindo. Entendendo seu lugar, seus medos e desejos. Depois de muito fazer dietas mirabolantes e tomar remédios para emagrecer, Jessica iniciou o exercício de olhar seu corpo sem tanto julgamento e raiva, começou a olhá-lo com algum interesse e passou a respeitá-lo, a achar bonito.

Alessandra descobriu que a coordenação motora só se aperfeiçoava ao longo da adolescência, e que, algumas aulas de dança poderiam ajudá-la a soltar o corpo. Luana conheceu blogs que tratavam de cachos e aprendeu maneiras de usar seus cabelos sem precisar prendê-los ou alisá-los. As três já se sentem um pouco melhor dentro de seus corpos, mas ainda carregam cicatrizes e impressões do que viveram.

Assim, como num passe de mágica, agora o que liga é se aceitar. Daí você passou a sua vida toda se sentindo errada, inapropriada, fora do reino encantado da beleza e agora, tem que se aceitar. Cadê o botão da aceitação hein? Onde eu aperto pra me aceitar assim na hora? Tem um app pra facilitar? Um tutorial no Youtube ou algo assim? Como apagar do dia pra noite uma série de impressões e sentimentos acumulados por toda uma vida e caminhar na direção contrária?.

Para além dos fatores subjetivos e idiossincráticos de cada um, não podemos esquecer os não menos importantes fatores objetivos. Os fatores socioculturais, com quais imagens de beleza, correção e perfeição estas meninas cresceram? Como eram (eram ou são?) as musas/deusas/divas das novelas, filmes, revistas, propagandas, embalagens de cosmético, outdoors, calendários?.

A desconstrução de um ideal, de um padrão, especialmente tratando-se de um padrão massivo, é necessária, mas também lenta e gradual. É um dia de cada de cada vez e, muitas vezes, com alguns reveses. A aceitação não pode e não deve se transformar em mais uma imposição. Há que se deixar espaço para a elaboração, para a desconstrução, para a aceitação da aceitação.

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