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Antes da violência física: programa ajuda mulheres a identificar os primeiros sinais de abuso

Saiu no site O GLOBO

Projeto gratuito mostra como medo, controle, isolamento e outras formas de violência podem passar despercebidos e oferece apoio para romper esse ciclo

Nem sempre a violência chega com marcas visíveis. Às vezes ela aparece como insegurança constante, medo de ocupar determinados espaços, controle disfarçado de cuidado, isolamento ou dúvidas sobre a própria percepção da realidade. Em muitos casos, também não é identificada imediatamente por quem a vive.

Foi olhando para essas diferentes formas de vulnerabilidade que surgiu o Programa Empoderadas, iniciativa voltada à prevenção e ao enfrentamento da violência contra meninas e mulheres que hoje atua em diferentes regiões do estado do Rio, por meio de uma rede que combina orientação preventiva, acolhimento multidisciplinar e incentivo à autonomia financeira. Na região do GLOBO-Barra, há polos do projeto no Itanhangá, na Ilha da Gigoia e em Curicica.

Criado pela especialista em segurança feminina Érica Paes, o programa nasceu antes de ganhar estrutura pública. Faixa preta de jiu-jítsu e ex-atleta profissional de MMA, ela conta que a iniciativa começou a partir da própria trajetória e da percepção de que conhecimentos relacionados à segurança e prevenção poderiam ajudar outras mulheres a reconhecer riscos e ampliar possibilidades de proteção. Atualmente, o programa é vinculado à Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos do Rio de Janeiro.

Segundo Érica, a ideia surgiu depois que experiências pessoais mostraram que técnicas aprendidas nas artes marciais iam além do esporte e poderiam salvar vidas. O que começou como aulas gratuitas oferecidas em um horário cedido dentro de uma academia foi crescendo de forma espontânea, reunindo mulheres de diferentes idades, profissões e histórias de vida até se transformar em uma política pública estruturada em polos espalhados pelo estado.

Mas, ao contrário do que o nome ou a presença do tatame podem sugerir, o foco não está no confronto físico.

Mas, ao contrário do que o nome ou a presença do tatame podem sugerir, o foco não está no confronto físico.

— A gente não ensina mulher a bater em homem. A gente ensina mulher a se defender e se prevenir de possíveis riscos — resume.

A metodologia adotada pelo programa parte da ideia de prevenção. As atividades envolvem leitura corporal, percepção de risco, identificação de sinais de abuso, orientação sobre segurança em diferentes ambientes e rodas de conversa que conectam os conteúdos à realidade de cada território. Ao redor dos tatames também acontecem acolhimentos psicológico, jurídico e social, além de cursos profissionalizantes voltados para geração de renda.

Érica explica que essa estrutura nasceu da observação de um padrão recorrente entre as mulheres atendidas: muitas não chegam relatando violência.

— Elas chegam falando de insegurança, medo, ansiedade. E, ao longo do processo, começam a perceber situações que antes pareciam normais — conta.

Foi o que aconteceu com X., aluna do polo da Ilha da Gigoia. Ela conta que conheceu o programa por acaso. Procurava uma atividade para a filha quando passou em frente ao espaço e decidiu entrar para entender do que se tratava. Encontrou um grupo de mulheres reunidas, ouviu falar sobre prevenção e acolhimento e resolveu participar.

Naquele momento, ainda não percebia que também buscava ajuda. Durante quatro anos viveu um relacionamento marcado por violência psicológica e, segundo ela, demorou para identificar aquilo como uma situação abusiva. Frequentemente questionava a própria percepção, assumia culpas que não eram suas e normalizava comportamentos que afetavam suas autoestima e autonomia. Foi durante as conversas com psicólogas e os encontros promovidos pelo programa que passou a reorganizar essas experiências e reconhecer o que estava vivendo.

— Eu achava que aquilo era normal dentro de um relacionamento — diz X.

Para a aluna, um dos principais aprendizados foi entender que determinadas formas de violência não acontecem de forma explícita e que outras mulheres viviam situações semelhantes. O acolhimento psicológico oferecido pelo programa ajudou a organizar pensamentos e a construir outra leitura sobre relações afetivas, convivência social e limites.

Ela lembra que, com o tempo, mudou também a forma de circular pela cidade e observar situações ao redor. Hoje presta mais atenção aos ambientes, reconhece sinais de vulnerabilidade e acredita que desenvolver um olhar coletivo entre mulheres também faz parte da prevenção. Para X., perceber quando outra mulher está desconfortável ou em risco pode ser tão importante quanto identificar os próprios limites.

Se a trajetória de X. mostra como o acolhimento pode ajudar mulheres que já vivem situações de violência sem reconhecê-las, a experiência de Maria Cleonice da Silva aponta para outro caminho: o da prevenção.

Aluna do Polo Itanhangá desde 2024, Maria entrou no Empoderadas interessada nas técnicas de segurança e sem relacionar sua participação a uma experiência específica de violência. Com o passar das aulas, porém, percebeu que também havia vivido situações que nunca tinha interpretado dessa forma.

Ela conta que passou a entender o que era violência patrimonial e violência verbal e percebeu que muitos comportamentos acabaram sendo naturalizados dentro dos relacionamentos e da rotina.

Além das aulas no tatame, Maria participou de oficinas e cursos profissionalizantes oferecidos pelo programa — entre eles, maquiagem, design de sobrancelhas e culinária. A experiência abriu novas possibilidades de renda, e hoje ela trabalha durante o carnaval realizando maquiagem para integrantes de escolas de samba.

— Hoje eu observo mais os lugares, penso mais sobre determinadas situações e entendo melhor quando existe uma tentativa de controle ou imposição — afirma Maria.

Ao falar sobre o futuro, Érica diz que programas como o Empoderadas não deveriam existir para sempre. Para ela, o caminho para reduzir a violência passa por informação, educação e mudança cultural. Enquanto isso não acontece, diz que o objetivo continua sendo o mesmo que motivou os primeiros encontros no tatame: oferecer ferramentas para que mulheres possam viver com mais autonomia, segurança e dignidade.

— Porque, no fim, o que a gente quer é o direito de ir e vir e voltar para casa — completa Érica.

As inscrições para o Programa Empoderadas são gratuitas e podem ser feitas diretamente nos polos ou pelos canais oficiais do projeto.

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