Saiu no site Infomoney
Elas vivem quase sete anos a mais, ganham 21,3% menos ao longo da carreira e saem do mercado mais cedo. A soma desses três fatores produz um efeito negativo na aposentadoria feminina.
A conta que não fecha: por que a aposentadoria da mulher custa mais caro
Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores
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Publiquei há pouco tempo, no Instagram do Manas Investem, um conteúdo sobre aposentadoria feminina que alcançou muito mais gente do que eu esperava. Mais do que a repercussão do tema, o que me chamou atenção foram os comentários. Muitas mulheres relataram que nunca haviam parado para fazer essa conta.
A conta é simples de explicar e desconfortável de encarar: a mulher brasileira precisa de mais dinheiro do que o homem para financiar sua aposentadoria, mas constrói esse patrimônio a partir de uma base menor.
A regra que parece um benefício
Pela regra de idade mínima estabelecida pela Reforma da Previdência, mulheres que cumpram os demais requisitos legais podem se aposentar pelo INSS aos 62 anos, enquanto os homens se aposentam aos 65. São três anos de diferença.
No debate público, isso costuma ser tratado como uma vantagem concedida às mulheres em reconhecimento à dupla jornada enfrentada por muitas delas, que conciliam a carreira profissional com a maior parte das responsabilidades domésticas e de cuidados com a família.
Do ponto de vista financeiro, porém, aposentar-se mais cedo significa duas coisas: menos tempo para contribuir e mais tempo para consumir os recursos acumulados. Some-se a isso a expectativa de vida feminina, de 79,9 anos, contra 73,3 anos para os homens, segundo o IBGE, e chegamos a quase 18 anos de aposentadoria a serem financiados por elas.
E isso é apenas uma média porque quem viver além dos 79,9 anos precisará sustentar sua renda por ainda mais tempo.
Uma base de contribuição menor
O 5º Relatório de Transparência Salarial do Ministério do Trabalho e Emprego, divulgado em abril deste ano com dados de 53,5 mil empresas, mostrou que as mulheres recebem, em média, 21,3% menos do que os homens. Na prática, essa diferença equivale a R$ 1.073 por mês.
O detalhe que transforma essa disparidade em um problema previdenciário, e não apenas salarial, está no método de cálculo. O benefício do INSS é apurado com base no histórico de contribuições. Portanto, salários menores ao longo da vida profissional vão resultar benefícios menores na aposentadoria.
Ou seja, a desigualdade salarial não termina quando a carreira acaba. Ela é carregada para dentro da aposentadoria e acompanha a mulher por décadas.
As pausas cobram juros
Há ainda o efeito das interrupções na trajetória profissional feminina. Já falei sobre isso no artigo “Por que muitas mulheres que ganham bem ainda não têm patrimônio?”, mas vale reforçar.
Pausas na carreira, redução de jornada e até a recusa de promoções para acomodar responsabilidades familiares impactam diretamente a renda e o crescimento profissional. E todos esses fatores geram consequências para a aposentadoria.
Uma pesquisa da FGV aponta que 48% das mulheres perdem o emprego em até 24 meses após o retorno da licença-maternidade, sendo a maior parte dos desligamentos por iniciativa do empregador. Dados do IBGE mostram ainda que elas dedicam cerca de 21,3 horas semanais a cuidados e afazeres domésticos, quase o dobro das 11,5 horas registradas entre os homens.
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O problema é que trabalho doméstico não se transforma em salário e, consequentemente, não gera contribuição previdenciária.
Por isso, uma demissão após a licença-maternidade ou uma pausa na carreira para cuidar da família representam mais do que uma interrupção profissional. São períodos sem contribuição ao INSS, sem aportes em previdência privada e sem investimentos no mercado financeiro. Com o passar dos anos, o impacto se acumula.
E quase ninguém está se preparando
O Raio-X do Investidor Brasileiro, feito pela Anbima em parceria com o Datafolha, mostra o tamanho desse descompasso. Entre as pessoas que ainda não se aposentaram, 60% esperam se sustentar com a previdência pública. Entre os aposentados, cerca de 90% dependem efetivamente dela.
A diferença entre esses dois números revela a conta que muita gente não fez a tempo. Quem imaginava complementar a renda com investimentos ou previdência privada frequentemente chega à aposentadoria sem ter construído essa reserva.
Causa espanto também que a preparação para uma fase da vida em que buscamos paz, dignidade e tranquilidade financeira esteja perdendo espaço. Segundo o mesmo levantamento da Anbima, a parcela de brasileiros economicamente ativos que já começou a formar uma reserva para a aposentadoria caiu de 18% para 16%, atingindo o menor patamar da série histórica.
O que muda essa conta
Nada disso se resolve com sorte e tampouco depende apenas de disciplina individual porque parte do problema é estrutural e envolve desigualdade de renda, divisão desigual das responsabilidades de cuidado e falta de acesso à informação e planejamento financeiro.
Ainda assim, existem decisões que estão ao alcance de qualquer mulher.
A primeira é descobrir quanto custa seu padrão de vida atual, pois esse é o valor que a aposentadoria precisará sustentar. A segunda é reunir tudo o que já foi construído entre INSS, previdência privada e investimentos para identificar o tamanho da lacuna. A terceira é programar aportes automáticos, mesmo que pequenos, tratando esse dinheiro como uma despesa fixa, e não como aquilo que sobra no fim do mês.
Há um argumento que costuma convencer até quem não se interessa pelo tema: como as mulheres vivem, em média, quase sete anos a mais do que os homens, muitas das que hoje são casadas passarão uma parte relevante da vida administrando o dinheiro sozinhas.
Por isso, esta conversa não diz respeito apenas às mulheres. Ela diz respeito à segurança financeira de famílias inteiras.







