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Da família que manda aguentar ao médico que não investiga: por que a dor das mulheres não é ouvida?

Saiu no site MARIE CLAIRE

Geração após geração, meninas aprendem que cólica faz parte de ser mulher. Pesquisas mostram que a normalização da dor feminina está nos consultórios, nos prontuários médicos e nas salas de emergência, com consequências que podem ser irreversíveis

Na noite de 27 de maio de 2026, enquanto deputados federais votavam o fim da escala 6×1 no plenário da Câmara, as torres do Congresso Nacional e de outros edifícios públicos na Praça dos Três Poderes, em Brasília (DF), estavam iluminadas com a frase “ser menina não deveria doer”. Naquele mesmo dia, a vestibulanda e estoquista Mariana Soares, de 22 anos, subiu ao microfone no Salão Nobre do prédio para contar o que acontece quando essa dor não é ouvida.

Soares menstruou aos 10 anos e, desde os 8, sente dores pélvicas. Levada pela mãe a um posto de saúde de Belo Horizonte (MG), ouviu da médica que o sintoma “era normal”. Aos 13 anos, ela chegava a sangrar 50 dias seguidos, o que desencadeou um quadro de anemia ferropriva. O diagnóstico de síndrome do ovário policístico veio aos 14, em uma consulta com uma ginecologista particular que um parente conseguiu com desconto.

Aos 17 anos, Soares acordou numa quarta-feira gritando de dor. Nem mesmo morfina na veia foi suficiente para aplacar seu sofrimento. Diagnosticada com infecção urinária na UPA, a jovem foi levada a uma clínica particular para um ultrassom de vias urinárias. Por iniciativa própria, a radiologista identificou uma massa no lugar do ovário esquerdo e alertou que poderia ser torção ovariana, uma emergência médica que exige cirurgia.

Ao chegar do hospital, no entanto, a ginecologista de plantão discordou do laudo. Foi somente no terceiro dia de sintoma agudo que a equipe de cirurgia geral pediu uma tomografia para investigar o achado do ultrassom. Quando o exame confirmou a torção, o ovário já estava necrosado. A adolescente saiu do centro cirúrgico sem o ovário esquerdo nem a trompa, contaminada pela infecção.

“É importante que esse assunto saia do esconderijo da vergonha. Se as mulheres continuarem achando que é normal sentir dor, a gente nunca vai conseguir chegar em lugar nenhum”, diz ela. Soares ainda sofre com cólicas menstruais e desconfia ter endometriose, embora a doença nunca tenha sido investigada.

 

Retrato de muitas alunas

 

O relato está longe de ser um caso isolado. Uma pesquisa do Instituto Alana em parceria com o Instituto Equidade.info revelou que seis em cada dez alunas do Ensino Fundamental e Médio que menstruam relatam cólicas fortes ou moderadas que atrapalham a rotina e exigem medicação. Quatro em cada dez faltam às aulas mensalmente por causa da dor. A pesquisa ouviu 2.551 estudantes das redes pública e privada de todo o país.

O problema não termina na escola. Outro estudo realizado a pedido do Alana analisou dados de 469 mil meninas e mulheres de 10 a 49 anos atendidas na atenção primária de Recife entre 2016 e 2025. Quando os pesquisadores buscaram registros de dor menstrual ou pélvica pelos códigos oficiais da CID-10, encontraram apenas 1.906 casos, equivalentes a 0,5% da amostra.

No entanto, ao utilizar a inteligência artificial para interpretar os textos escritos pelos profissionais nos prontuários, o número saltou para mais de 41 mil, cerca de 9% das pacientes. O resultado mostra que a dor é citada nas consultas, mas raramente se transforma em achado clínico.

 

O silêncio da medicina

 

A dor pélvica crônica afeta entre 10% e 19% das mulheres brasileiras em idade reprodutiva, segundo levantamentos conduzidos pelo ginecologista Omero Poli Neto, professor associado da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto. O número, segundo ele, está subestimado. “A cólica menstrual só passou a ser incorporada na definição de dor pélvica crônica há dois anos. Com essa inclusão, a prevalência aumenta para 43%”, afirma ele.

