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Em nota, mulheres de caso Saul Klein criticam ‘desqualificação da vítima’

Mídia - 28 de dezembro de 2020

Tempo de leitura: 8min

Saiu no UOL.

Veja a Publicação Original.

Em nota divulgada à imprensa neste domingo, Gabriela Souza, advogada das 14 mulheres que denunciaram estupro e aliciamento de Saul Klein, afirma que a estratégia de defesa do empresário é desqualificar as vítimas, e cita outros casos recentes que isso aconteceu, como o do ator e diretor Marcius Melhem. Klein é ex-acionista da Ferroviária e participante do Comitê Gestor de Futebol do clube

No texto, a representante das 14 supostas vítimas ressalta que as mulheres “não serão silenciadas” e estão sob medida protetiva que as blindam de qualquer exposição.

“A estratégia de desqualificação da vítima é utilizada em diversos episódios de agressão contra as mulheres, como observado recentemente nos casos de Marcius Melhem, Harvey Weinstein, Jeffrey Epstein e tantos outros que tiveram suas faces perversas reveladas em razão da força coletiva de mulheres”, O documento está reproduzido na íntegra no final da matéria.

Relembre o caso

A Folha de S. Paulo revelou na última terça-feira que 14 mulheres denunciaram o filho do fundador das Casas Bahia ao Ministério Público por estupro e aliciamento. Na última quinta-feira, o UOL Esporte publicou matéria detalhando o funcionamento de um suposto esquema de prostituição, aliciamento e abusos sexuais mantido pelo empresário por uma década. De acordo com os relatos, a suposta rede funcionava desde 2008, com festas eventos que duravam dias, reuniam dezenas de garotas na casa de Klein, em Alphaville, e eram palco de abusos.

O empresário está com o passaporte retido pela Justiça e impedido de contatar as 14 supostas vítimas. Klein se defende, através de seu advogado André Boiani e Azevedo, afirmando que era um “sugar daddy”, termo que designa homens mais velhos que têm o fetiche de sustentar financeiramente mulheres mais novas em troca de afeto e/ou relações sexuais.

Segundo a defesa, o empresário contratava uma empresa para agenciar mulheres para suas festas e está sendo “vítima de um elaborado esquema de extorsão depois de cessar a contratação dela”.

“Relações consensuais sacramentadas de acordo com as regras do reconhecido relacionamento ‘sugar’ efetivamente foram praticadas pelo Sr. Saul Klein. A frequência repetitiva das modelos, que livremente frequentaram eventos do Sr. Saul Klein por meses ou anos, se constitui em óbvia prova do consentimento dos relacionamentos, que se tornaram conflituosos exclusivamente na versão fraudulenta levada ao conhecimento do Ministério Público, tudo por conta de interesses patrimoniais inconfessáveis que certamente serão trazidos à tona durante o desenrolar da investigação policial”, diz nota enviada à reportagem.

As mulheres relatam que eram submetidas a controle de peso, pressionadas por terceiros a realizarem procedimentos estéticos e a manter relações sexuais com Klein, sempre sem o uso de preservativos, mediante remuneração de R$ 3 mil a R$ 4 mil por semana.

A rotina era complementada por uma série de exigências especiais, como aulas de piano, balé, debates e até performances teatrais dos filmes contidos nos DVDs. A reportagem apurou que pelo menos duas mulheres que frequentaram a residência de Klein tiveram problemas de saúde e transtornos psicológicos.

Pelo menos três garotas assinaram contratos de R$ 800 mil comprometendo-se a ficar em silêncio. O empresário alegou na Justiça que um dos acordos foi fechado sem a sua autorização, e conseguiu provar, através de perícia, que a sua assinatura era falsa. Os outros teriam sido assinados mediante ameaça de divulgação de fotos íntimas.

Leia a nota na íntegra:

*Nota da defesa conjunta de 10 sobreviventes de Saul Klein à imprensa*

As vítimas de Saul Klein não serão silenciadas e já estão amparadas por medida protetiva, que as protege de exposição. Todas as medidas judiciais serão adotadas e a defesa das vítimas será feita dentro do processo, em busca da justiça.

Predadores são aqueles que cometem violências sexuais de forma reiterada, usando superioridade hierárquica (social, patrimonial, espiritual, etc) para cometer crimes sexuais e,através do seu “poder” operar o silenciamento das vítimas, normalmente com histórico de vida que as tornam vulneráveis aos ataques. Quando descobertos, tentam reverter a culpa para as sobreviventes, suas roupas, seus comportamentos.

