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Estudos mostram o impacto do racismo na saúde das crianças

Saiu no site JORNAL O GLOBO

 

Veja publicação original:  Estudos mostram o impacto do racismo na saúde das crianças

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Academia Americana de Pediatria aponta diretrizes para que os médicos adaptem sua prática para lidar com o tema

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Por Isabela Reis

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RIO — O racismo começa a afetar a saúde de crianças e adolescentes ainda no útero. Na gravidez , a exposição prolongada a hormônios do estresse, por exemplo, pode colaborar para o nascimento de bebês com baixo peso e o aumento nas taxas de mortalidade infantil . As consequências são acentuadas pela dificuldade de mulheres negras em ter acesso ao pré-natal.

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É o que afirma artigo publicado, na semana passada, pela Academia Americana de Pediatria , que aponta diretrizes para que os médicos adaptem sua prática para lidar com o tema. É a primeira vez que a instituição utiliza a palavra racismo no título de uma publicação.

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No Brasil, a realidade não é diferente. A pesquisa “A cor da dor: iniquidades raciais na atenção pré-natal e ao parto no Brasil”, publicada em 2017 por pesquisadores da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (ENSP/ Fiocruz ), aponta que grávidas negras têm maior risco de ter um pré-natal inadequado, com menos orientação sobre o trabalho de parto e possíveis complicações na gravidez. Além disso, mulheres pretas receberam menos anestesia local quando a episiotomia — corte na região do períneo para aumentar o canal de parto — foi realizada.

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— Uma das possíveis consequências da violência obstétrica é a baixa produção de leite. A criança que mama menos deixa de ter uma série de vantagens relacionadas ao aleitamento materno. Como o acesso à saúde para a mulher negra ainda é deficiente, elas nem sequer conseguem diagnóstico e tratamento correto para a doença — destaca a enfermeira obstétrica e doutora em epidemiologia Jacqueline Torres.

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Em idade escolar, o racismo pode impactar a saúde mental, tornando-se um dos fatores responsáveis por desencadear doenças psíquicas como a depressão. O comunicado americano cita estudo que aponta que garotos de 10 a 15 anos que tiveram experiências com racismo tornam-se mais propensos a desenvolver problemas comportamentais como agressividade.

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Durante a infância, o estresse pode criar hipervigilância em crianças que sentem que estão vivendo em um mundo ameaçador. As consequências podem incluir estresse pós-traumático, ansiedade e depressão.

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Mudanças no consultório

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A academia americana pede que pediatras estejam cientes dos efeitos do racismo no desenvolvimento infantil e que levem isso em consideração durante o atendimento. Além de reconsiderar a própria visão sobre a questão racial, as autoras propõem que médicos se envolvam mais nas comunidades para compreender a realidade dos pacientes, analisem se sintomas psíquicos podem ter sido provocados por episódios de preconceito e tornem seus consultórios espaços representativos para que as famílias se sintam seguras para falar sobre racismo. Adequações básicas no atendimento podem fazer diferença na saúde geral da população.

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— Pais e responsáveis que relataram ter sido tratados injustamente têm maior probabilidade de ter filhos com problemas comportamentais, como transtorno do deficit de atenção e hiperatividade — aponta Maria Trent, professora de Pediatria da Escola de Medicina Johns Hopkins e uma das coautoras do artigo, em entrevista ao “New York Times”.

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A pediatra e neonatologista do Hospital Universitário Pedro Ernesto Rosane de Souza destaca que o preconceito racial não provoca apenas doenças psíquicas. Em sua rotina, frequentemente recebe meninas de menos de 10 anos com alopecia de tração:

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— O cabelo crespo é tão esticado para fazer penteados, pois a família acha que a sociedade vai aceitar melhor ou por um pedido da criança que já enfrentou situações vexatórias na escola, que essa tração altera a vascularização do couro cabeludo, e o cabelo deixa de nascer — diz Rosane. — Queimaduras na cabeça por causa de produtos alisantes também são comuns.

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O artigo americano também identifica o racismo como um fator que afeta a prestação de cuidados de saúde. A médica e professora em Saúde Pública da Unirio Maria Aparecida de Assis Patroclo atribui à inadequação do sistema de saúde a dificuldade das famílias de levar as crianças a consultas periódicas com pediatras e de mulheres grávidas completarem todas as seis consultas do pré-natal, quantidade mínima recomendada pelo Ministério da Saúde.

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— Se a população negra é a maioria na informalidade e entre os que moram longe do trabalho e, por isso, precisam sair de casa antes de amanhecer e só retornam muito tarde, um posto de saúde que só funciona de segunda a sexta, das 8h às 17h, não atende a essa população.

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Segundo levantamento do IBGE para a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua, de abril a junho deste ano, pretos e pardos eram quase 62% dos empregados sem carteira de trabalho assinada no setor privado, e cerca de 67% no trabalho doméstico informal.

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Para Lúcia Xavier, coordenadora da ONG Criola, instituição de defesa dos direitos humanos e saúde da população negra, a saúde deve ser vista de forma integral, uma soma de medidas sociopolíticas, programáticas e pessoais: o Estado prover qualidade de vida na infraestrutura, o sistema de saúde investir na rede de atenção básica e promoção da saúde, em vez de somente tratamento emergencial as doenças, e o indivíduo precisa ter a inciativa de procurar atendimento.

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Lucia também ressalta como o desemprego e a pobreza — pretos e pardos são 64,3% dos desocupados, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua — pode ser determinante na saúde da população negra.

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— A alimentação, por exemplo, piora com a pobreza e traz consequências. São muitos os fatores socioeconômicos que influenciam nos medidores de saúde: falta de saneamento básico, ausência de coleta de lixo, que deixa os moradores expostos a doenças infecto-contagiosas, baixo acesso à água potável. Precisamos parar de encarar a saúde como compromisso apenas do indivíduo e enxergar também como responsabilidade do Estado.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Transcrição A bióloga e advogada Bertha Lutz nasceu em 1894, filha da enfermeira Amy Fowler e do cientista Adolfo Lutz. Fez parte de seus estudos na Universidade de Sorbonne, em Paris e depois de formada atuou na área de botânica do Museu Nacional até 1964. Sempre participou em causas sociais envolvendo direitos das mulheres, sendo presidente da Federação Brasileira para o Progresso Feminino. Em sua homenagem, todos os anos o Senado entrega o Diploma Berta Lutz a personalidades que se destacam na defesa de direitos das mulheres e das questões de gênero. Em 2003, na primeira edição do prêmio, a então senadora Emília Fernandes, do Rio Grande do Sul, ressaltou o pioneirismo de Bertha em diversas áreas. Emília Fernandes – A mulher cidadã Bertha Lutz, advogada e bióloga que se diplomou em tempo no qual a mulher não tinha outra opção além de tornar-se dona de casa e gerar numerosa prole. Foi uma mulher muito à frente de seu tempo, um tempo de nefasta opressão que, além de negar acesso às instâncias formais de poder, reprimia de maneira terrível todas aquelas mulheres que tentassem romper as barreiras impostas por uma sociedade marcada por valores machistas. Bertha Lutz fez parte do grupo conhecido como sufragistas brasileiras que teve como conquista o voto feminino no país em 1932. Foi a segunda mulher a ser deputada federal no Brasil em 1936. Bertha ainda fez parte da delegação brasileira em 1945 que participou da construção da Carta das Nações Unidas. Ela faleceu em 16 de setembro de 1976.

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