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A hipermasculinidade estrutural no esporte e o caso Pétrix

Saiu no site AZMINA

 

Veja publicação no site original:   A hipermasculinidade estrutural no esporte e o caso Pétrix

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Como um atleta que denuncia um seríssimo caso de abuso poderia ser acusado de assediar duas mulheres diante de tantas câmeras?

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Por Amanda Célio

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Se você mora no Brasil e acompanha minimamente a televisão brasileira e as redes sociais, deve ter visto que o país quase parou na última terça-feira para eliminar o participante da 20ª edição do Big Brother Brasil, o ginasta olímpico Pétrix Barbosa. O atleta é investigado por se envolver em dois casos de assédio sexual dentro da casa, fato que levou o público a pedir, e muito, sua expulsão.

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As denúncias se referem a assédios ocorridos nas festas do programa, em momentos em que as participantes estavam alcoolizadas. No primeiro caso, Pétrix aparece nos vídeos “balançando” os seios de Bianca Andrade, a influencer Boca Rosa. Poucos dias depois o participante é flagrado pelas câmeras esfregando sua genitália na cabeça da cantora Flayslane.

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Na última sexta-feira, o atleta foi ouvido na Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (DEAM), negou a autoria dos crimes e se colocou à disposição para contribuir com as autoridades. Ele responderá por importunação sexual, isto é, quando o autor pratica gestos sexuais sem agressão.

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Pétrix é medalhista de ouro no pan-americano de 2011, foi dez vezes campeão brasileiro e ficou conhecido nacionalmente após fazer uma denúncia, em 2018, revelando ter sofrido abusos sexuais do seu ex-treinador da Seleção Brasileira de Ginástica Olímpica, Fernando Lopes de Carvalho. O ginasta revelou que os abusos começaram quando ele tinha 10 anos e duraram até ele sair do Mesc, aos 13 anos. Na época a iniciativa de Pétrix fez 40 atletas revelarem os abusos sexuais do técnico, que duraram por mais de 15 anos.

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Esse caso também serviu para abrir os olhos da comunidade e imprensa esportiva em relação a casos de assédio no esporte. Lopes não só foi excluído da equipe olímpica no Rio, como foi banido do esporte em março do ano passado pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva.

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As atitudes de Pétrix, bem como sua postura ao longo do reality, de ter se mostrado além de machista e misógino, ser um participante altamente competitivo – o público também chegou a pedir sua expulsão por ter empurrado de forma agressiva e desproporcional outro participante, Pyong, numa disputa para atender o big fone no jogo – causa espanto quando acessamos o seu passado e lembramos de suas denúncias contra o abuso sexual. Afinal, como um atleta que denuncia um seríssimo caso de abuso poderia ser acusado de assediar duas mulheres diante de tantas câmeras?

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Associar as duas atitudes pode ser um erro, mas é preciso estar ciente de que o machismo estrutural está na base de tudo, e que o meio esportivo é um dos principais responsáveis por perpetuar, romantizar e disseminar a hipermasculinidade desde a formação dos atletas. No documentário “The Mask you live in” (A máscara que vive em você) que discute como a ideia do homem dominante afeta psicologicamente crianças, jovens e, no futuro, adultos nos Estados Unidos, o técnico esportivo Joe Ehrmann explica como essa estrutura de associar esporte a virilidade e incentivá-la a todo custo pode trazer problemas no futuro.

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Para começar, desde a infância associamos a masculinidade com habilidade atlética. Homens que praticam esportes são celebrados desde a infância. O padrão normalmente exigido pela maioria de seus professores e técnicos é baseada na força e na competitividade: seja homem, não aceite gracinhas, parta pra cima.

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Quer tirar um homem do sério no esporte? Chame-o de “menina”, “menininha”. E quais são as habilidades ou virtudes das mulheres exaltadas no mundo esportivo desde a formação de atletas?

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Não é difícil de se supor o papel e a importância destes técnicos na vida dos jovens atletas. São nesses profissionais que muitos deles confiam e se espelham. Eles ocupam uma posição fundamental na perpetuação de valores e na formação deles enquanto cidadãos.

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Mas e as treinadoras? A falta de espaço de mulheres em equipes técnicas em todas as modalidades esportivas pode ajudar a entender de certo modo vários comportamentos destes atletas. Nem sempre esporte molda caráter, porque nem sempre os profissionais têm capacidade de transmitir os devidos valores de uma sociedade justa e sem opressão para os esportistas.

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O ambiente esportivo que exalta a masculinidade e reforça esses estereótipos formam atletas como Pétrix. A prova disso são os inúmeros casos de esportistas denunciados por assédio, agressão sexual, jogadores que batem em mulheres e envolvidos em casos de estupro.

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Não digo que seus treinadores têm culpa de tudo que o ginasta fez no Big Brother Brasil, e nem que todos os treinadores e equipes técnicas são responsáveis por condutas contestáveis de esportistas, mas sim que a maioria desses profissionais repete um padrão patriarcal que há séculos oprime as mulheres, e que é muito reproduzido no esporte.

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O problema é tão estrutural que Pétrix mal consegue associar que suas práticas agressivas contra as mulheres são tão inaceitáveis quanto o abuso sexual denunciado por ele em 2018. Seja no esporte ou na vida, o corpo da mulher é visto pelos homens como algo disponível e descartado, um objeto que pode ser acessado e tocado a qualquer hora por eles, da forma que bem entenderem.

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Lembra da desigualdade de gênero no esporte que a gente tanto fala nessa coluna? Então, a compreensão e a mudança só virão quando essa estrutura for mexida e quando mulheres tiverem mais representatividade e passarem a ocupar o mesmo espaço que os homens ocupam na formação desses atletas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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