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Por que cada vez mais mulheres estão abrindo negócios no Brasil

Saiu no site GLOBO

Atualmente, 10,4 milhões de brasileiras estão à frente do próprio negócio, segundo o Sebrae — um aumento de 42% no período entre 2012 e 2024

Março, marcado pelas discussões em torno do papel das mulheres na sociedade, também evidencia um movimento que vem ganhando força no país: o avanço do empreendedorismo feminino. Hoje, 10,4 milhões de brasileiras comandam o próprio negócio, segundo dados do Sebrae — um crescimento de 42% entre 2012 e 2024. O dado reflete uma mudança de comportamento, com mais mulheres apostando na autonomia financeira e na criação de empresas.

Apesar do avanço, o caminho ainda é atravessado por obstáculos. A dificuldade de acesso a crédito, a burocracia e a sobrecarga na conciliação entre trabalho e vida pessoal seguem entre os principais desafios. Ainda assim, especialistas apontam que o crescimento dessas iniciativas já impacta a economia, com mulheres à frente de redes que geram renda, emprego e inovação.

Para Ana Teresa Welerson, especialista em empreendedorismo e sócia das redes Fast Escova e Fast SPA, essa transformação já é visível no cotidiano. “Essa mudança é muito clara na prática. Nos últimos anos vimos um aumento expressivo de mulheres que decidiram assumir o protagonismo da própria carreira e construir seus próprios negócios. No setor de beleza e serviços, que é o que atuo, isso é ainda mais visível porque muitas mulheres enxergam no empreendedorismo uma forma de unir propósito, autonomia e geração de renda”, afirma.

Segundo ela, há também uma mudança no perfil de quem empreende. “Hoje muitas chegam muito mais preparadas, com visão de gestão, preocupação com experiência do cliente e disposição para aprender. Existe uma nova geração de empreendedoras que não quer apenas trabalhar, mas construir algo com identidade e visão de longo prazo”, explica. Para Ana Teresa, o movimento reflete uma virada cultural: “Vemos cada vez mais mulheres deixando de ser apenas consumidoras para se tornarem líderes de negócios e geradoras de emprego”.

Ainda assim, empreender no país segue sendo um desafio — e, para muitas mulheres, ele se soma a outras responsabilidades. “Empreender no Brasil já é complexo por si só. Burocracia, carga tributária e acesso a crédito ainda são desafios para qualquer empreendedor. Para muitas mulheres, o ponto adicional costuma ser conciliar múltiplos papéis, principalmente quando existe também uma responsabilidade familiar muito presente”, avalia.

Mesmo com as dificuldades, o cenário é visto com otimismo. “As mulheres estão cada vez mais preparadas, buscando formação em gestão, planejamento e liderança. Isso tem elevado muito o nível do empreendedorismo feminino no país. O grande desafio agora não é apenas começar, mas estruturar empresas sólidas e fazer esses negócios crescerem e ganharem escala. O empreendedorismo feminino deixou de ser exceção e passou a ser uma força real na economia brasileira”, diz.

A forma como esses negócios surgem também ajuda a entender o fenômeno. “Quando o empreendedorismo nasce da necessidade, normalmente ele começa como uma forma de resolver uma questão imediata de renda. Já o empreendedorismo por oportunidade surge de uma leitura de mercado: identificar uma demanda, estruturar um modelo de negócio e planejar crescimento”, explica Ana Teresa.

A sobrecarga e a busca por equilíbrio também fazem parte da rotina de muitas empreendedoras. Para Nathalia Andrello, CMO da Orgânico Natural, esse processo envolve mudanças práticas e de mentalidade. “A culpa já fez parte da minha rotina, principalmente por tentar dar conta de tudo sozinha. Com o tempo, entendi que equilíbrio não é perfeição, e sim saber reconhecer limites. Aprendi a delegar, a confiar mais nas pessoas ao meu redor e a aceitar que nem tudo precisa passar por mim”,

relata.

Ela defende que o cuidado pessoal é parte da estratégia de longo prazo. “Ter ambição não significa abrir mão do bem-estar, e cuidar de mim é essencial para sustentar o negócio no longo prazo. Quando respeitei meus próprios ciclos e passei a dividir responsabilidades, empreender ficou mais leve”, afirma.

Para Nathalia, o ambiente de negócios ainda precisa evoluir. “Em muitos ambientes ainda existe uma desconfiança velada em relação à liderança feminina. Em algumas situações, parece que a mulher precisa se provar mais do que o necessário. O mercado precisa ser mais aberto a diferentes estilos de liderança, com menos julgamento e mais espaço para que mulheres se posicionem e ocupem lugares de decisão”, avalia.

Mesmo assim, ela incentiva quem ainda está em dúvida a começar. “Empreender é um desafio e sempre dá um friozinho na barriga, e eu acho que isso faz parte do processo. O medo não some, mas ele diminui quando a gente começa a agir. Começar pequeno, trocar experiências com outras mulheres e confiar na própria visão faz toda a diferença”, aconselha.

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