Boa parte dessas mulheres nunca chega a um consultório, por ter aprendido em casa e na escola a normalizar o sofrimento. Quando chega, esbarra num sistema que exige uma prova material do sintoma. Nem sempre, porém, há algo detectável, como focos de endometriose. A dor crônica pode se originar num mau funcionamento do sistema nervoso central.

Já se sabe, por estudos com ressonância magnética do crânio, que mulheres com dor pélvica crônica apresentam alterações na amígdala e no núcleo cerúleo. Mas o conhecimento ainda não se traduziu em um tratamento específico. “A gente não sabe como intervir. Existem alguns antidepressivos que ajudam, mas eles não foram criados para isso. No futuro talvez tenha espaço para o desenvolvimento de drogas específicas”, diz Poli Neto.

Um dos fatores de risco mais importantes para a cólica menstrual é o ambiente. Crianças expostas a estressores crônicos nos primeiros sete anos de vida, ou que vivenciaram negligência, abandono ou qualquer forma de violência, têm risco maior de desenvolver cólica incapacitante na vida adulta. A probabilidade é a mesma para meninas adotivas, o que descarta a genética como motivo preponderante.

A dor crônica é uma doença por si mesma e deve ser tratada, com ou sem prova material. Segundo o médico, medidas simples, como bolsa de água quente, eletroestimulação e anti-inflamatório administrado da maneira certa, resolvem até 83% dos casos incapacitantes. Para os refratários, existem opções hormonais e medicamentos que atuam no sistema nervoso central.

A invisibilidade da dor feminina

Parte do problema tem origem na própria ciência. Por décadas, mulheres e modelos animais femininos foram excluídos de ensaios clínicos, sob o argumento de que variações hormonais complicariam os resultados. Foi só em 1993 que a lei americana conhecida como NIH Revitalization Act tornou obrigatória a inclusão de mulheres em pesquisas financiadas pelo governo dos Estados Unidos, referência global em produção científica. Como consequência, a ciência sabe menos sobre o corpo feminino do que o masculino.

Além disso, subestimar a dor das mulheres é um clássico da medicina. Uma pesquisa da Unicamp analisou 7.259 inserções de DIU realizadas entre 2022 e 2024 e revelou que 81% das pacientes relataram dor moderada a severa durante o procedimento. Mais da metade (54%) classificou como severa. Enquanto isso, o manual técnico de inserção de DIU de cobre do Ministério da Saúde, de 2018, estima que menos de 5% das mulheres experimentam esse nível de desconforto.

“Pesquisas internacionais indicam que profissionais de saúde tendem a estimar a dor da inserção como menor do que a paciente relata”, aponta a psicóloga Ana Luiza Savi, mestre em saúde sexual e reprodutiva pela London School of Hygiene & Tropical Medicine e principal autora do estudo. “A nossa angústia é que a gente quer escutar as mulheres, quer que elas não tenham dor, só que a gente não tem uma solução definitiva pra isso”, lamenta Cássia Juliato, professora titular da Unicamp e co-autora da pesquisa.

Nos hospitais, um estudo de 2024 analisou mais de 21 mil prontuários de pronto-socorros nos Estados Unidos e em Israel e constatou que mulheres recebem menos prescrições de analgésicos do que homens, mesmo quando relatam o mesmo nível de dor. A diferença se manteve independentemente do sexo do médico que atendia. As pesquisadoras atribuem o padrão à crença de que mulheres exageram ao descrever sua dor.

É como se toda mulher fosse, de certa forma, um pouco como Cassandra. Na mitologia grega, a princesa troiana tem o dom da profecia, mas ninguém a leva a sério — uma maldição imposta pelo deus Apolo, ao ser rechaçado por suas investidas eróticas.

