Saiu no site VOGUE
Movidas por ambição esportiva, evolução tecnológica e um novo olhar para a performance, corredoras amadoras estão levando a corrida a outro patamar
Em abril de 1967, uma jovem norte-americana de 20 anos desafiou as regras da corrida de rua. Kathrine Switzer se posicionou na linha de largada da Maratona de Boston, prova até então proibida para mulheres, com o número de peito 261 preso ao moletom estilo jogger cinza. Pouco depois do terceiro quilômetro, um oficial tentou expulsá-la à força do percurso. Switzer foi mais rápida e concluiu os 42.195 km em 4h20, fazendo história. Cinquenta e nove anos depois que ela pavimentou o caminho, a atleta etíope Tigst Assefa estabeleceu um novo recorde mundial feminino ao vencer a Maratona de Londres de 2026 em 2h15min41s.
Hoje, as mulheres não são apenas bem-vindas nas grandes maratonas, elas representam uma fatia cada vez maior, especialmente nas Majors, as cobiçadas provas do circuito Abbott World Marathon Majors, formado por Tóquio, Boston, Londres, Sydney, Berlim, Chicago e Nova York. “O crescimento da corrida feminina é uma tendência mundial que se reflete nas taxas de inscrição e conclusão dos grandes eventos, que precisam cumprir exigências de equidade para obter certos níveis de chancela da World Athletics”, diz Natacha Manchado, gerente de projetos de corrida do órgão internacional que rege o atletismo. Em 1972, primeiro ano da participação oficial feminina em Boston, apenas oito corredoras cruzaram a linha de chegada. Em 2026, elas representam cerca de 45% dos participantes da prova, média semelhante à de outras Majors como Londres (44% das concluintes em 2026) e Nova York (46% das finishers em 2025).
Apesar de ser o sonho de muitas, correr uma Major está longe de ser simples, já que não basta apenas fazer a inscrição.Além de sorteios extremamente concorridos, muitas provas exigem índices classificatórios baseados no tempo obtido em outras maratonas. Mesmo assim, a procura é crescente. Em 2026, mais de 33 mil atletas tentaram se inscrever na Maratona de Boston, mas quase 9.000 ficaram de fora mesmo após atingir o tempo mínimo exigido. O apelo dessas competições se deve, em parte, ao status de exclusividade, mas também à experiência da prova. “As cidades-sede são capitais turísticas. Imagina viver um dos momentos de maior superação da sua vida com grandes pontos turísticos como plano de fundo? Você conhece aquele lugar com um olhar diferente, correndo. É difícil colocar em palavras a emoção que é cruzar a linha de chegada de uma prova dessa magnitude, que reúne pessoas do mundo inteiro”, conta a influenciadora Beatriz Romano, que já correu as Majors de Chicago e Berlim. Esses eventos criaram ainda um movimento batizado de “turismo de maratona”. Segundo a Tokyo Marathon Foundation, por exemplo, em 2025, a Maratona de Tóquio gerou cerca de US$ 100 milhões para a cidade.
Dona de uma maratona sub-3 horas em Boston, Isabella Quarterone, diretora de marketing esportivo, corredora e triatleta, explica que uma transformação acontece quando alguém decide se dedicar à performance, mesmo de forma amadora. “Performance significa dar o seu melhor naquilo que se dispõe a fazer, ter escolhas mais intencionais, se comprometer com o processo. Uma coisa puxa a outra: mudar a alimentação, priorizar o sono, se cercar de pessoas que respeitam esse estilo de vida”, aponta. Na mesma linha, a empresária Marina Richwin, que ganhou o título de maratonista mais rápida do Brasil em 2025, após correr a Maratona de Valência em 2h36, explica que há também uma mudança de mentalidade quando você decide explorar esse potencial: “Sempre me diverti correndo rápido, mas, depois de concluir a prova de Berlim em 2023 em 2h53, pensei: ‘E se eu realmente levar isso a sério?’. Porque não é apenas sobre treinos mais fortes. É preciso se organizar em torno desse objetivo”.








