Saoi no site O GLOBO
Sou dos tempos do Orkut. Quando esse embrião das redes sociais surgiu, eu apresentava o jornal local, e criaram uma comunidade chamada “Eu amo a Ana Paula do RJTV”. Eram cerca de 200 pessoas, e fiquei muito lisonjeada. Alguns dias depois deparo com outra comunidade, “Eu odeio a Ana Paula do RJTV”. Duas pessoas participavam. Duas. E adivinha qual das comunidades virou assunto na terapia? Foi meu primeiro contato com o ódio público e sua capacidade de nos mobilizar.
Naquela época, jamais poderia imaginar a proporção a que chegariam os ataques distribuídos pelas redes sociais. A ONU Mulheres escolheu a violência digital como tema deste ano. Produziu um relatório tratando especificamente dos ataques a jornalistas, ativistas, comunicadoras em geral. São mulheres que postam opiniões, análises, se expõem, participam do debate público. Elas relatam ser alvo de importunação sexual, montagens de nudes, compartilhamento não autorizado de imagens pessoais e ofensas machistas. Nessa terra de ninguém que ainda é a internet, os ataques a mulheres ganham contornos específicos, quase sempre ligados à aparência ou à sexualidade.
Mulheres públicas são vítimas preferenciais, mas não as únicas. Basta postar para correr o risco de ser atacada pelo que se é. Nem precisa ser nada polêmico, pode ser uma simples selfie ou até foto em família. Se tiver mais de 40 anos, é criticada pela idade. Dependendo do peso, recebe ofensas gordofóbicas ou é chamada de anoréxica. Se fez procedimentos estéticos, nossa, está toda artificial e repuxada. Se não fez, é desleixada e está envelhecendo mal. A liberdade que sentem para atacar a aparência de uma mulher é espantosa. Entre os agressores, estão homens e mesmo mulheres que se escondem em perfis fake, mas também aqueles que ostentam beleza duvidosa em suas próprias fotos de perfil. Lembro de um antigo comercial de TV em que um sujeito enorme, de bombacha e chimarrão na praia, avaliava mulheres de biquíni para saber quais tomavam um chá dito emagrecedor. Com a internet, essa objetificação do corpo feminino está ainda mais disseminada.
Lucia, de 39 anos, postou sobre faculdade tardia na área de tecnologia e recebeu ofensas raciais, mensagens pregando que ela deveria se automutilar, ameaças de morte e uma outra especificamente abjeta dizendo que ela seria “caçada”, como se não fosse humana. Além de totalmente desproporcionais, os ataques nem têm qualquer conexão com o post original. Depois de um período registrando na delegacia duas queixas-crime por semana, Lucia decidiu sair das redes sociais. O que nos leva de volta à pesquisa da ONU, em que 41% das mulheres disseram se autocensurar antes de postar, preocupadas em evitar a violência on-line.
Na internet hoje, não se trata mais de ignorar e ser superior ao que dizem e pensam de nós, como bem me ensinou minha avó. Ameaças, incitação à violência, difamação, calúnia, violência psicológica, perseguição são todos crimes previstos em lei praticados ali abertamente. Cabe à gente não se render, apoiar as vítimas, denunciar, enxergar a violência dos nossos tempos como ela é. E ousar ser mulher e existir, também no mundo virtual.








