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Anitta e a fama de ‘difícil’: por que mulheres firmes ainda enfrentam esse rótulo

Saiu no site O GLOBO

Cantora já comentou sobre a própria reputação, levantando uma discussão sobre liderança, limites e expectativas nas relações

Anitta já falou algumas vezes sobre a fama de ser exigente e “brigona”. Direta nas entrevistas e conhecida por acompanhar de perto as decisões relacionadas à própria carreira, a cantora também afirmou não ter “noia” de agradar o público. A forma como ela se posiciona, no entanto, levanta uma questão que vai além da celebridade: por que algumas pessoas são vistas como determinadas quando adotam uma postura firme, enquanto outras acabam classificadas como difíceis?

A diferença nem sempre está apenas no comportamento. Expectativas sobre como alguém deveria agir também influenciam essa percepção, especialmente quando se trata de mulheres em posições de liderança.

Para Ciro Jorge, especialista em saúde mental e psiquiatria, ser direto, estabelecer limites ou ter padrões elevados não indica, por si só, um problema psicológico.

“Ser exigente, falar de maneira direta, estabelecer limites ou querer controlar aspectos importantes do próprio trabalho não significa, por si só, que alguém tenha um problema psicológico. O que precisa ser observado é como esse comportamento aparece nas relações. Existe espaço para ouvir o outro, reconhecer erros, negociar e lidar com frustrações ou todos ao redor precisam constantemente se adaptar àquela pessoa?”, explica.

No ambiente profissional, características como firmeza, cobrança e capacidade de tomar decisões podem fazer parte do exercício da liderança. Fora dele, porém, os mesmos comportamentos podem ser percebidos de outra maneira. O contexto, a frequência e a forma como a pessoa reage às opiniões e aos limites dos outros ajudam a diferenciar assertividade de uma postura que pode gerar conflitos recorrentes.

A avaliação também pode mudar quando o comportamento parte de uma mulher. A expectativa de que elas sejam mais conciliadoras e disponíveis ainda influencia a maneira como determinadas atitudes são recebidas.

“É importante separar uma pessoa realmente agressiva ou inflexível de uma mulher simplesmente assertiva. Existe uma expectativa cultural de que mulheres sejam mais conciliadoras, acolhedoras e disponíveis. Quando uma mulher estabelece limites, discorda ou ocupa uma posição de comando com firmeza, isso pode causar desconforto e ser interpretado como arrogância ou dificuldade de convivência”, afirma a psiquiatra e pesquisadora Camilla Nicolucci.

A própria Anitta já falou sobre o contraste entre a imagem pública e a pessoa por trás dela. No documentário “Larissa: O Outro Lado de Anitta”, a cantora aborda a relação com a persona que criou para a carreira e a dificuldade de separar completamente essa personagem da vida pessoal.

A construção de diferentes versões de si mesma, porém, não é exclusiva de pessoas famosas. No trabalho, em relações familiares ou entre amigos, é comum que alguém adote posturas diferentes conforme o ambiente. O problema aparece quando uma maneira de reagir se torna tão rígida que dificulta a adaptação às situações e compromete os vínculos.

“Todos nós assumimos papéis diferentes dependendo do ambiente. O problema surge quando determinado modo de funcionamento se torna tão rígido que a pessoa não consegue abandoná-lo nem em espaços seguros. Estar permanentemente em estado de defesa, controle ou cobrança pode gerar desgaste emocional e afetar os vínculos”, observa Ciro.

Também não é possível avaliar a personalidade de uma pessoa a partir de aparições públicas ou de relatos pontuais. No caso de uma celebridade, existe ainda a diferença entre a imagem construída para o público e a forma como ela se comporta na intimidade.

Para Camilla, a questão está menos em tentar definir quem é “difícil” e mais em observar o impacto das próprias atitudes nas relações.

“Uma personalidade forte não precisa ser suavizada para caber na expectativa dos outros. O ponto saudável está em conseguir ser firme sem perder empatia, estabelecer limites sem desrespeitar e reconhecer quando determinada forma de reagir começa a provocar sofrimento para si ou para quem está ao redor”, concluiEntre firmeza, assertividade e dificuldade de convivência, portanto, não existe uma linha única. A percepção depende do contexto, mas também da capacidade de cada pessoa de ouvir, negociar e reconhecer os efeitos do próprio comportamento.

 

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