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200 anos depois de Maria Quitéria, Exército recebe primeiras mulheres pelo alistamento voluntário: ‘Foi difícil’

Saiu no site MARIE CLAIRE

No dia 27 de julho, revisitamos a trajetória da pioneira baiana que se tornou símbolo de participação feminina nas Forças Armadas

Por décadas, Maria Quitéria foi uma presença quase isolada na história do Exército Brasileiro. Heroína da Independência, morreu sem o devido reconhecimento. Mais de 200 anos depois, sua trajetória se conecta à de 1.010 jovens que, neste ano, formam a primeira turma de mulheres a ingressar nas fileiras da instituição pelo alistamento militar voluntário feminino.

Maria Quitéria nasceu em 1792, na então Capitania da Bahia. Em 1822, alistou-se para lutar na Guerra da Independência do Brasil. Como mulheres não podiam integrar as forças armadas na época, precisou se disfarçar de homem. Mais tarde, teve sua identidade descoberta, mas foi mantida na tropa por sua coragem e habilidade em combate.

Ela participou das ações em Pirajá, incluindo a defesa da Ilha de Maré e de Piatã. Em um dos episódios mais marcantes de sua trajetória, durante os combates em Piatã, entrou sozinha em uma trincheira ocupada por soldados portugueses, rendeu os militares e os conduziu como prisioneiros até o acampamento brasileiro.

Pelo feito, foi condecorada pelo imperador Dom Pedro I com a insígnia da Ordem Imperial do Cruzeiro, uma das mais altas honrarias do Império do Brasil. Mesmo assim, morreu pobre e no anonimato. Apenas décadas depois, iniciativas começaram a resgatar sua história e a reconhecer sua importância para o país.

Entre as primeiras homenagens estão a inauguração de uma avenida e de um monumento em sua homenagem, em Feira de Santana, em 1950, e a instalação de uma estátua no bairro da Liberdade, em Salvador, em 1953.

Seu legado também inspirou a criação de condecorações com seu nome. Em 1979, a Câmara Municipal de Feira de Santana instituiu a Comenda Maria Quitéria, a mais alta honraria concedida pela Casa a mulheres que se destacam por sua atuação na sociedade. Dois anos depois, em 1981, a Câmara Municipal de Salvador criou outra Comenda Maria Quitéria, destinada a reconhecer mulheres com trajetórias de destaque nas áreas social, cultural, educacional, política e econômica.

Em 2018, por meio da Lei Federal nº 13.697, o nome de Maria Quitéria foi oficialmente inscrito no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, localizado no Panteão da Pátria e da Liberdade, em Brasília.

Histórico de participação feminina no Exército Brasileiro

 

Atualmente, segundo o Ministério da Defesa, as Forças Armadas contam com 37 mil mulheres, o que corresponde a cerca de 10% de todo o efetivo. Elas atuam majoritariamente nas áreas de saúde, ensino e logística.

Antes do alistamento voluntário feminino, aberto pela primeira vez no ano passado, o acesso de mulheres à área combatente ocorria por meio de concursos públicos específicos em instituições de ensino militar, como o Colégio Naval (CN), da Marinha, a Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx) e a Escola Preparatória de Cadetes do Ar (EPCAR), da Aeronáutica.

Após Maria Quitéria, o Exército Brasileiro passou 123 anos sem mulheres em suas fileiras. Confira os principais marcos dessa trajetória:

 

  • 1944–1945: foram incorporadas as primeiras enfermeiras para atuar junto à Força Expedicionária Brasileira durante a Segunda Guerra Mundial.
  • 1992: mulheres passaram a ser admitidas para integrar a tropa e seguir carreira como oficiais do Exército, por meio da formação na Escola de Saúde e Formação Complementar do Exército.
  • 2017: ingresso da primeira turma de mulheres na Academia Militar das Agulhas Negras, responsável pela formação de oficiais combatentes do Exército.
  • 2026: a general Cláudia foi a primeira mulher proposta ao generalato no Exército Brasileiro. No mesmo ano, mulheres também passaram a poder se alistar voluntariamente para o serviço militar

 

 

Primeiras recrutas

 

Conforme o Decreto nº 12.154, assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mulheres que completarem 18 anos passaram a poder se alistar nas Forças Armadas a partir de 2025. Para o primeiro grupo, foram ofertadas 1.500 vagas para marinheiras-recrutas, soldados do Exército e soldados de segunda-classe da Força Aérea.

