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Águas de São Pedro, no interior de São Paulo, foi a melhor ranqueada em levantamento que apura as condições de vida das mulheres no Brasil
O município de Águas de São Pedro, no interior de São Paulo, apresenta as melhores condições de vida para mulheres entre as cidades brasileiras. Apesar da liderança no ranking, nenhum município do país foi considerado adequado para o gênero. Os dados são do Índice Municipal de Gênero (IMG), levantamento inédito elaborado pela Tewá 225.
O levantamento avaliou os municípios a partir de indicadores relacionados a áreas como saúde, educação, trabalho e renda, participação política, segurança, proteção social, infraestrutura e mobilidade. Ao todo, foram considerados 17 indicadores, definidos com base em critérios de disponibilidade, qualidade, atualização e cobertura municipal dos dados. A análise abrangeu os 5.570 municípios brasileiros.
A média nacional do IMG foi de 50,60 pontos. Águas de São Pedro lidera o levantamento, com 67,06 pontos. A cidade tem menos de 3 mil habitantes. Já o pior resultado foi registrado em Uiramutã, em Roraima, com 28,14 pontos e população de quase 14 mil pessoas. Entre os municípios com mais de 500 mil habitantes, Curitiba, no Paraná, obteve a maior pontuação, com 65,08 pontos.
O cenário nacional, porém, revela dificuldades persistentes. Em 87,18% dos municípios, pelo menos uma das dimensões avaliadas ficou abaixo de 30 pontos. Além disso, em nove de cada dez cidades, participação política ou saúde estão entre as áreas com os resultados mais baixos.
Principais entraves para as mulheres
- A participação política é a dimensão com pior desempenho para as mulheres nos municípios brasileiros. A média nacional é de 29,59 pontos, e 68,7% das cidades não têm Conselho Municipal dos Direitos da Mulher.
- A Saúde aparece como outro gargalo, com média nacional de 30,42 pontos. De acordo com o levantamento, apenas 24,74% das gestantes realizaram seis ou mais consultas de pré-natal. O acesso a exames preventivos, como o Papanicolau, também é limitado: somente 36,14% das mulheres têm acesso a esses procedimentos.
- Os resultados também variam conforme a região. Na dimensão da participação política, o Nordeste registra a maior média, de 38,17 pontos, enquanto o Sudeste tem a menor, de 22,14. Na saúde, o Sul apresenta o melhor desempenho regional, com 37,29 pontos. O Norte aparece na outra ponta, com 20,51.
- Nas cidades com os piores indicadores, mulheres negras e indígenas estão entre as mais afetadas. Segundo o levantamento, 64,15% delas estão na região Norte do país.
- Em trabalho e renda, a média nacional foi de 40,41 pontos. A taxa média de ocupação feminina ficou em 39,48%.
- O levantamento também identificou uma relação entre a oferta de creches e a autonomia financeira das mulheres. Nos municípios com maior cobertura de creches, de 18,4%, a pontuação na taxa de ocupação feminina chega a 66,26 pontos.
O vácuo da segurança
A segurança registrou a maior média entre as dimensões avaliadas, com 91,88 pontos. O resultado, no entanto, exige cautela: segundo o IMG, essa também é a área em que a falta de informações aparece de maneira mais evidente.
Segundo o levantamento, 27% dos municípios (1.480 cidades) não registraram nenhum caso de feminicídio. Também há ausência de registros de estupro em 591 municípios e de violência doméstica em 84 municípios, o que indica que pontuações elevadas podem refletir subnotificação, e não necessariamente maior segurança para as mulheres.
A ausência de notificações, contudo, não significa necessariamente que esses locais sejam mais seguros para as mulheres. O próprio levantamento alerta que pontuações elevadas podem refletir subnotificação ou falta de dados, e não a inexistência de violência.
Para Luciana Sonck, mestre em planejamento territorial, especialista em governança e CEO da Tewá 225, a falta de informações compromete a formulação de políticas públicas voltadas à proteção das mulheres.
“O fato de que a dimensão da segurança pontuou melhor no IMG é um achado muito importante para o gestor público. Isso porque a ausência de informações é parte do problema, uma vez que sem isso não é possível criar políticas que visem a proteção dessas mulheres e garantam seu bem-viver antes mesmo que seus direitos sejam violados. Por isso, quando o município apresenta zero feminicídios ou zero estupros registrados, isso é um ponto de atenção”, afirmou.
“Existe um enorme vazio de dados de gênero no Brasil, o que faz com que as mulheres sigam invisíveis e deixem de ser prioridade nas políticas públicas”, destacou Luciana.









