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A minissaia foi inventada no Brasil, e por um homem

Saiu no site AZ MINA

 

Veja publicação original:  A minissaia foi inventada no Brasil, e por um homem

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O artista Flávio de Carvalho usou a roupa na década de 50 como parte de uma experiência artística

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Por Melody von Erlea

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A Swinging London dos anos 60 estava pulsando: música, cores, psicodelia e moças com as pernas de fora desfilando com a tendência da década, a minissaia. Mary Quant, a estilista pop do momento, era considerada a responsável pela criação da peça de roupa icônica e revolucionária, mas a própria estilista dizia que quem inventou a minissaia foram suas clientes – ela só executou os desejos da mulher londrina da época.

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Pouco antes disso, no pós Segunda Guerra cresceu a popularidade do New Look de Dior, desfilado em 1947 e transformado em estética padrão nos anos 50 – o look de cintura bem marcada, saia bem rodada até as canelas, blusa justinha que ressaltava os seios, super inspirado na moda do século 19 e que colaborava para a reinserção da mulher em seu lugar devido, o lar.

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Os anos 60 e suas revoluções sexuais abriram novas possibilidades para o guarda-roupa feminino, libertando as mulheres de amarras metafóricas e literais – as roupas que restringiam a movimentação e ressaltavam os atributos fisiológicos femininos.

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A moda da minissaia pegou até no Brasil, que estava vivendo um período político de tensão e conservadorismo, pautado pela censura geral da mídia durante a ditadura. A minissaia distrai o olhar do cansaço político, permite a falação, a fofoca, as notícias sobre celebridades – é a válvula de escape midiática brasileira durante o governo militar, ao mesmo tempo que traz uma falsa liberdade, uma sensação de escolha e de domínio da mulher sobre seu corpo.

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O item de vestuário tava nas pernas das cantoras da Jovem Guarda, estava vestindo artistas intelectuais como Elis Regina, era democrática, sensual e, principalmente, uma muito necessária novidade não-prejudicial.

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Embora Londres do início dos anos 60 seja considerada o berço da minissaia, no Brasil dos anos 50, enquanto o mundo ocidental aceitava e reproduzia o antiquado New Look de Dior, um artista surgiu com uma intervenção artística que previa não apenas o surgimento da minissaia mas propunha um novo olhar para o corpo e a moda masculina.

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Em 1956 Flávio de Carvalho, artista, arquiteto e escritor, desfilou pelo centro de São Paulo com o que ele ironicamente nomeou “New Look”: a roupa ideal para o homem dos trópicos. O look consistia em minissaia e uma blusa solta, cropped e com manga sino. Ele dizia que esse era o traje ideal para trabalhar e se mover por uma cidade como São Paulo no clima brasileiro.

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Enquanto os grandes veículos de moda exaltavam o New Look de Dior, que restringia a movimentação das mulheres, atuando a favor do poder masculino e da opressão feminina, Flávio de Carvalho desfilava seu New Look, que libertava os homens tropicais da opressão dos trajes europeus.

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De acordo com ele, não havia sentido em restringir os homens a padrões europeus de terno e gravata no calor de um país tropical – assim como as mulheres haviam se libertado das saias e espartilhos, o homem devia se libertar da calça e da gravata.

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Ao mesmo tempo que desafiava padrões ocidentais de moda, Flávio era um dos primeiros homens a mostrar as pernas em público fora da praia – o primeiro homem de minissaia, anos antes da tendência explodir na capital britânica pelas mãos de Mary Quant. A caminhada de minissaia era, além de uma proposta de moda, uma experiência artística, que ele nomeou Experiência nº 3.

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A Experiência nº 2 havia acontecido duas décadas antes, e o conceito, a teoria e as motivações de Flávio estão publicadas no livro de mesmo nome, disponível para download gratuito no arquivo da Biblioteca Brasiliana. No livro, o artista demonstra seu interesse por moda e regras estilísticas desde cedo, e descreve a Experiência nº 2 e sua importância.