Marie Claire ouviu jovens soldados que ingressaram no Exército neste ano, July RodriguesKamila Coutinho e Mylenna Nicolly Reis, todas de 18 anos. As três compartilham o sonho de seguir carreira militar, mas tinham expectativas diferentes sobre quando essa oportunidade chegaria.

July, por exemplo, nunca imaginou que mulheres poderiam ingressar no Exército por meio do alistamento militar voluntário. Já Kamila acreditava que essa mudança aconteceria, embora não tão cedo.

“Sabia que essa oportunidade chegaria, porque vivemos em um tempo em que, felizmente, as portas estão se abrindo para as mulheres. Isso é muito lindo de ver. Só não imaginava que seria agora.”

 

Todas também têm familiares com experiência militar, o que contribuiu para a decisão de ingressar no Exército. Ainda assim, cada uma precisou enfrentar desafios pessoais para chegar até ali.

Kamila interrompeu a graduação em Enfermagem para concluir o treinamento militar. Ela conta que passou todo o ano de 2025 cursando a faculdade, mas percebeu que a profissão já não correspondia às suas expectativas. Hoje, além de servir, prepara-se para novos desafios dentro da instituição.

Por serem as primeiras mulheres a ingressar no Exército por meio do alistamento militar voluntário, elas não tinham referências de quem já tivesse vivido a mesma experiência. “A gente é pioneira. Não teve nenhuma mulher para chegar e falar: ‘Vai ser assim, fica tranquila’. Foi tudo muito novo”, relembra July.

A chegada da primeira turma também exigiu mudanças dentro do Exército. As unidades passaram por adequações estruturais, como a criação de alojamentos, vestiários e banheiros femininos, e os militares responsáveis pela formação receberam capacitação específica.

Para Kamila, foi um aprendizado coletivo. As recrutas precisaram se adaptar à rotina militar, enquanto a tropa também aprendia a lidar com uma realidade inédita. Entre elas, o convívio intenso trouxe desafios, mas fortaleceu o sentimento de união.

“Na hora do aperto, na hora da dificuldade, a gente só tinha umas às outras. Então, nos ajudávamos muito. Foi difícil, mas fomos criando uma amizade, um laço de irmandade”, diz Myllena.

 

Segundo a tenente Natália Santos, que participou da formação das jovens, o processo marcou também a primeira turma de instrutoras. “Passamos por uma preparação para recebê-las, com estágios e palestras voltados para esse novo momento.”

A rotina militar também testou os limites físicos e emocionais da turma. Santos explica que embora a exigência faça parte da formação, o acolhimento precisou estar presente ao longo do processo.

 

“Querendo ou não, são meninas. É uma experiência difícil, tanto do ponto de vista psicológico quanto físico. Elas chegaram com medo e sem saber o que ia acontecer. A experiência fez com que crescessem muito. Agora vejo adultas determinadas, militares que não duvidam de si mesmas, que não têm medo de desafios”, observa.

 

A presença feminina representa um ganho para o Exército, ao ampliar a diversidade de experiências e competências dentro da instituição. “Traz mais diversidade e fortalece o profissionalismo. Mulheres e homens, juntos, somam capacidades e qualidades”, defende Kamila.

Mas ser pioneira também significa carregar uma responsabilidade. Para as três recrutas, fazer parte da primeira turma de mulheres a ingressar no Exército por meio do alistamento militar voluntário é motivo de orgulho.

“É claro que existe um peso, porque a gente sabe que muitas pessoas estão olhando para a gente. Mas eu prefiro encarar isso como uma responsabilidade positiva”, afirma July.

 

Do lado de fora dos quartéis, a novidade ainda desperta surpresa. Segundo a soldado, não é todo mundo que sabe que as mulheres já podem ingressar no Exército pelo alistamento voluntário e, ao vê-las fardadas, costumam acreditar que elas já pertenciam à carreira militar.

“Já teve gente dizendo que esse não é lugar de mulher, mas são pessoas de fora. Nós sabemos tudo o que passamos para chegar até aqui, e não é uma frase dessas que vai nos afetar”, finaliza Kamila.

 

Como se alistar

 

O período de alistamento segue o calendário masculino, que é obrigatório, e fica aberto entre janeiro e junho. A partir do ato oficial de incorporação, o Serviço Militar passa a ser obrigatório. Pela legislação, o Serviço Militar tem duração inicial de 12 meses, podendo ser prorrogado por períodos de um ano, até o limite máximo de oito anos.

Para fazer a inscrição, é preciso ser maior de idade e residir em um dos municípios que possuem Organização Militar contemplada pela iniciativa. Mais informações estão disponíveis no site do Alistamento Militar.

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