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A violência de gênero, direta ou indiretamente experimentada, afeta a forma como as mulheres percebem a si mesmas e o mundo, aponta especialista

Saiu no site PATRÍCIA GALVÃO

A psicóloga Arielle Sagrillo explica como a exposição contínua à violência de gênero impacta significativamente a saúde mental das mulheres.

De acordo com o relatório “Retrato dos Feminicídios no Brasil”, lançado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 1.568 mulheres foram vítimas de feminicídio no país em 2025, um aumento de 4,7% em relação ao ano anterior.

O estudo “Elas Vivem: a urgência da vida”, da Rede de Observatórios da Segurança, que monitorou nove estados brasileiros ao longo do ano, apontou que a cada 24 horas, aproximadamente 12 mulheres foram vítimas de algum tipo de violência no mesmo período.

Já a Central de Atendimento à Mulher (Ligue 180), do Ministério das Mulheres, registrou, também em 2025, 1.088.900 atendimentos — quase 3 mil por dia —, o que representa um aumento de 45% em comparação com 2024.

Os dados sobre violência contra a mulher apontam um aumento nos casos registrados nos últimos anos no Brasil. Ao mesmo tempo, a ampla circulação desses relatos nas redes sociais e na mídia faz com que mesmo aquelas que não vivenciam diretamente essas situações sejam afetadas. Isso porque, ao acompanhar essas narrativas de forma recorrente, muitas mulheres passam a experimentar maior sensação de insegurança, além de impactos na saúde mental e na forma como percebem a si mesmas e o mundo ao seu redor.

Para a psicóloga Arielle Sagrillo, mestre e doutora em psicologia, esse contato contínuo com a violência de gênero não é neutra: “A exposição à violência de gênero (seja vivida diretamente, seja acompanhada de forma constante por meio de relatos, notícias ou redes sociais) não é neutra. Ela atravessa subjetividades, molda percepções e pode produzir efeitos psíquicos importantes, especialmente quando olhamos a partir de uma lente de gênero e de uma perspectiva informada sobre o trauma.”

Segundo a especialista, mesmo quando a violência não é vivida diretamente, seus efeitos são concretos. A percepção de risco e insegurança passa a orientar escolhas cotidianas, levando muitas mulheres a reorganizarem suas rotinas em função da autoproteção.

Na prática, essa exposição contínua pode reforçar a percepção de vulnerabilidade, de risco constante e de imprevisibilidade das relações. Muitas mulheres passam a reorganizar sua vida cotidiana a partir da lógica da autoproteção: evitam determinados lugares, horários, comportamentos, roupas. Isso não é ‘paranoia’ ou exagero, mas uma leitura adaptativa de um contexto em que a violência é real e estrutural.”

Além disso, há impactos diretos na autoimagem. Sentimentos como culpa, vergonha e responsabilização ainda são comuns, especialmente em uma sociedade que frequentemente questiona ou minimiza a violência sofrida pelas vítimas.

A especialista também chama atenção para um fenômeno menos visível: a chamada traumatização secundária.

Em termos traumáticos, mesmo quando não há vivência direta, pode haver um fenômeno que a gente poderia chamar de traumatização secundária. Uma forma de sofrimento psíquico decorrente da exposição repetida ao trauma de outras pessoas.”

Esse processo pode se manifestar por meio de sinais como ansiedade, hipervigilância, alterações no sono, sensação constante de insegurança e sobrecarga emocional ao consumir notícias.

Em casos de violência direta, esses efeitos podem se intensificar e evoluir para quadros mais complexos, como o transtorno de estresse pós-traumático.

Como se proteger sem se desconectar? 

Diante desse cenário, a especialista aponta que o caminho não é se afastar completamente do debate público, mas construir formas de proteção emocional.

A chave não é o afastamento total, mas a construção de limites. Uma perspectiva informada sobre o trauma nos ensina que a exposição precisa ser regulada para não se tornar retraumatizante.”

Entre as estratégias possíveis, estão a:

  • curadoria do consumo de conteúdo
  • alternância entre engajamento e descanso
  • busca por narrativas de enfrentamento e
  • atenção aos sinais do próprio corpo.

Ela pontua que não se trata de se alienar, mas de sustentar o engajamento de forma emocionalmente viável, respeitando os próprios limites.

Cuidado, apoio e responsabilidade coletiva

Para mulheres em situação de violência, o cuidado passa antes de tudo pela segurança (física, emocional e institucional), e pelo acesso a redes de apoio e atendimento qualificado.

Já para aquelas que se sentem sobrecarregadas pela exposição ao tema, a psicóloga destaca a importância de validar o impacto emocional e buscar espaços de elaboração, como terapia ou grupos de apoio.

O sofrimento gerado pela violência de gênero não é um problema individual, mas uma resposta a uma realidade social. Um fazer psicológico ético e político implica reconhecer isso e atuar sem descontextualizar a dor, sem patologizar respostas que, muitas vezes, são tentativas legítimas de sobreviver a um contexto violento”, conclui. 

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