Desde 2020, esse fenômeno tem nome: gaslighting médico. O conceito entrou na literatura a partir de um artigo publicado no periódico JAMA. Os autores descrevem uma paciente — mulher, pra variar — que relatava uma série de sintomas, enquanto os médicos associavam suas queixas a fatores psicológicos. Uma investigação aprofundada revelou que, na verdade, ela estava sofrendo de Covid longa. Estudos iniciais indicam que mulheres, especialmente as mais velhas, são as principais vítimas do silenciamento.

A invisibilidade do sofrimento feminino começa na infância e segue para todas as fases da vida. Gestantes que passaram por cesáreas — o Brasil é um dos líderes mundiais no procedimento — têm risco de 6 a 10% de desenvolver neuropatia crônica da parede abdominal. Trata-se de uma dor que vão levar para o resto da vida.

A endometriose, condição que afeta cerca de 10% das mulheres e tem como principal sintoma a cólica, leva de sete a dez anos para ser diagnosticada, em média. Na menopausa e além, as causas ginecológicas dão espaço a dores intestinais e urinárias, para ficar só no campo pélvico.

Uma medicina masculina

 

Para o pediatra Daniel Becker, a raiz é estrutural. “Mulher não é um tema na medicina”, afirma. “Quem paga o preço mais alto são sempre as negras, as indígenas, as mais pobres e as mais oprimidas e menos consideradas nesse país”, afirma.

A saúde feminina, aponta o pediatra, é uma área restrita ao campo da ginecologia e da obstetrícia, um recorte que deixa de fora a maior parte da vida das mulheres. Na chamada “medicina do biquíni”, a crença é que mulheres seriam diferentes dos homens apenas nas partes cobertas pela calcinha. Para todo o resto, o corpo feminino funcionaria igual ao masculino.

Hoje, sabemos que não é verdade. Um exemplo concreto é a síndrome dos ovários policísticos, rebatizada em maio deste ano de síndrome ovariana metabólica poliendócrina (SOMP). A mudança de nome, resultado de um consenso global publicado no periódico The Lancet, corrige o equívoco de que a condição é uma doença ginecológica.

Trata-se, na realidade, de uma síndrome metabólica, endócrina e hormonal, que afeta uma em cada oito mulheres em idade reprodutiva. Por ter sido reduzida aos ovários, levou até 70% das pacientes a um diagnóstico tardio.

Mudança no horizonte

Toda essa conversa, porém, corre o risco de transformar a menstruação em sinônimo de sofrimento. Para a psicóloga Ursula Maschette, dedicada à promoção da saúde menstrual, é preciso cuidado para não demonizar o ciclo. A variação hormonal não existe apenas para a reprodução. Ela serve ao tônus muscular, à densidade óssea e à saúde cardiovascular, só para citar alguns exemplos.

A dor, quando presente, é um sinal de que algo precisa ser investigado, não uma característica inevitável de ser mulher. “Falar de menstruação é falar de saúde, é tirá-la desse espaço de vilã e colocá-la como parceira, como uma escuta que precisa ser atenta”, aponta Maschette.

Mas enquanto houver meninas perdendo aulas, famílias que normalizam dor e profissionais de saúde que não ouvem, essa reconciliação segue sendo um horizonte distante. “Uma menina que sente dor na menstruação e passa de consultório em consultório, sem ser ouvida, nunca vai ver beleza nisso”, diz Sofia Reinach, líder da iniciativa de endometriose, dor pélvica e saúde menstrual do Instituto Alana. Foi do instituto a iniciativa de levar o tema a Brasília e projetar imagens nos prédios públicos, durante o evento a.if_alana ideia fest.

Em junho, o governo federal e o Alana anunciaram um investimento de 60 milhões de reais em pesquisas sobre saúde menstrual, dor pélvica e endometriose no Brasil. É o maior já feito pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação na área. O dinheiro vai financiar estudos aplicáveis ao SUS e estruturar uma rede nacional de pesquisa. Trata-se do começo de uma resposta para um problema que existe há gerações. E que, por gerações, foi tratado como algo inerente à mulher.

 

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