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‘Falta de engajamento das igrejas evangélicas diante da violência doméstica’, diz pesquisadora

Saiu no site CORREIO/BA:

 

Por:Thais Borges

Segundo estudo feito pela professora Valéria Cristina Vilhena, 40% das vítimas de violência doméstica é evangélica

 

Uma das pesquisas mais conhecidas sobre a violência doméstica e as mulheres evangélicas é da pesquisadora Valéria Cristina Vilhena, professora, palestrante e autora do livro Uma Igreja Sem Voz. Segundo o estudo dela, que é doutora em Educação e História Cultural e atualmente cursa o pós-doutorado em Ciências da Religião na Universidade Metodista de São Paulo, 40% das vítimas de violência doméstica é evangélica.

“De maneira geral, a igreja é negligente e segue seu caminho de triunfo e manutenção de poder deixando para trás as milhares de vítimas das violências fruto de uma hermenêutica patriarcal, de um corporativismo machista”, diz ela, que é uma das fundadoras da Evangélicas pela Igualdade de Gênero (EIG).

Foto: Reprodução

Confira a entrevista na íntegra:

No centro de referência Loreta Valadares, 33% do total de mulheres atendidas são evangélicas. Ficam à frente de católicas, daquelas de religião de matriz africana e das que não têm religião. O dado fica próximo do que foi encontrado pela senhora em sua pesquisa, que é de 40%. A senhora acha que há, ainda, muita subnotificação?

Os dados estão bem próximos, o que nos deixa, mais uma vez, estarrecidas com a falta de engajamento das igrejas evangélicas diante de tais dados.  Há falta de divulgação, de comprometimento, de empatia. E mesmo com aquelas igrejas que por um acaso venha a se desculpar dizendo que não sabiam desse fato estarrecedor – da quantidade de mulheres evangélicas vítimas das violências, eu as questiono sobre os dados gerais, isto é, da sociedade brasileira como um todo. No Brasil, a cada duas horas, uma mulher é assassinada por sua condição de ser mulher; e 405 mulheres e meninas dão entrada no SUS (Sistema Único de Saúde) por agressão diariamente. Estamos falando do que temos registro. E o que não temos? As violências mais veladas, as psicológicas, as simbólicas, etc. Isso importa?

Nas igrejas, como o tema da violência doméstica é tratado?

Embora em algumas igrejas o tema seja tratado seriamente, ou seja, de forma contínua, na escola dominical, nas pregações, nos aconselhamentos pastorais, estas igrejas, ao menos até onde eu conheço, elas são minorias. Mas minorias mesmo. De maneira geral, a igreja é negligente e segue seu caminho de triunfo e manutenção de poder deixando para trás as milhares de vítimas das violências fruto de uma hermenêutica patriarcal, de um corporativismo machista.

Qual é o papel da mulher em um casamento ou relacionamento sério, de acordo com a religião evangélica? E do homem?

Mais uma vez tenho que pontuar que há igrejas e igrejas evangélicas. Há igrejas progressistas que combatem arduamente as diversas violências contra as mulheres, levando em consideração as questões de classe e raça-etnia e, portanto já superaram, já resignificaram as teologias medievais, especialmente as agostinianas, que sistematizaram a misoginia na teologia cristã.

No entanto, o mais comum é ainda o de subalternidade da mulher e o do poder de mando para o homem. É a reprodução de relacionamentos desiguais, citando sem contextualizações socioculturais o apóstolo Paulo: “Mulheres, cada uma de vós seja submissa ao próprio marido, pois assim deveis proceder por causa da vossa fé no Senhor” (Col.3.18), dentre outros textos. A leitura machista das Escrituras tem levado muitas mulheres a se desanimarem em sua jornada espiritual. É preciso que as igrejas de maneira geral se comprometam com esta temática. Um comprometimento sério, sistemático, e que o façam do ponto de vista histórico (ou seja, é preciso dialogar com a história para compreender a atual conjuntura da violência contra as mulheres – um fenômeno social mundial). Quando digo “reconhecer historicamente”, falo também da perspectiva, não dos vencedores, mas, em certa medida, dos vencidos, ou das vencidas, das mulheres que foram historicamente mais exploradas do que os homens, por sua condição de ser mulher.

