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Há tantas novas palavras para identificar o machismo que nos machuca

Saiu no site AZ MINA

 

Veja publicação original:  Há tantas novas palavras para identificar o machismo que nos machuca

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Além de criar novas palavras, precisamos destruir os estereótipos que envenenam as histórias que contamos umas as outras, diz a escritora Érica Bombardi

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Quem senta no Divã de hoje é a Érica Bombardi. Foto: Arquivo pessoal

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“Empoderamento feminino é uma expressão que não existia quando eu era adolescente. A palavra ‘feminismo’ existia, mas eu apenas vim a conhecê-la aos 20 anos, na faculdade.

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Faria diferença se eu tivesse conhecido essas palavras antes?

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Dias desses, vi uma nova palavra: mansplaining, que é quando os homens explicam as coisas para as mulheres.

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Há tantas palavras novas para se classificar o machismo. É como se as mulheres estivessem a colocar em um insetário todos esses termos, cada um com suas peculiaridades, esticando as patinhas deles, uma por uma, fixar seu abdome com um alfinete, colar um nome científico logo abaixo dele.

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Fico maravilhada com a capacidade que as mulheres desenvolveram e aperfeiçoaram de identificar o que as machucam e mostrar assim ao mundo todo.

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Mansplaining. Será que faria diferença se eu tivesse conhecido esta palavra antes? Eu a conheci, acho, neste ano.

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Mais e mais mulheres, cada vez mais cedo, estão conhecendo o que é o machismo, identificando-o, e classificando-o no insetário de machismos.

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Cada vez que escrevo, ou digo, o mínimo sobre isso, sobre feminismo, escuto o público masculino bufar. Todo o público masculino, meus amigos, parentes, desconhecidos, caras aleatórios andando na rua, todos eles. Consigo vê-los nitidamente a revirar os olhos, consigo até escutar o barulho dos globos oculares raspando dentro das órbitas. Não sei se há um nome para classificar isso.

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Feministas são sempre vilãs. Eu acabo de escrever isso aqui, mas não é minha esta frase. Eu a li em um texto de Júlia Leonel, chamado Demônia, uma dessas produções jovens de escarlate coragem, de uma dessas mulheres maravilhosas que estão despertando cada vez mais cedo.

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Eu gostaria de ter lido textos como Demônia há 30 anos. Nem digo que gostaria de ter escrito algo assim há 30 anos porque eu não teria conseguido. Não sem conhecer palavras como “empoderamento feminino”, “mansplaining” ou “feminismo”. Não, eu não teria a mínima chance.

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Uma brilhante chance que as mulheres e garotas de hoje têm. E que não é nada de absurdo, e sei que você pode até vir a concordar comigo se parar por um segundo de revirar os olhos.

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A chance de que eu falava: essas meninas, garotas e mulheres têm a chance, a oportunidade, de saber que elas estavam em segundo plano em suas próprias vidas durante muito tempo. Elas finalmente viram os muros que as mantinham presas nos quintais do mundo.

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Agora já sabemos e estamos classificando, criando palavras novas, educando nossas meninas e meninos, estamos escrevendo textos brilhantes e escarlates, estamos sonhando em ser mais livres do que um dia ousamos. Clarice Lispector disse uma vez “liberdade é pouco, o que quero ainda não tem nome”.

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Pois estamos a dar nomes. E cada nome é um martelo. E cada palavra dita em voz alta derruba um pedaço do muro.

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Liberdade é pouco

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Eu também quero mais.

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Eu estou educando meus filhos para isso, e estou me fortalecendo para isso, e estou escrevendo para isso. Sim, escrevendo, porque já cansei de mocinhas que desmaiam, de mulheres que apenas ficam ao lado do herói forte e másculo, daquela que aparece apenas para ser a namorada.

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Cansei das personagens femininas que morrem ao dar à luz, cansei das protagonistas que sempre são abusadas, cansei da moça linda e burra que é odiada por outra moça linda e estudiosa, cansei das histórias criadas para que uma mulher aprenda a ter concorrentes, e não irmãs.

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Além de criar novas palavras, nós todas, nós todos, precisamos destruir os estereótipos que envenenam as histórias que contamos umas as outras para “nos entreter”, para “nos distrair”, “apenas para passar o tempo” e que “não fazem mal algum serem assim mesmo”. Pois fazem. Fazem muito mal. Histórias que contamos a nós mesmas, por menores que sejam, se inscrevem dentro de nós.

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Empoderamento feminino, feminismo, machismo, mansplainingmanterruptinggaslightingbropriating. Conheçamos todas as palavras. Isso faz, sim, a diferença. As palavras nos dão argumentos, ferramentas, instrumentos, para enfrentar o que pode vir.

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E, se não vier, então já teremos chegado lá.”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Transcrição A bióloga e advogada Bertha Lutz nasceu em 1894, filha da enfermeira Amy Fowler e do cientista Adolfo Lutz. Fez parte de seus estudos na Universidade de Sorbonne, em Paris e depois de formada atuou na área de botânica do Museu Nacional até 1964. Sempre participou em causas sociais envolvendo direitos das mulheres, sendo presidente da Federação Brasileira para o Progresso Feminino. Em sua homenagem, todos os anos o Senado entrega o Diploma Berta Lutz a personalidades que se destacam na defesa de direitos das mulheres e das questões de gênero. Em 2003, na primeira edição do prêmio, a então senadora Emília Fernandes, do Rio Grande do Sul, ressaltou o pioneirismo de Bertha em diversas áreas. Emília Fernandes – A mulher cidadã Bertha Lutz, advogada e bióloga que se diplomou em tempo no qual a mulher não tinha outra opção além de tornar-se dona de casa e gerar numerosa prole. Foi uma mulher muito à frente de seu tempo, um tempo de nefasta opressão que, além de negar acesso às instâncias formais de poder, reprimia de maneira terrível todas aquelas mulheres que tentassem romper as barreiras impostas por uma sociedade marcada por valores machistas. Bertha Lutz fez parte do grupo conhecido como sufragistas brasileiras que teve como conquista o voto feminino no país em 1932. Foi a segunda mulher a ser deputada federal no Brasil em 1936. Bertha ainda fez parte da delegação brasileira em 1945 que participou da construção da Carta das Nações Unidas. Ela faleceu em 16 de setembro de 1976.

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