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Medida da Ancine reduz diferenças entre editais de homens e mulheres

Saiu no site CORREIO BRASILIENSE: 

 

Ancine estabelece bancas julgadoras mistas nos editais de cinema com o objetivo de reduzir a diferença de investimento entre os homens e as mulheres

 

Divulgado recentemente, o resultado de um dos editais mais aguardados por cineastas brasileiros comprovou o que muitas diretoras, produtoras e roteiristas supunham há certo tempo. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) definiu 22 projetos vencedores para receber o importante subsídio financeiro de R$ 15 milhões. De todos os filmes brasileiros contemplados, apenas quatro eram dirigidos por mulheres. A diferença chega a R$ 10 milhões se comparado ao valor recebido por homens.

Roteirista e educadora, a paulista Francine Barbosa reitera que esses números refletem um comportamento comum no mercado de cinema nacional. No Brasil e no mundo, fazer um filme é caro. Quando um criador é contemplado com edital, pode viabilizar projetos e, com eles, agregar suas visões de mundo.

“Os financiamentos fazem a engrenagem girar. Servem do estudante que está saindo da faculdade a grandes diretores. A participação das mulheres dificilmente passa dos 30%. O debate político não se dirige apenas aos resultados dos editais. A batalha das mulheres é para que se tenha equidade em todas as etapas. Caso contrário, tem-se a ilusão de que o lugar delas não é ali. Queremos comissões mistas”, afirma. “A discussão é para que a cadeia do cinema seja democrática em todas as esferas, com mulheres cis, trans, negras, moradoras das periferias, é importante deixar isso claro”, completa.

O resultado dos editais é só uma parte de uma engrenagem que parece funcionar muito bem para homens brancos, que não são tão amigáveis com mulheres (principalmente negras). Quando elas ficam de fora de comissões julgadoras que avaliam as obras naturalmente se perpetuam desigualdades e disparidades de gênero na sétima arte.

Uma comprovação, na prática, foi o estudo divulgado pelo Grupo de Estudos Multidisciplinares de Ação Afirmativa (Gemaa), da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. De 1995 até o ano passado, 75% dos filmes de maior público nacionais foram roteirizados por homens brancos. Entre 411 roteiristas, não há nenhuma mulher negra. Outro dado: também em 2016, dos 143 filmes lançados no país, escassos 29 foram dirigidos por mulheres, segundo o Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual.

Paridade de gênero

Diretora-presidente em exercício da Agência Nacional do Cinema (Ancine), Debora Ivanov acrescentou que, dos 29 filmes com diretoras mulheres lançados no ano passado, 14 eram documentários. Para ela, esse resultado tem ligação direta com o menor aporte financeiro destinado a elas, concluindo que documentários, em sua maioria, têm menor custo de produção. Na Ancine, ela conseguiu estabelecer paridade de gênero nas comissões que selecionarão os projetos contemplados com o Fundo Setorial Audiovisual. Atualmente, as bancas são mistas. “Quando conseguirmos estender esse projeto a todos os outros editais, daremos um grande salto”, acredita.

 

Gustavo Galvão/Divulgação

Realizadoras como a cineasta Laís Bodanzky demonstram que o investimento pode valer a pena. Para produzir o longa Como nossos pais ,ela foi agraciada com R$ 3 milhões advindos do recurso do Fundo Setorial Audiovisual, do programa Brasil de Todas as Telas. Protagonizado por Maria Ribeiro, o drama familiar teve ótima acolhida em festivais internacionais e ganhou o prêmio de melhor filme no Festival de Cinema Brasileiro em Paris, realizado no fim do mês passado. Como nossos pais estreia no país no dia 31 de agosto.

Outro caso recente foi o de Cristiane Oliveira. A premiada diretora contou com apoio do programa Ibermedia e de edital da Ancine para viabilizar o primeiro longa-metragem, Mulher do pai. O filme, nos bastidores, também teve uma boa presença feminina. A porto-alegrense ganhou o prêmio de melhor direção na 18ª edição do Festival do Rio.

Outros resultados

No ano passado, a Ancine (em parceria com a Direzione Generale per Il Cinema) lançou edital oferecendo cerca de R$ 600 mil em capacitação para roteiristas e a realização de seis longas-metragens. Dos 94 projetos aprovados, apenas 29 eram liderados ou tinham mulheres na equipe, ou 1/3 do total. Em 2015, o edital da Ancine e do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE) de coprodução entre Brasil e Portugal não teve nenhuma mulher entre os contemplados. Os investimentos eram de R$ 1,9 milhões.

Três perguntas / Debora Ivanov

Divulgação / Ancine

 

 

Na prática, o que pode ser feito para diminuir a discrepância entre homens e mulheres agraciados com editais de cinema?
Assim que cheguei à Ancine, eu consegui o apoio da diretoria para estabelecer paridade de gênero em todas as comissões do Fundo Setorial do Audiovisual. Hoje, são 50% de homens e 50% de mulheres nos bastidores. Se você tem uma maior presença feminina nas seleções dos projetos tem, a médio prazo, resultados concretos. Se tem uma comissão quase toda masculina, é natural que o olhar seja mais masculino na narrativa dos projetos. Essa é uma forma concreta que dará resultado daqui para a frente. O Fundo Setorial investe em estados e municípios no Brasil todo. Mulheres de todas as partes do país estão se mobilizando para pedir aos governos locais essa mesma paridade de gênero nos editais. Quando conseguirmos estender esse projeto, daremos um grande salto.

O cinema ainda é um universo machista no Brasil?
Se temos a maior parte da população formada por mulheres, é muito desequilibrado que só 17% das obras produzidas sejam dirigidas por mulheres, ou 21% dos roteiros sejam escritos por elas. As obras que têm ido para cinema e tevê vão com um olhar masculino, sendo que o público, em sua maioria, é de mulheres. É fundamental reequilibrar a liderança dessas obras, de quem escreve o roteiro, quem constrói a narrativa que vai para as nossas crianças, para as famílias, para o público em geral. Estamos em um positivo caminho sem volta. Aqui no Brasil, por exemplo, um grupo de mulheres começou a se reunir via Facebook no final de 2015 e agora são 12 mil. É um movimento real.

Como trazer mais heterogeneidade ao setor?

 

Começando pela tomada de consciência de que nós podemos ocupar este lugar. Muitas mulheres não se candidatam para assumir cargos de liderança, dizem que não precisam, que podem ser como colaboradoras ou apoiadoras. É da nossa criação, da nossa cultura, não nos colocarmos como líderes. Quando fazemos a faculdade de cinema, temos referências masculinas de grandes diretores e roteiristas. Tudo isso vai te intimidando. Precisamos mudar isso. Outra maneira seria colocar nos currículos escolares destaque para as mulheres que foram importantes na história do cinema. Temos muitas.

 

 

 

Veja publicação original: Medida da Ancine reduz diferenças entre editais de homens e mulheres

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