A culpa nunca é da vítima.

O caso de Saul Klein escancara a perversidade de um predador sexual que ostenta poder e dinheiro para cometer diversas violências de gênero. As sobreviventes repudiam veementemente a alegação de que ele era sugar daddy ou que a relação havia consentimento. Primeiramente porque um “pai doce” não violenta, não humilha e não estupra. Em segundo lugar, necessário esclarecer que não houve consentimento para qualquer ato e qualquer relação reportada, assim como em qualquer relação que se dá por meio de abuso de poder, ameaças psicológicas, financeiras e de qualquer outra espécie.

Destacam que mulheres que buscam seus direitos foram historicamente taxadas de perversas, discurso que é responsável pela perpetuação de uma cultura do estupro que faz com que o Brasil seja o 5º país mais violento do mundo para mulheres.

A estratégia de desqualificação da vítima é utilizada em diversos episódios de agressão contra as mulheres, como observado recentemente nos casos de Marcius Melhem, Harvey Weinstein, Jeffrey Epstein e tantos outros que tiveram suas faces perversas reveladas em razão da força coletiva de mulheres.

Quanto às vítimas, urge pensar no momento delicado pelo qual estão passando, abaladas psicologicamente e em meio ao recesso do Poder Judiciário, portanto as providências cabíveis contra todos os envolvidos serão tomadas a partir de janeiro.

Desde já elas repudiam qualquer alegação que desloque a culpa do agressor para qualquer vítima ou exponha sua vida, sua intimidade e use dossiês machistas na tentativa de desqualificação e se solidarizam com todas as mulheres que sofrem qualquer tipo de violência, esperando que nesse processo sejam respeitadas e se alcance a justiça diante de inúmeras violações dos direitos humanos praticadas por Saul Klein durante anos.

As vítimas prezam pela dignidade da pessoa humana e por princípios constitucionais que defendem o direito da liberdade das mulheres sobre suas escolhas, seus corpos, suas decisões. Esses direitos são violados por homens que abusam de poder econômico, da falta de conhecimento das vítimas e de manipulação psicológica sobre elas.

A sociedade tem acompanhado diversos casos de abuso como este e se percebe um comportamento padrão em que os acusados alegam serem vítimas de complô, atribuindo imagem de desequilíbrio psicológico e emocional às mulheres, não raro definidas como “loucas” e as vitimas sentadas no banco dos réus.

A defesa das sobreviventes de Saul Klein enfatiza que as mulheres vítimas de predadores, unidas, podem levar esses casos ao Judiciário em busca de justiça. Para muito além de uma nota para a imprensa, esta é uma nota para as milhares de sobreviventes de predadores: vocês não estão sozinhas quando fizerem suas denúncias. Ao longo dos anos, homens sempre usaram a linguagem do poder e do dinheiro para terem seus direitos perfectibilizados e não há mais como admitir que uma mulher que busque justiça e reparação na esfera moral, patrimonial e existencial.

Pelas violências a qual foram submetidas e a devida reparação de marcas que carregarão ao longo da vida, de sonhos perdidos e por violações aos seus direitos seja entendida como interesseira – até porque nas situações inversas, em que um homem o faz, é visto apenas como alguém que exerce seu direito. acusado está impedido de deixar o Brasil em função da gravidade das denúncias e da semelhança entre os depoimentos, que indicam claramente a veracidade das falas. Além disso, diversas sobreviventes já possuem medidas Protetivas visando garantir sua segurança.

A palavra da vítima de violência sexual tem validade diferenciada, uma vez que o crime ocorre em ambiente íntimo com prevalecimento de força e de poder patriarcal. Assim, apenas o simples relato da vítima é suficiente para a investigação.

Nesse caso, além do depoimento de dezenas de mulheres, as provas nos autos são contundentes, impactantes e chocantes. Como na maioria dos casos de abuso, desde que a notícia foi divulgada outras mulheres já entraram em contato com a defesa das vítimas.

Quem sofreu abusos por parte do acusado ou tiver informações que possam ser úteis ao processo pode entrar em contato por meio do projeto Justiceiras, responsável pelo acolhimento inicial das sobreviventes de Saul Klein (pelo site www.justiceiras.org.br ou no perfil do Instagram @justiceirasoficial) ou email gestao@justiceiras.org.br

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