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Em 1931, Flávio caminhou na direção contrária de uma procissão religiosa de Corpus Christi, sem tirar seu boné. Naquela época as regras de conduta e etiqueta quanto à roupa eram rígidas, e não descobrir a cabeça quando da presença de evento religioso era extremamente ofensivo.

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Flávio acreditava que a crença em regras imutáveis e tradições teria grande efeito na agressividade de uma comunidade, para determinar se a força da crença era maior do que a força do respeito à vida humana.

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Em suas duas experiências, Flávio pôs à prova padrões vigentes de estética e comportamento que explicitavam papéis de gênero, de poder e de opressão.

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Inadvertidamente, na segunda experiência, acabou prevendo a grande tendência da década seguinte, a minissaia dos anos 60 – muito antes de Mary Quant e bem longe de Londres.

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E ao contrário de Quant, que atribuía sua criação a um inconsciente coletivo de suas clientes. Flávio baseava sua ideia em argumentos lógicos, que incluíam conforto, mobilidade, frescor, uso de tecido, um estilo adequado a tipos diversos de corpos (Flávio dizia “adequado a gordos e magros”), facilidade de limpeza e higienização, psicologia das cores e circulação do ar.

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Clodovil o próprio afirma que o inventor da minissaia foi ele, no começo dos anos 60, quando pediu a uma costureira aumentar a barra do vestido que Elis Regina ia usar pra se apresentar na TV. A mulher entendeu errado, encurtou a barra e Clô só descobriu quando ligou a TV e deu de cara com Elis e suas pernocas todas exibidas.

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Mesmo se isso fosse verdade acho que significa que quem inventou a minissaia foi a costureira (mais uma mulher anônima na história da moda) e não Clodovil – e mesmo se déssemos os devidos créditos à costureira, Flávio de Carvalho já tinha causado fuzuê com seu #freethecoxas pelo menos 5 anos antes.

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A obra de Flávio de Carvalho está em exposição na Galeria Almeida e Dale, em São Paulo, até dia 19 de outubro.

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Serviço:
Flávio de Carvalho: o antropófago ideal
Local: Galeria Almeida e Dale –  R. Caconde, 152, Jardim Paulista – São Paulo
Quando: Até 19 de outubro, de segunda a sexta, das 10h às 19h

Entrada gratuita

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Transcrição A bióloga e advogada Bertha Lutz nasceu em 1894, filha da enfermeira Amy Fowler e do cientista Adolfo Lutz. Fez parte de seus estudos na Universidade de Sorbonne, em Paris e depois de formada atuou na área de botânica do Museu Nacional até 1964. Sempre participou em causas sociais envolvendo direitos das mulheres, sendo presidente da Federação Brasileira para o Progresso Feminino. Em sua homenagem, todos os anos o Senado entrega o Diploma Berta Lutz a personalidades que se destacam na defesa de direitos das mulheres e das questões de gênero. Em 2003, na primeira edição do prêmio, a então senadora Emília Fernandes, do Rio Grande do Sul, ressaltou o pioneirismo de Bertha em diversas áreas. Emília Fernandes – A mulher cidadã Bertha Lutz, advogada e bióloga que se diplomou em tempo no qual a mulher não tinha outra opção além de tornar-se dona de casa e gerar numerosa prole. Foi uma mulher muito à frente de seu tempo, um tempo de nefasta opressão que, além de negar acesso às instâncias formais de poder, reprimia de maneira terrível todas aquelas mulheres que tentassem romper as barreiras impostas por uma sociedade marcada por valores machistas. Bertha Lutz fez parte do grupo conhecido como sufragistas brasileiras que teve como conquista o voto feminino no país em 1932. Foi a segunda mulher a ser deputada federal no Brasil em 1936. Bertha ainda fez parte da delegação brasileira em 1945 que participou da construção da Carta das Nações Unidas. Ela faleceu em 16 de setembro de 1976.

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