Um dos feminicídios recentes em nosso estado foi de uma mulher evangélica: a Vanúcia dos Santos, que foi morta em Lauro de Freitas (município da Região Metropolitana de Salvador) pelo marido, também evangélico. A nora dela nos deu um depoimento contando que Vanuza sempre tinha acreditou no casamento. Ela acreditava que a violência do marido era um período de provação e que Deus restauraria aquela relação. Como a senhora vê essa situação? Acredita que é comum entre as mulheres evangélicas que estão em uma relação abusiva?

Vejo com muita tristeza, todavia isso é muito comum, ou seja, uma mulher em situação de violência deixar “nas mãos de Deus” seu relacionamento violento. Em meu livro, registrei o que constatei no campo de pesquisa: “A violência do agressor é combatida pelo ‘poder’ da oração. As ‘fraquezas’ de seus maridos são entendidas como ‘investidas do demônio’, então a denúncia de seus companheiros agressores as leva a sentir culpa por, no seu modo de entender, estarem traindo seu pastor, sua igreja e o próprio Deus”. E este fato é um perigo, pois está aumentando o risco de vida dessa mulher!

Eu costumo dizer em minhas palestras que a igreja é responsável por fatos como estes, mas poderá fazer a diferença, poderá fazer parte da solução se assim o quiser. Estou falando do reconhecimento da vulnerabilidade que não está apenas em um sistema vinculado à exploração econômica. Ele está além das contingências da exploração econômica, as mulheres foram cerceadas para os serviços domésticos, para a maternidade não desejada, para o espaço privado, para a sujeição ao marido, as mulheres tiveram que crescer em meio a cultura do estupro. Lar e igreja precisam ser lugares de amor, acolhimento e não de dor.
A igreja precisa entender que quando a violência física entra na relação, as mulheres já sofreram outras violências, principalmente a verbal e a psicológica. Por isso, a importância de atuar contra todo tipo de violência e desde cedo. É preciso que este tema seja assunto das escolas dominicais em todas as idades. A teologia feminista pode contribuir. Há várias teólogas biblistas e feministas. Luteranas, metodistas, presbiterianas independentes, católicas, batistas produzindo teologia feminista e de muito boa qualidade do ponto de vista da exegese bíblica. As mulheres estão se posicionando como cristãs e feministas, ou seja, estão dizendo aos homens que sempre estiveram no comando da história e da igreja: – não vamos abandonar nossa fé para pensar, para fazer teologia, isto é, não reproduziremos teologias medievais como vocês fazem. Porque, do meu ponto de vista, teologias que não contextualizam a exploração de mulheres e homens que viveram e continuam a viver de forma injusta, desigual, sujeita a todo tipo de violência, teologias que não refletem e nem recuperam a imago Dei (do latim, ‘imagem de Deus) das e nas mulheres, bem como nas milhares de empobrecidas e empobrecidos,  nas negras e negros,  índias e índios está no mínimo desatualizada, portanto não é dialógica.

Quais as dificuldades para as mulheres evangélicas identificarem que estão sofrendo violência doméstica? E quais são os maiores empecilhos para a busca de ajuda especializada ou para a formalização de uma denúncia?

Em meu livro, digo: “O que era um dever, o da denúncia, para fazer uso de seu direito de não sofrer violência, passa a ser entendido como uma fraqueza, ou falta de fé na provisão e promessa divina de conversão-transformação de seu cônjuge”. Quando cheguei ao campo de pesquisa, a assistente social me informou que elas, as profissionais, tinham mais dificuldade de oferecer os serviços psicológicos, jurídicos e sociais às mulheres evangélicas e elas não entendiam o por quê. E foi esse o meu recorte. Como disse anteriormente, estamos em uma sociedade machista. Ttodas nós, sem exceção, por nascermos mulheres sofreremos violências de gênero, umas mais outras menos. A questão de raça-etnia, a classe, a religião, a localidade geográfica e etc influenciará nas vulnerabilidades. Mas todas nós sofreremos por sermos frutos de uma sociedade patriarcal. Mas se a religião “sacraliza” esse patriarcado tudo fica muito mais difícil.
Portanto, especialmente as profissionais, devem levar em consideração a religião, seja qual for, isto é, o sistema de fé e crenças, que dirigem boa parte das ações dessas mulheres, que podem facilitar ou dificultar o tratamento da mulher em situação de violência. Esse sistema de crenças é paradoxal, mas deve ser considerado e tratado com respeito, porque ao mesmo tempo em que submete também pode ser libertador. Infelizmente, muitas vezes não nos reconhecemos oprimidas e violentadas; reproduzimos valores machistas na forma de educar nossos filhos e filhas, na hora de nos relacionarmos com os homens ou com outras mulheres, e assim por diante. No decorrer da nossa caminhada conhecemos pastoras com hermenêuticas feministas, libertadoras e também pastoras com as mesmas teologias medievais advindas das colonizações exploratórias.

Por que, mesmo quando buscam atendimento, muitas mulheres evangélicas continuam vivendo com seu agressor?

Podem ter várias razões. Vou citar uma. Muitas vezes elas sentem-se responsáveis espiritualmente por seus companheiros. Aprenderam que “a mulher sábia edifica o seu lar” (Prov.14:1). São intercessoras, isto é, oram em favor deles e isto é esperado de uma mulher sábia e muitas vezes até cobrado. Desistir daquele relacionamento pode ser compreendido por ela e até mesmo pela comunidade de fé onde frequenta – sua igreja, como um fracasso pessoal. Estou fazendo este recorte entre as mulheres evangélicas porque é meu tema de pesquisa e também da entrevista, mas preste atenção que isto está presente na sociedade brasileira como um todo. Quando um filho “dá certo”, parabéns aos pais, especialmente ao pai, mas quando “não dá certo”, (a pergunta é) onde estava a mãe dessa criatura? Não é isso? As mulheres são sempre mais cobradas em tudo. Atente ao nosso ditado popular: “Ser mãe é sofrer no paraíso”.

Seria correto dizer que, na religião cristã, a submissão das mulheres aos maridos é ‘institucionalizada’?

A desigualdade de gênero é institucionalizada na escola, no mundo do trabalho, na família (a primeira instituição social que nos recebe), nas festas, na política, na universidade e etc. Porque a desigualdade de gênero está nas relações. Atravessa o tempo todo nossas vidas. Está no nosso cotidiano. Logo, também, nas religiões. As vezes de maneira mais sutil, outras escancaradas. Para exemplificar neste recorte nossa experiência aponta que não somente as mulheres de fé estão envolvidas como vítimas de violências, mas os homens de fé aparecem também como agressores, como seus violentadores, não somente quando é o agressor direto, mas também quando omite, encoberta, ou culpa a própria mulher que sofre a violência, bem como, quando utiliza o púlpito de sua igreja para “pregar” a submissão incondicional da mulher como vontade de Deus, quando sabemos que não passa de uma rede protetiva dos homens sobre os homens. E isto é cultural.

A teologia da submissão, aplicada em favor dos homens, é fruto de uma construção cultural patriarcal e que serve, em especial, para a manutenção desse patriarcado – do machismo que está impregnado em nossa cultura. Precisamos lembrar que o cristianismo que vem para as Américas vem embasando uma colonização-exploratória-escravagista. Os europeus, especificamente os portugueses aqui no Brasil trouxeram na sua mala de viagem a Bíblia e suas teologias, sua interpretação, seu modo de ver e viver no mundo e isso implicou em genocídio indígena, escravização dos negros, exploração de classe, misoginia, muitas, mas muitas violências em nome de Deus. E esse até há pouco tempo atrás era o cristianismo que a maioria de nós evangélicos conhecíamos, especialmente os evangélicos pentecostais e neo pentecostais, faço esse recorte, porque ser meu berço.

 

 

 

 

Veja publicação original: ‘Falta de engajamento das igrejas evangélicas diante da violência doméstica’, diz pesquisadora

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